Vão legalizar a casa de Mãe Joana!

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Eustaquio02Foi lá nos anos de 1970. Eu, Rodrigo Leste, Dorinha e o Aluísio Moraes fomos entrevistar uma senhora chamada Ruth Prata, que dirigia um estabelecimento de nome “Casa Transitória”, lá no Horto. Era uma casa que acolhia mães solteiras. Elas iam pra lá, recebiam todo tipo de assistência, tinham os filhos e, depois, sumiam no mundo. Na maioria dos casos, davam os bebês para adoção. Dona Ruth dirigia a casa com rigor. Mão de ferro, pra falar a verdade. E era figurinha fácil nos jornais da época, onde divulgava, sem medo, seus pontos de vista. Por isso, nós, os citados acima, fomos entrevistá-la para o jornal “Gol a Gol, se pega no pé é drible”, do DCE da UFMG. Ela era totalmente inserida no contexto da época.

Foi uma noite pra lá de estranha, em que ela, além de dar a entrevista, nos exibiu slides (ampliados) de portadores de doenças venéreas, numa fase, digamos, pré-aids. Foi de matar! “Saímos de lá feito vampiros bêbados”, escreveu o Rodrigo.

“A prostituição é o alicerce da família” foi uma das frases marcantes de dona Ruth, para nos lembrar de que, se não existisse a prostituta, “os rapazes dariam em cima das moças de família”. Uns quarenta anos depois — pasmem! — vejo a mesma frase, numa reportagem da Folha de São Paulo, repaginada pelo delegado-geral da polícia civil de SP, Marcos Carneiro Lima: “A atuação da prostituta acaba trazendo benefícios; descarregamos no ato sexual a energia que poderia ser canalizada para coisas violentas”. Tudo isso em função da proposta para a reforma do Código Penal, que agora quer autorizar o funcionamento dos prostíbulos (também li “lupanares”, em outra publicação). Como se precisasse…

Trocando em miúdos, querem legalizar a zona. Atualmente, o Código pune, com penas de dois a cinco anos (de três a seis se houver menores na jogada) quem mantém casas de meretrício (sem trocadilhos, mas a língua portuguesa, em alguns momentos, é foda!). A proposta atual apenas diz que pode pegar de quatro a dez anos quem induzir alguém à prostituição.

Passo quase que diariamente pela avenida Pedro II, onde, em eras não tão priscas assim, dizem, havia dezenas de bordéis, as famosas casas da luz vermelha. Hoje, nem sinal delas. Uma das mais antigas (e feias) avenidas de Belo Horizonte, a Pedro II foi das que menos mudaram. A maioria dos imóveis ainda é das décadas de 1940 e 1950. Mas, ainda que a prostituição respire a todo vapor nas ruas adjacentes, a avenida, hoje, encontrou sua vocação: o comércio de autopeças, ferro velho, material de refrigeração. Tá bem que os travestis dominam a noite, mas já pintam também como figuras anacrônicas, deslocadas nessa paisagem árida. Uma das justificativas que sustentam a nova proposta diz que, uma vez autorizadas, as casas de prostituição eliminariam um dos maiores focos de corrupção das polícias, que é a cobrança de propinas.

Há coisas, no entanto, que o Código parece desconhecer. O tempo e o progresso, por exemplo, antes da nova lei, já estão moralizando a Pedro II. A frase é de um colega de trabalho que mora no Carlos Prates, bairro que margeia e avenida e, segundo esse meu amigo, estava cada vez mais desvalorizado, devido à prostituição. Mas, eis que, agora a pouco, o pobre coitado me liga apavorado:

— Você viu? Estão querendo legalizar a zona!

É muita hipocrisia. Pois não estamos falando da profissão mais antiga do mundo? Historicamente, desde que não fossem habitadas por suas filhas, irmãs, esposas e mães, a sociedade sempre tolerou as casas de prostituição (ou de tolerância)… Quantas não foram palco de memoráveis façanhas dos “filhos de família”? E quantos sambas, tangos, boleros e até filmes e romances elas já não renderam!

Melhor deixar que o tempo, o progresso e os homens práticos, que já compraram todas as casas de luz vermelha da Pedro II, deem conta do recado. Daqui a pouco, eles estarão investindo na Guaicurus, na Santos Dumont, em todo aquele quarteirão que rodeia a Oiapoque, onde há dezenas dos tais lupanares. Vão derrubar tudo, construir novas lojas, investir… As casas de prostituição, hoje, funcionam dentro dos carrões, no alto da Afonso Pena, nas boates de luxo, exibindo uma face bem mais glamourosa e, às vezes, nem tão cruel assim. Em vez de ficar inventando desculpas pra reformular um Código caduco, deveriam mais era criar alguma coisa dentro dele pra punir quem vive de propina, extorquindo e chantageando. No deles não vai nada, não?

A prostituição, meus caros, tanto quanto a dor, é tão velha que parece que nunca vai morrer. Pode, no máximo, mudar de cara. Mas é bom tomar cuidado. Afinal, quem precisa “autorizar” aquilo que não tem vergonha, nem nunca terá? O que não tem juízo nem nunca terá…
Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Adoro as referências musicais que você vai deixando ao longo do texto…muito bom mesmo!

  • Cláudia Chaves Fonseca

    Ei, Eustáquio, muito boa a sua crônica. Texto leve, gostoso de ler… Parabéns!

  • Daniela Silva

    Não entendi porque citar a casa transitória, pois muitas das mulheres que passaram por lá eram moças de família, pobres, que foram enganadas por seus namorados, e jogadas para fora de casa por suas famílias, como forma de limpar a honra. Lá elas tinham amparo.
    Além do mais, a Dona Ruth sempre foi uma pessoa muito correta em suas palavras e ações, desnecessário depois de sua morte, ser lembrada de forma tão vulgar.
    Infeliz a lembrança e também a informação de duplo sentido. Muitas senhoras que passaram pela casa, hoje são avós, e pessoas que tiveram sim, um passado sofrido.
    Use seu talento para informar a verdade e não para ofender pessoas que já sofreram demais nesta vida, e hoje, procuram apenas viver os anos que ainda lhes restam, em paz.