Trilha sonora pra quem mora em apartamento e o Michel Teló

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Eustaquio02Regina Lúcia morava no 24º (ou seria no 25º?) andar de um daqueles prédios do JK, o mais largo. A gente trabalhava no mesmo jornal, o Diário de Minas, que ficava ali ao lado, na Praça Raul Soares, e andava com pagamento atrasado. Cinco meses. Quando pagava, era vale, que, todo fim de semana, a gente pressionava pra sair. Era assim: todo mundo ficava na fila que nem como era antigamente no INPS, mãos estendidas, cara de pobre que está pra morrer — “qualquer coisa serve”. Às vezes saia um vale até bom, que dava pra comprar calça Lee; às vezes, não. Aí, vinha a ameaça de greve, todo mundo aprontando a maior zona na redação. Nunca na minha vida — e olha que trabalhei em várias —, conheci redação tão zoneada quanto a do Diário de Minas daquele tempo. E era uma redação competentíssima. Zoneava e arrasava. Tudo que sei de jornalismo, aprendi ali.

Sábado, o programa da gente era se encontrar na casa da Regina pra tomar batida de limão, pois não dava pra comprar outra coisa. Rango? Quando tinha, era biscoito salgadinho. Quando tinha! A cachaçada com limão, não raro, avançava pela madrugada. Muita conversa boa, muito cigarro, muito sonho pra dividir, a radiolinha portátil no tapete do chão e os discos que a gente gostava mais. Eu era fã de Elis. A Regina, da Maria Bethânia. O resto da turma ficava meio dividido. Tinha gente que gostava de Nara Leão, principalmente cantando “Valsinha”, uma música do Chico. E rolava Paulinho da Viola, Vinicius, Chico Buarque, Caetano e Gil. A gente ouvia música de verdade, querendo sacar as letras, falando dos arranjos, tentando entender aquele momento rico da cultura brasileira, apesar da ditadura. Sem música, qualquer encontro era impossível.

Bem, às vezes, quando rolava sair um vale legal, a gente bebia cerveja, gastava metade do vale bebendo cerveja no Barbadinho, que era o boteco de uns gregos, que tinha na entrada da praça. Tinha uns cartazes com frases engraçadas também, mas pra mim, a melhor de todas era essa: “Ô bicho, embriague-se com bebidas nacionais”. Como ninguém tinha dinheiro mesmo pra comprar bebida importada, até que era o que mais acontecia. Pinga, cerveja e, mais tarde, o angu do Jesuíno, na esquina de Tupinambás com Paraná, devidamente ciceroneados pelo Márcio Rezende, outro colega e querido amigo do jornal… Se a grana dava pra mais um pouquinho, o mexidão do Rosário. Mas, isso aí era raro.

Gastei todo esse lero acima pra chegar ao que deveria ser o início dessa conversa. Música no apartamento. A gente ouvia muita música, discutia política, filosofia, cultura e o que mais pudesse pintar e, nunca, nem quando a madrugada já ia chegando, nunca houve uma reclamação. Há algumas semanas, num prédio vizinho ao meu, quase houve uma tragédia. Um morador não aguentou mais a mania que o menino de uma das coberturas tinha de ouvir o Dead Kennedys, uma banda de metal lá dos anos de 1970, no último volume. De minha janela, acompanho a discussão no hall do prédio vizinho. Tudo na presença da polícia. Uma discussão generalizada. Os pais, na defesa do menino.

— Ele tem o direito de ouvir música de gente que tem a idade dele! Problema seu, se você não gosta e não tem mais 16 anos — gritava o pai do menino Dead Kennedy, para o morador reclamante.

— Cada um escuta o que gosta. O senhor acha que a gente também não fica chateada quando o senhor descamba pro pagode? — era a mãe do menino Dead reforçando o ataque.

— Pagode, não, minha senhora, samba de raiz. Fundo de Quintal, Negritude Júnior, Originais do Samba. Pagode, não!

Todo mundo querendo tirar carona na discussão. Os três policiais, de braços cruzados, assistindo, curiosos, a discussão. “Porque o senhor há de convir que esse negócio de tocar a Ivete Sangalo às três da manhã, como se estivesse na Ladeira do Pelourinho, é um acinte”, gritava uma moradora com cara de pedagoga. “Não, pior que a Ivete Sangalo é o Michel Teló: meu filho tem pesadelo toda noite”, gemia a católica carismática, que costuma bater de porta em porta, todo domingo de manhã, oferecendo santinhos de São Judas Tadeu. As acusações continuavam: “Além do Michel Teló, tem a praga do Luan Santana”. “E o desgraçado que cisma de tocar ‘Boate Azul’? Por que ele não se muda pruma boate, então?”. Um dos policiais franziu o cenho. Com certeza, gostava de “Boate Azul”… Parecia um ringue, um vale tudo que misturava axé, samba, pagode, funk pancadão, breganejo, forró universitário, ié-ié-ié, pancadão… O menino que gostava de metal, o pivô da história, sentado na mureta do hall, observava tudo, divertidíssimo. Com certeza imaginava o quanto gente grande pode ser otária!

Mas foi dele que partiu a voz da razão.
— Tá bom, eu diminuo o volume. Todo mundo faz a mesma coisa e aí fica tudo beleza… (Me lembrei do mestre Billy Blanco: “Se a gente grande soubesse o que consegue a voz mansa…”).

Os policiais aproveitaram a deixa. “É isso mesmo, o menino tem razão; se cada um ceder um pouco, todo mundo ouve o que gosta e não há mais razão para brigar”.

Meu vizinho do primeiro andar é professor de violão clássico. Dá aulas em casa. De vez em quando toca. Scarlatti, Villa-Lobos, Joaquin Rodrigo… Já o ouvi solando o adágio do Concerto de Aranjuez! Um privilégio para nós, moradores. Deve ter ouvido a briga também. Na garagem, me encontro com ele. Comentamos sobre a briga, sobre como é difícil viver em condomínio. Sobre o quanto pode ser insuportavelmente doloroso aguentar o Michel Teló e o Luan Santana madrugada adentro. “Melhor, talvez, o silêncio”, pondera meu vizinho. Amo o silêncio, mas não consigo imaginar a vida sem música. “A vida de cada um deveria ter uma trilha sonora, uma trilha sonora especial, única, pra ser processada naquele momento que só cada um é que sabe” — ideia da minha amiga Giselle Nogueira, com quem compartilhei muita música em apartamento, sem ninguém jamais ter reclamado da altura do som.

“Um dia hei de ser pó, cinza, nada… Mas que seja a minha noite uma alvorada”. Com Michel Teló e com os Dead Kennedys, nenhuma noite pode vir a ser alvorada.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.