“Silvinha, obrigado pelas informações!”

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Eustaquio02Tempos de crise são tempos em que se afirma que os índices de violência também crescem. Em tese, o desemprego seria o responsável maior por uma série de desatinos alimentados pelo alcoolismo e outras drogas, pelas desavenças pessoais e, por fim, pela ruptura das estruturas familiares. A Europa está no olho do furacão. Portugal, Grécia, Espanha, Irlanda e mesmo a Itália experimentam índices de desemprego jamais vistos em sua história. A Espanha vê toda uma geração se sacrificar ao longo de uma crise ainda sem luz à vista ao final de um túnel que, de tão longo, parece não ter fim. Por isso, acompanho diariamente o noticiário internacional. Todo mundo tem que acompanhar. Foi-se o tempo em que uma crise na Indonésia só tinha efeitos locais.

Além disso, ontem mesmo, me encontrei com uma amiga, que acabou de voltar de Portugal, onde passou dez dias. Viajou sozinha, pela primeira vez — duas amigas desistiram na última hora. Nos quatro primeiros dias, me conta, se ateve aos roteiros padrões do turismo de massa, com muita gente em volta, visitando o que está nos guias. À noite, sempre de táxi, também ficou restrita à segurança dos roteiros tradicionais. Por isso, nada de casas de fados no Chiado ou na Alfama. Mas não tardou muito e, pouco a pouco, ela começou de fato a desfrutar de tudo que a bela Lisboa tem a oferecer. Claro, há ilhas de insegurança que se espalham por todas as capitais da Europa, mas, todas elas, infinitamente distantes dos índices das capitais brasileiras. Da maioria das cidades brasileiras.

Peraí, mas o Brasil não está, teoricamente, à margem da crise? Não é o Brasil que está vivendo as taxas de desemprego mais baixas de sua história? Todo dia, de manhã, zapeio pelo noticiário da TV. Bom Dia Minas (que voltou a dar receita… Não tem a Ana Maria Braga logo depois?), Band News, Flavinha Scalzo (ex-aluna querida e talentosa) e Dudu Costa, além de outro amigo querido que começou a carreira junto comigo, o Chico Pinheiro, ainda lá no Diário de Minas, ali na Praça Raul Soares. O Bom Dia Brasil bem que resistiu, mas agora também embarcou na onda das notícias policiais com algum toque de sensacionalismo. Quem começa o dia vendo, principalmente, os jornais da Record e do SBT (a versão paulista) vai questionar de imediato a tese dos sociólogos, que contrapõe índices de bem estar social a tempos de crises econômicas.

Claro, não tenho a menor intenção de discutir ou de reprovar linhas editoriais, e menos ainda de ficar criticando trabalho de colegas jornalistas. Hoje, quem entra pra trabalhar numa determinada rede de televisão sabe de antemão em que cartilha vai ter que rezar. E a gente tem que entender isso, mesmo quando não concorda.

Mas é interessante analisar as diferenças entre as diversas redes, ver como a estética da violência é tratada e como esses valores são manipulados a fim de reforçar a crueza do discurso. Por exemplo, dos agora já rotineiros assaltos a farmácias e mercadinhos de bairro. O uniforme e a invariável physique du rôle dos assaltantes, jovens mulatos magrinhos, óculos escuros, bonés, camisetão e moletom. Varia um pouquinho quando são motociclistas. Então, dia desses, depois de narrar um assalto que teve como protagonista um rapazinho com a descrição acima, a repórter sai para a calçada e a câmera abre uma panorâmica até identificar um grupo de garotos também dentro desse padrão visual, que assistia a tudo, do outro lado da rua. “Os moradores já não aguentam mais conviver com “esse” perigo”, diz a moça repórter, apontando inequivocamente para os meninos. Um grande amigo meu, Renato Bernardes Vasconcellos, sociólogo brasileiro que mora há 30 em Paris, de passagem por aqui, me chamou atenção para isso. As imagens são agora — também na Globo — sempre acompanhadas de “que absurdo”, “que cara de pau”, “olha esse sujeito”… E depois, em todos os canais, “obrigado, Silvinha, pelas informações”. Nunca a palavra informação, com tudo que nela se insere, foi tão banalizada.

O caminho inverso, que é o de cobrar por políticas de segurança, melhores salários e por uma preparação melhor das polícias, com investimentos em laboratórios técnicos e gente especializada raramente é trilhado. Aliás, repararam a quantidade de policiais atualmente envolvida em crimes? Será que funciona um discurso com esse tom alarmista, em que, daqui a pouco alguém vai acabar defendendo a pena de morte pra rapazinho que assalta farmácia? Sei lá, mas o punk trash do noticiário das manhãs já tá começando a cansar. Ah, sim, valeu, Silvinha!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo