Um inferno chamado Paraisópolis

0
363

"Um inferno chamado Paraisópolis" Crônica por Eustáquio TrindadeSão cada vez mais estreitos os limites entre a vida e a arte. Consta que a primeira, durante muito tempo, imitou a segunda; hoje, no entanto, não há como desconhecer que a realidade já ultrapassou amplamente a ficção. Tome-se como exemplo o caso de São Paulo, onde a violência explode em números e cenas jamais imaginados — média de dez mortos por dia. Informações nos chegam online, pelos jornais, pelas revistas semanais e, principalmente, pela televisão. No Facebook, chama a atenção uma campanha a favor da redução da maioridade para 16 anos. Segundo um dos mentores, 80% da população brasileira, conforme uma pesquisa informal, já apoiariam a medida, que deverá entrar em pauta na Câmara Federal, em 2013, pelas mãos da bancada evangélica. Em toda a minha vida de jornalista, só vi coisa assim nos tempos sombrios da ditadura militar.

A violência, há tempos, vem sendo o prato principal na cobertura da televisão brasileira. A pergunta que se faz é sobre a ética da cobertura. Exageros, apelos às emoções, a busca intensiva do interesse do público (não o interesse público) por meio de uma sensibilização que deturpa a realidade e desperta imediata reação do espectador. A diferença é que mantém o público dentro de uma esfera de passividade, porque não amplia a discussão em torno de um contexto social mais extenso, preferindo despertar mais a curiosidade do que uma opinião crítica em torno de um fato noticioso. Em vez de ser vista como uma questão social do interesse de todos, a violência é transformada em um conjunto de pequenos dramas familiares que vão mexer muito mais com a curiosidade, despertando ódio e indignação, mas pouca ou nenhuma reflexão.

“São estratégias de marketing que visam apenas o crescimento da audiência, eles não estão interessados em informar”. A observação é do filho de um casal meu, Marlon, que só tem 19 anos e faz jornalismo. Por isso, lê três jornais por dia e vê — “com olhos críticos” (palavras dele) — telejornais e os principais portais informativos da WEB. Os pais são psicólogos, apoiam o envolvimento do filho em questões sociais e acham importante que ele discuta temas que tenham relevância para sua formação como jornalista, mas também como cidadão. E Marlon é um rapaz inteligente, esperto e antenado. Acha que os programas matinais da TV “desinformam mais do que informam”. Neles, a notícia virou um show. Concordo. Há poucos dias, em um desses programas, que agora tem um anão como co-apresentador, premiou com R$ 500 um telespectador que identificou um pão de queijo dentro de uma cesta. Em outro programa, o objeto em questão era um pão francês… A verdade, então, não vem como consequência de uma apuração rigorosa, mas segundo afirmações que surgem sem nenhuma confirmação de culpa, transmitindo ao público uma moral equivocada. Para não dizer perigosa.

Os fait divers são transformados em parte de um espetáculo que nada mais faz do que atacar o lado emotivo das pessoas, sem buscar o racional. Fait divers, como já anotava Edgar Morin, estão tão difundidos no cotidiano das pessoas, que são consumidos a toda hora e em qualquer lugar. Ao se valer da repetição e da busca pela emotividade, a TV não faz mais do que banalizá-los. E ao torná-los rotina, impõe sobre o público um sentimento de conformismo. Fica o público indignado, mas a indignação não pode ser vista aí como uma força positiva, que quer gerar mudanças e propor soluções. Em vez disso, o apelo — via imagens marcantes, textos fortes, inflexões vocais teatrais e gestual dramático — direciona o espectador para a emoção das vítimas, fazendo com que se identifique com sua dor. A disposição de ajudar as vítimas se dá por meio do ódio (clamor pela pena de morte ou pela redução da maioridade) ou do puro assistencialismo. Uma discussão crítica que abordasse a violência em suas raízes jamais é sugerida.

Além da banalização, os programas também se valem de recursos extremamente condenáveis ao ridicularizar tipos, tanto por meio de imagens constrangedoras quanto de comentários e piadinhas que desrespeitam todo tipo de ética. Negros e pobres, uma parcela de gente mal nutrida e feia da população, jamais escapam. Os apresentadores incentivam nos repórteres esse comportamento. Reporta-se a violência segundo uma encenação midiática que não leva a nada, mas a sedução do discurso é poderosa — nos faz sentir como quem vive acuado e põe na berlinda, com o mesmo peso, um trombadinha de 14 anos (“que futuro vai ter esse menino…”), um jagunço que mata missionários no Araguaia, traficantes e terroristas. Tudo e todos têm o mesmo significado e servem ao mesmo projeto. Não discutimos, não avaliamos, só ficamos indignados. Enquanto isso, do outro lado, o crime organizado cresce e a tal ponto, que passa a exigir dos poderes públicos ações extremadas. A população de São Paulo vai sofrer com essas medidas e por ter feito vista grossa ao inferno ironicamente chamado Paraisópolis, que cresceu à sombra do Morumbi. Esse sim, um paraíso de verdade.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.