Uma casa ecológica

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Pra Maria Cecília, Maísa, Rosângela Guerra e André di Bernardi (de um tempo em que ainda se contava e se ouvia histórias)

Uma casa ecológica - Crônica por Eustáquio TrindadeMãe tão grande igual a essa, ninguém jamais viu. Era tão grande, mas tão grande, que morava em todos os lugares. E, ao mesmo tempo, não morava em lugar nenhum. Quem pode morar em todos os lugares e não morar em nenhum?

Só a Natureza. Mãe Natureza morava em todo o universo, mesmo naqueles planetas mais distantes, aqueles planetas feios, sem luz, que ficam lá no finalzinho de tudo, onde só tem pedra e poeira. E também morava no sol, nas estrelas mais lindas, como a estrela da alvorada, a Estrela D’alva.

Só que o universo, como a gente já anda cansado de saber, é grande demais, não tem cara de casa. Quando a gente fala em casa, fala naquele lugar cheio de cantinhos, que nem o quarto da gente, que tem hora que parece uma bagunça, mas que a gente arruma de um jeito que só a gente mesmo é que entende.

Morando nesse universo desse tamanhão, Mãe Natureza não parava pra nada. Seus filhos não lhe davam sossego. Uma hora, era uma estrela bem grandona, daquelas bem convencidas, que acabavam explodindo de tanta vaidade e se transformando em milhares de estrelinhas que se espalhavam feito uma chuva de prata no escuro do céu. Para que umas não trombassem nas outras, Mãe Natureza tinha que correr até lá e por uma ordem naquele caos.

Pior era a gangue de cometas travessos, brincando de pique entre os astros, na maior velocidade, derrubando tudo, deixando todo mundo furioso. Ah, mas eles nem se comparavam aos valentões dos asteróides, aquela gangue de pedras enormes, que ficava a vagar pelo espaço. Às vezes, só por maldade, eles caíam pesadamente sobre os planetas abrindo crateras enormes. Esses eram mesmo os piores. Só de pensar neles, Mãe Natureza tinha pesadelos.

Por isso, corria de um lado para o outro tentando remediar as coisas. As reclamações vinham de todos os cantos. Das nebulosas, das galáxias mais distantes, das constelações, dos planetas, dos satélites, que são aqueles planetas pequenininhos, que nunca vão crescer, vão ficar eternamente como projetos de planetas…

Era problema que não acabava mais. Por isso, sempre que sobrava um tempinho, Mãe Natureza gostava de conversar com uma velha, sábia e imensa estrela, uma de suas primogênitas, chamada Stella Maris, que era muito sua amiga, mas que já estava perdendo os brilhos. É que, por mais que pareçam eternas, as estrelas são igualzinho gente: nascem, crescem e um dia vão perdendo o brilho, se apagando devagarzinho, até morrer. Viram cinza, a tal poeira das estrelas.

Essa estrela, de tão antiga, já estava nas últimas. Por isso, Mãe Natureza se abria muito com ela, falava de seus problemas, da canseira que era ser mãe de todo o universo. Um dia, Stella Maris lhe deu um conselho:

— Você precisa arrumar uma casa que seja só sua. Dê uma voltinha por aí e escolha um planeta bem bonitinho para fazer dele a sua casa.

Mãe Natureza nunca tinha pensado nisso. Uma casa só dela? Sim, por que não? Um lugarzinho para descansar, meditar, fugir dos problemas do universo… Ela adorou a idéia da Stella Maris. No mesmo dia, começou a procurar.
Procura daqui, procura dali, nada… Certo dia acabou se lembrando de uma galáxia muito bonita, chamada Via Láctea, em que havia milhares de planetas novinhos, alguns ainda totalmente intocados. Mãe Natureza queria um planeta que não fosse grande nem pequeno demais. E começou a procurar.

Como a Via Láctea também é grande demais, a procura não foi nada fácil. Até que, um dia, quando já estava meio desanimada, começou a reparar em um sistema solar que tinha uma estrela muito bonita, mesmo sendo de quinta grandeza. Era o nosso sol. E o melhor de tudo é que um punhado de planetas girava à sua volta.

Tinha cada planeta mais bonito que o outro. Um deles, chamado Saturno, tinha centenas de anéis a seu redor. Um outro, chamado Vênus, emitia uma luz brilhante que se via de longe, tal e qual uma estrela. Mas não eram o que Mãe Natureza queria. Saturno era grande demais e os anéis, com o tempo, cansavam a vista. Vênus era pior. O brilho vinha de um manto de gás venenoso que envolvia todo o planeta, para protegê-lo da gangue dos asteróides.

Mãe Natureza teve que começar tudo outra vez. Foi aí que descobriu um planeta que era exatamente o que procurava: nem grande nem pequeno demais. E que ainda tinha um satélite, uma lua prateada que parecia um brinco, de tão linda que era.
Você está desconfiado de que esse planeta é a Terra? Então, acertou.

Mãe Natureza ficou encantada. O planeta não tinha nada. Só umas bactérias que viviam no meio da poeira e das pedras. Ela olhou, mediu o planeta e começou a pensar na decoração da casa. É mais ou menos quando a gente começa a ficar adulto, sai da casa do pai e da mãe, e vai morar num barracãozinho até pobre e sem graça, mas que tem a cara de um palácio, só porque é a casa da gente. Mãe Natureza estava encantada com seu planetinha.
— “Aqui”, pensou, “vou colocar um mar bem azul; ali, os lagos e os rios; lá mais adiante, as montanhas, as geleiras, as cachoeiras, os prados, as matas, as grandes florestas, os vulcões, os desertos…”.

Por fim, os bichos. De uma de suas caixinhas mágicas, tirou bichos de toda sorte. Jacaré, cobra, taturana, dinossauro e uns outros que, na verdade, até que não eram muito interessantes, mas que ela achou que, com o tempo, talvez pudessem evoluir…

O problema é que a confusão pelo universo não parava. Mãe Natureza, às vezes, era obrigada a se ausentar para dar um jeito nas coisas e a arrumação do planeta foi ficando pela metade. E muita coisa caiu, quebrou, saiu do lugar. Quando ela voltou de uma de suas andanças, os dinossauros haviam sumido e outros bichos dominavam a terra. Entre eles, uns muito engraçados, que andavam de pé, sabiam acender fogueira, faziam casas de barro, plantavam, pescavam, caçavam e — o que mais fascinava Mãe Natureza —, às vezes, cantavam e dançavam. Eram os únicos que sabiam fazer isso.

Por causa deles, Mãe Natureza tomou-se de um xodó muito especial pelo planeta que escolheu para morar. Tanto, que teve de segurar uma barra pesada, que foi o ciúme dos planetas vizinhos. Marte ficou vermelho de tanta raiva. Vênus bufava tanto que quase explodiu. Pior foi Saturno. Para chamar a atenção, quebrou vários daqueles anéis enormes… Netuno e Plutão ficaram tão furiosos, que se afastaram do sol e foram morar lá na última avenida do sistema solar.

Não adiantou. Mãe Natureza gostava mesmo era da Terra, pois achava bonito ver como as coisas aconteciam por aqui. Era como se todos fossem parte de uma grande família — as árvores, os mares, os rios, os bichos, os homens, o vento, a chuva… Todos eram irmãos, filhos da mesma mãe, a Natureza.
Mas, quem disse que o universo sossegava? Que nada! E lá ia Mãe Natureza, às pressas, para resolver as coisas em galáxias distantes. Quando os problemas eram mais complicados, era obrigada a se demorar por lá. Às vezes, séculos.

Toda vez que voltava, Mãe Natureza encontrava na Terra uma coisa diferente. Começou a reparar que alguns de seus filhos insistiam em mexer em suas coisas. E todo mundo sabe como é que as mães ficam quando alguém mexe na casa delas.
— Cadê a floresta que eu pus aqui? Quem jogou tinta preta na água do mar? Quem cortou pela metade a montanha que eu deixei ali?

Mãe Natureza ficava furiosa, porque ninguém respondia. Como era generosa, acabava perdoando. Até que um dia, achou que estava perdoando demais. Já não conseguia mais encontrar as matas, os vales, as campinas, as montanhas, os lagos, as cachoeiras e os bichos que, em outros tempos, sabia tão bem onde ficavam. E logo descobriu de quem era a culpa: era da raça humana, aquela que sabia cantar e dançar, mas que também achava que era a dona do planeta. Os humanos não tinham pena de ninguém: perseguiram as onças, as baleias, as focas, as araras, os tigres, as rãs, as zebras, os leões, as chinchilas, os peixes… Às vezes, brigavam entre eles mesmos. Nessas brigas, usavam brinquedos terríveis, que cuspiam fogo, matavam, provocavam rachaduras, buracos enormes no chão e nas paredes da casa de Mãe Natureza, levantando nuvens de fumaça tão poderosas, que chegavam a encobrir o sol. Quando não era essa fumaça, era a outra, a que saía das fábricas. Essa subia bem alto, ficava lá em cima, tapando a visão do sol. As fábricas também despejam um punhado de coisa ruim na água dos rios, que, por sua vez, levavam toda essa sujeira para o mar.

Há muito tempo Mãe Natureza já vinha perdendo a paciência. Ela abriu seu baú de tragédias, onde guardava os vulcões, as tsunamis, os tornados, os furações, as tempestades, os raios — e soltou tudo pela terra.

— Agora, eles vão ver!

Nem assim a raça humana emendava! Isso deixava Mãe Natureza muito triste. Afinal, que mãe gosta de castigar os filhos, por mais levados que eles sejam? Tá certo que, enquanto alguns aprontam, outros estão por aí tentando consertar as coisas. É por causas desses que Mãe Natureza ainda não perdeu de vez a paciência. Mas, uma hora dessas, pode perder. Há muito tempo que ela vem avisando que está a fim de uma nova casa ecológica… Ontem mesmo, uns cometas brincalhões contaram pra ela que, do outro lado da galáxia, tem pelo menos uns dez planetas iguais à Terra.

Mãe Natureza anotou tudo, mas ainda não teve tempo de passar por lá. Por via das dúvidas, que tal começarmos a botar ordem em nossa casa?

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Maria Inês T.Martins

    Acho que o princípio básico de uma civilização é a educação.Com ela se tem conhecimentos dos direitos e deveres de um cidadão,através dela informamo-nos sobre nossa saúde,temos acesso ao que acontece no planeta inteiro,sem sair de casa,em segurança…O que tem a ver ??? Tudo .Só vamos respeitar o planeta em que vivemos e cuidar dele quando tomarmos consciência de que o primeiro lugar que temos que respeitar é a nossa casa,a nossa rua,o nosso bairro,temos que gostar de viver lá,tomar conta…Para tudo isso se tornar realidade e nós vivermos este sonho,mexe com o outro lado;ou seja é preciso saber em quem votar nas eleições,em quem confiarmos a nossa casa,a nossa rua,o nosso bairro.Não há fiscalização de nada nesta cidade,na minha rua há vários exemplos do descaso das autoridades com a comunidade;as cestas fixas de lixo em frente as residências tem duas serventias,lixo aberto(cascas de banana,restos de sanduiche e por aí vai…) e trampolim para menores infratores entrarem em sua casa,roubar e sair tranquilo ,sem ninguém lhe pertubar.Sem falar em um outro inimigo público que aproveitando o descaso daqueles que deveriam zelar por nós e não o fazem;estão tomando conta do pedaço sem o mínimo constrangimento,os ratos.Então “Mãe Natureza “,castigue diretamente a região onde moram os responsáveis por esta baderna e principalmente aqueles que tem o poder nas mãos de interferir e tomar atitudes e não o fazem por omissão,não ao trabalho ,neste caso é omissão do verbo omitir,esconder ,ficar com o dinheiro do povo,entendeu?

  • Estéfano

    Ficou 10, mestre!

    E viva a mãe natureza!!

  • Anderson

    Eustaquio, mandou muito bem!
    Belíssimo texto, parabéns.
    A paciencia da Mãe Natureza já deve estar por um fio.