TEMPOS DO VINIL…

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Eustáquio Trindade
Eustáquio Trindade

Ainda me lembro até hoje do primeiro disco que comprei na vida. Aliás, foram cinco compactos duplos, todos do selo Decca, que era uma grande gravadora norte-americana. Os compactos duplos eram disquinhos de vinil em 45 rpm, com som bem superior aos discos em 33 rpm, com capinhas de papelão duro e em papel brilhante. Eram todos importados: dois discos do Ray Charles, um do Ricky Nelson, um do Paul Anka e outro da Brenda Lee. O primeiro disco do Ray TEMPOS DO VINIL... - Crônica por Eustáquio TrindadeCharles trazia a obrigatória versão de Georgia on my mind e Moonlight in Vermont. Do outro lado, Unchain my Heart e Hit the Road. O outro disco tinha a não menos obrigatória Stella By Starlight. Já o disco do Ricky Nelson trazia seu maior sucesso, Hello Mary Lou, que anos mais tarde seria regravada pelo Creedence Cleawater Revival. O disquinho do Paul Anka tinha duas baladas que eu adorava, My Home Town, e Put Your Hair on my Shoulder. A Brenda Lee, que diziam ser uma das cantoras favoritas do Elvis, trazia duas baladas arrasadoras; sua versão para All the Way, grande sucesso de Sinatra, e I’m Sorry, com direito até a uma declamaçãozinha…

Nesse tempo, eu ainda morava em Itabira, onde não havia nenhuma loja de discos. Quem quisesse comprar tinha que viajar até Belo Horizonte. Eu tinha muitos parentes aqui. Passava as férias em Barão de Cocais, quando era criança, ou em Belo Horizonte, já adolescente. Minha maior distração era percorrer o centro da cidade olhando as vitrines das lojas de discos. Passava horas olhando as capas dos LPs, ouvindo o que os vendedores punham pra tocar. Acho que, em parte, é por isso que minha formação musical se tornou tão eclética. Quando as lojas vendiam também eletrodomésticos, os discos tocavam na maior altura e as capas dos discos eram colocadas sobre as radiolas (ou eletrolas ou, ainda, vitrolas) para atrair compradores.

De algumas lojas não me lembro mais do nome. Acho que a mais famosa era a Lojas Gomes, que ficava na Avenida Afonso Pena, quase na esquina com a rua da Bahia. O Rei do Disco, no coração da Praça Sete, também era legal. E tinha a Fotodiscos, que ficava na rua Tupis, quase esquina com a rua Curitiba. Essas aí, pelo que me lembro eram as maiores, mas havia outras, bem menores, onde eu também costumava ficar horas ouvindo o que os caras punham pra tocar. Em algumas, pra mostrar a qualidade do som e dos aparelhos de reprodução, as radiolas, o pessoal gostava de tocar discos das grandes orquestras, que estavam no auge. E tome de Ray Conniff e Billy Vaughn o tempo todo. Sem falar no disco de um saxofonista chamado Bob Fleming, que tinha na capa uma armadura daquelas bem medievais, tocando um saxofone. Bob Fleming era pseudônimo do maestro Moacyr Silva e, nesse disco, tocava uma infinidade de boleros, ritmo que ainda estava na moda.

Depois, vieram os anos de 1970, os anos do desbunde, e as lojas mudaram muito o perfil. Fecharam as Lojas Gomes, onde eu comprava mais, e vieram outras casas. Uma delas, a Pop Rock, na Tupis, quase esquina com São Paulo. Nelsinho Canaã, um dos donos, usava cabelos até nos ombros e era a cara do Craig Chaquico, um dos integrantes do Jefferson Airplane, pouco antes de virar Starship. Com esse visual, conferia um toque de modernidade à loja, que, apesar de pequena, era point obrigatório dos jovens da época. Em 1973, quando saiu o primeiro disco do Fagner, “Manera Fru Fru, Manera”, tocava sem parar nessa loja, porque o Nelsinho Canaã — me lembro bem disso — tinha gostado demais do disco. E era engraçado porque, lá, alternavam Fagner com Emerson, Lake e Palmer (nunca tive o menor saco pra esses três), com o Yes ou o Pink Floyd e todo mundo achava o maior barato. Deve ter sido por isso que, pelo menos naqueles tempos, o Fagner sempre teve muito público em Belo Horizonte. Anos mais tarde, logo depois da inauguração do Mineirinho, ele foi um dos recordistas de público, com mais de 20 mil pagantes…

As lojas e seus vendedores… Eu comprava muito nas Lojas Gomes, apesar do dono, um senhor que só andava de terno e tinha ar de professor de internato, sempre me olhar com desconfiança. É que eu pegava uma porrada de disco de uma vez só e ia ouvir na cabine, coisa que ele não gostava. Achava que eu não ia comprar… Eu fazia estágio na sucursal do Jornal do Brasil, a um quarteirão dali e, assim que recebia, torrava quase tudo em disco. Lá, comprei disco de Aretha Franklin, Donovan, Cat Stevens, James Taylor, Santana, Janis Joplin, Jimi Hendrix e até o Iron Butterfly, coisa de que me arrependo até hoje. A moça que atendia lá tinha muita paciência comigo e tentava segurar as pontas toda vez que o dono vinha com suas implicâncias…

Tempos mais tarde, já formado em jornalismo, escrevendo em colunas, recebia discos diretamente das gravadoras. Mesmo assim, não parava de comprar. Meu point era a Gramophone, lá na avenida Brasil, em frente ao Colégio Arnaldo, onde fiquei conhecendo meu xará, o Kiko Ferreira, que depois virou meu amigo de fé, meu irmão, camarada. Gastei fortunas na Gramophone, mas comprei muita coisa legal. O primeiro CD — Eumir Deodato, Pavane for a Death Princess — foi lá. Toda vez que chegava alguma novidade, o Kiko me ligava. E, às vezes, ficava intrigado:

— Mas você não recebe tudo das gravadoras?

A gente recebia, sim, mas… Nunca tive essa coisa de juntar disco só pra dizer que tinha 100, 200 ou 354. Muitos colegas meus faziam isso: “Tenho dez mil LPs”. Coisa que eu não gostava, dava de presente. E nem tudo que chegava às lojas era passado pelas gravadoras. Relançamentos, por exemplo, elas não passavam. Eu gostava de comprar discos de jazz e poucas gravadoras lançavam esse tipo de música. Em Belo Horizonte, já comprei disco em tudo enquanto é loja. Não só aqui, em outras capitais também. Em Recife, comprei discos de música regional, uma coisa que mistura repentes com embolada, com artistas que eu nem conhecia. A Modern Sound, lá na rua Santa Clara, em Copacabana, foi outra paixão. A Baratos Afins também foi, durante certo tempo, uma febre paulistana. E a loja do PCI, o Partido Comunista Italiano, em Roma, que me apresentou, pela primeira vez, os músicos africanos, e onde eu comprei o CD da Ornella Vanoni com Vinicius de Moraes e Toquinho…

Hoje, em Beagá, meu point é a Discoplay. Gosto demais. Mas sinto falta da Diversidade.

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Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de Jornalismo.