QuintoAndar se rende à realidade e busca aprendizado

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A proposta da QuintoAndar, que divulgava no seu site que pagava R$10,00 para “os mostradores de imóveis” levarem o candidato nos imóveis disponíveis para locação realmente não tem nada de inovadora. Foto: Eugênio Gurgel/Divulgação
A proposta da QuintoAndar, que divulgava no seu site que pagava R$10,00 para “os mostradores de imóveis” levarem o candidato nos imóveis disponíveis para locação realmente não tem nada de inovadora. Foto: Eugênio Gurgel/Divulgação
Empresa QuintoAndar se une à imobiliária tradicional, pois robôs não resolvem problemas

A QuintoAndar, que afirmou que faria tudo online e que nem precisava ter sede física para atender os clientes, pois para ela nas locações não ocorrem problemas, parece que caiu na real. Sem ter profissionais contratados para atender fica difícil manter o locador como cliente. Parece que o modelo não funcionou em Belo Horizonte, pois os proprietários de imóveis não aceitam ser atendidos por robôs que respondem suas reclamações com frases pré-programadas, como se constata no site Reclame Aqui. 

A QuintoAndar, ao se unir à imobiliária tradicional, que antes dizia ser ultrapassada, justificou agora que “a startup compartilhará de toda a tradição que a Casa Mineira já tem no mercado mineiro”. Será que a inovação deu marcha a ré? Será que a ideia que apresentava como revolucionária não convenceu os proprietários de imóveis que perceberam que a QuintoAndar presta serviços na realidade é para os pretendentes à inquilinos, pois realiza locações sem qualquer garantia, deixando o locador no risco de ficar sem receber os aluguéis e encargos (IPTU, taxa de condomínio, água, luz) por vários meses no caso de inadimplência?  

Locação é negócio de risco

Todos sabem que a locação é um negócio de risco e que a maioria dos problemas ocorre justamente no momento em que o inquilino desocupa o imóvel e se recusa a quitar os débitos finais e os danos, os quais muitos vezes atingem elevados valores para que ele possa ser locado novamente. 

Afrontando o óbvio a QuintoAndar afirma que as locações que realiza sem qualquer garantia, apenas 0,5% têm algum problema, o que é impossível de acreditar tendo em vista há milhares de processos em qualquer Fórum das cidades que ela atua e que o percentual de inadimplência é historicamente maior nas locações com fiadores e seguro fiança, tanto é que muitas Cias. de Seguro deixaram de trabalhar com esse produto. Diz que age com transparência, mas o que se constata é a recusa em apresentar a apólice de seguro fiança que dizia possuir para garantir as locações, deixando obscura a forma como trabalha no momento que ocorrer um despejo por falta de pagamento.   

Se a QuintoAndar tivesse sido um sucesso em Belo Horizonte, conforme divulga com seu tremendo marketing, não se recusaria a divulgar os números reais de quantos imóveis intermedia. Certamente não estaria agora divulgando que está aberta para se unir e fazer parceria com as imobiliárias tradicionais, as quais antes criticava.

Corretor qualificado

A proposta da QuintoAndar, que divulgava no seu site que pagava R$10,00 para “os mostradores de imóveis” levarem o candidato nos imóveis disponíveis para locação realmente não tem nada de inovadora. Um corretor qualificado não aceita receber tal remuneração. Será que os locadores sabem disso? Algum profissional aceitaria receber isso para intermediar os conflitos que ocorrem entre o inquilino e o locador, em especial, no momento de uma inadimplência ou devolução do imóvel? Por ser óbvia a resposta, a Startup cedeu à realidade ao constatar que os locadores são sábios e que sem um atendimento real ficaria apenas com o proprietário de imóveis desatento, que não percebe que a startup beneficia em primeiro lugar o inquilino, que é o seu foco. 

Para o locador entender o risco que corre, basta exigir a apólice da Cia Seguradora, relativa ao Seguro Fiança em nome dele e com o endereço do imóvel e constará que ela não existe. 

As imobiliárias tradicionais, especialmente, as que fazem parte de Redes, como a Netimóveis que tem 22 anos de existência, ao interligar quase 70 imobiliárias em Belo Horizonte, unificando procedimentos inovadores, alugam centenas de imóveis com o foco na proteção ao locador, pois para elas o principal cliente é o proprietário do imóvel que merece ter garantias concretas e não apenas ilusão. 

Risco para o proprietário

Alertamos sobre as publicidades das startups que colocam o proprietário em alto risco nos artigos publicados no Diário do Comércio: “Alugar sem garantia é irracional”, em 30/01/19; “Imobiliária: para quem presta serviço?”, em 1º/11/18 e “Propaganda Enganosa”, em 02/07/18.

Dezenas são os casos de locações que acontecem no mesmo dia que o imóvel é colocado à disposição para locação, pois muitas vezes um vizinho, amigo de quem está desocupando ou um pretendente cadastrado na imobiliária já aponta interesse em locar determinado imóvel. Isso é rotineiro, há séculos, nesse ramo ou em outros, como a venda de um carro que alguns amigos avisam que desejam comprar caso ele seja colocado à venda. Nem por isso a Netimóveis divulga tal fato corriqueiro como se fosse uma coisa do outro mundo, sendo que a Startup diz que “foi na cidade que registramos o recorde de aluguel, em uma hora e meia, considerando o momento que o imóvel fez o cadastro até a hora que o inquilino assinou o contrato”. Qual recorde mesmo?

Magia e sedução

Vemos que o que as startups têm realmente de inovador é o marketing, o foco em prestar serviços em primeiro lugar para o inquilino e deixar o locador com alto risco de ter prejuízos, especialmente, no momento da desocupação do imóvel. A magia e sedução da propaganda de que vende inovação sem segurança, ignora que somente em Belo Horizonte, na 31ª Vara de Locações, há 10 mil processos, os quais demoram anos para serem concluídos. Há apenas um Juiz, que apesar de ser muito competente, não tem como fazer milagres e agilizar a solução daqueles que não pagam os aluguéis e danos dos imóveis em pouco tempo. 

Por outro lado, se o proprietário do imóvel acredita que todas as pessoas são honestas e cumpridoras dos contratos, a ponto de ser dispensável o Poder Judiciário, e que não terá nenhum problema, poderia então alugar direto e economiza a comissão da Startup que basicamente faz o contrato e emite o boleto de pagamento do aluguel. Agora, pelo visto está criando locais para atender os clientes, já que viram que o tradicional é o que funciona. 

Kênio de Souza Pereira. 

Presidente da Comissão de Direito Imobiliário da OAB-MG.

Conselheiro da Câmara do Mercado Imobiliário de MG e do Secovi-MG.

Diretor-adjunto do IBRADIM-MG – Instituto Brasileiro de Direito Imobiliário. kenio@keniopereiraadvogados.com.br