Um apartamento por andar e nenhum vizinho

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Eustaquio02Há alguns meses, me encontrei com um velho amigo dos tempos de faculdade, jornalista, que tinha acabado de se mudar pro meu bairro, onde comprou um apartamento novinho. “Quatro vagas na garagem, varandão com churrasqueira e um apartamento por andar”, foi enumerando, pra depois emendar: “sabe o que isso quer dizer? Não tem encheção de saco de vizinho”. Só ele, a mulher e dois filhos adolescentes — nenhum dos três dirige — e dois carros. Perguntei se precisava de tanta vaga assim na garagem.

— Agora, não, mas daqui a pouco os meninos crescem, também vão querer carro e aí, já viu né!

No meu prédio há certa alternância de moradores, por isso, não tenho tantos vizinhos amigos. Mas acho que tê-los é sempre um privilégio. Mesmo quando eles fazem de tudo para que não seja assim… Uma vez, num outro bairro, tive um vizinho engenheiro, que hoje deve andar na casa dos 28 ou 30 anos. Neto de japoneses, filho de pai nissei e mãe brasileira, uma mistura que costuma dar belos resultados. Tanto que o irmão mais novo dele, que também cheguei a conhecer, é um dos cinco modelos mais bem pagos de Tóquio e Hong Kong, para onde foi, aos 19 anos, em busca da fama e da fortuna. Encontrou as duas. Pois bem, retornemos ao vizinho engenheiro, de salário de mais de 20 mil, que tinha o estranho hábito de me bater na porta de madrugada, pra pedir garrafa de bebida emprestada. Um dia queria uísque; no outro queria vodca; mais adiante cachaça, champanhe, rum, vinho… Até sakê! Um dia não agüentei mais e perguntei por que ele não montava um bar em casa.

— Você não ganha mais de 20 mil?

— Ganho, mas não bebo, não estou acostumado a ter bebida em casa.

— Mas, então, quem bebe?
Eram as namoradas, que colecionava aos montes. Cada uma mais bonita e gostosa que a outra. E cada uma gostava de um drink diferente — da caipirinha feita com pinga ao dry Martini. Eu tinha outros vizinhos que não gostavam dele. Metido, excêntrico, rei da cocada preta… Esses, com certeza, não haviam reparado ainda em seus modos gentis, na educação esmerada, na correção com que se comportava, mesmo que o vaivém de garotas em seu apartamento fosse intenso — confundiam discrição com pedantismo. A gente se encontrou rapidamente, dia desses, no Maletta. Me contou que estava morando num prédio novo, no mesmo bairro em que moro hoje. Deu endereço, disse que tinha achado a namorada certa — uma que não bebia nem fumava — e que o casamento era questão de tempo. Legal.

De novo encontro meu amigo jornalista. Soube que andou tendo problemas com os vizinhos, mesmo sendo um apartamento por andar, num prédio só de três andares.

— Sabe como é? É a praga da música eletrônica que essa garotada gosta de ouvir… Vizinho fica puto da vida. Acho que foi um deles, um garotão japonês metido a besta, que foi reclamar com o síndico.

Bairro sem muita opção de lazer, acabamos nos reencontrando semana passada, no mesmo bar. Contou que o filho mais velho dele, que tem problema de coração, passou mal à noite. Um carro estava emprestado com o cunhado. O outro não pegou. Nunca tinha acontecido isso antes, mas não pegou de jeito nenhum. Na hora, não se lembrava de nenhum vizinho, a não ser o japonês metido a besta, que morava na cobertura. O mesmo que, sem reclamar, às três da madrugada, emprestou as chaves de sua BMW para que meu amigo levasse o filho ao hospital, onde ficaram até o amanhecer. Nesse dia, o vizinho japonês metido a besta foi trabalhar de táxi, só para não incomodar a família.

Eustáquio Trindade Netto – Jornalista e professor de Jornalismo.

  • Wanessa Andrade

    É muito bom poder apreciar um texto como este! Eustáquio Trintade,seu trabalho é sensacional! Obrigada por nos permitir viajar neste universo tão rico .