Será que a FIFA tá vendo isso?

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Eustaquio02A empregada me avisou que torneira de pia estava pingando. “Dá pra encher um balde por dia”, exagerou. Chamei o bombeiro, que chegou em 15 minutos, olhou e disse que o concerto ficaria em mais ou menos 120 pratas.

— Isso tudo? Mas a torneira é nova, não tem nem dois anos! — reclamei.

Já meu velho conhecido, ele nem se alterou. Disse que a culpa “é da sociedade de consumo: tudo é feito para durar, no máximo, dois anos”. Há 12 anos moro nesse mesmo endereço. Nesse curto espaço de tempo já fiquei íntimo de um verdadeiro exército de bombeiros, eletricistas, dedetizadores, pedreiros, caras que consertam computador, o pessoal da TV a cabo, das telefônicas… Se contabilizar a moça das persianas, a que ensina a arrumar armário, o rapaz da seguradora de imóveis, o pintor de paredes e outros tantos profissionais, devo ter perto de cem cartões oferecendo todo tipo de serviço. Comentei isso com o bombeiro e ele, de novo, pôs a culpa na “sociedade de consumo”.

— Não viu a marquise que caiu ali no Bairro União? Não foi feita pra durar!

Não é muito longe daqui e tive a oportunidade de passar por lá, outro dia, quando os escombros e o sangue ainda manchavam a calçada. Não quero ficar com trauma de marquise, mas confesso que ando cabreiro. Outro dia, vi duas moças relutando se abrigar da chuva sob uma marquise. Eu estava suficientemente perto para ouvir uma delas comentando que, “debaixo de marquise, nem morta: prefiro ficar aqui e me molhar toda”. Tá certo. Daí que comecei a pensar que as marquises, até então tão amigas, tão protetoras, a partir de agora passam a encabeçar a lista de perigos e armadilhas urbanas que temos que enfrentar diariamente. Comecei a observar e vi que muita gente, pelo sim, pelo não, deu de evitar marquises. Um amigo meu, engenheiro, não concorda. Diz que aquilo foi uma fatalidade, “mas que poderia ser evitada”.

“Quanta coisa poderia ser evitada”, pondero, “se os responsáveis por esses desastres fossem parar na cadeia”? E por falar em cadeia, enquanto o bombeiro troca a peça da torneira, vejo meu colega e amigo Carlos Viana, lá em Contagem, ao vivo, conversando com o Eduardo Costa, também colega e amigo, sobre a rebelião dos presos na penitenciária Nélson Hungria, aquela que as autoridades que se autointitulam competentes diziam que era de segurança máxima. Tinha preso até no telhado. Que prisão de segurança máxima é essa que os presos sobem para o telhado na maior tranquilidade? “É a sociedade de consumo”, vaticina de novo o bombeiro, adiantando que alguém vai lucrar com isso.

— Vai ter que repor as telhas, pintar as paredes, consertar as grades, reassentar a laje…

Ignorante confesso em reassentamento de lajes, me limito a ouvir o discurso do dedicado profissional.

— Quando fizeram essa cadeia, fizeram já pensando nisso, pra não durar muito tempo, pra ter que gastar com reforma. Então, já fizeram pensando que alguém ia lucrar com isso.

Quem? Ele não sabe, mas acha que é o governo.

— Um primo meu, de Governador Valadares, ficou dois anos preso nos Estados Unidos, antes de ser deportado. Não viu nem a luz do sol. Diz que não volta pra lá nunca mais. Segurança máxima, pra mim, é isso!

As imagens da TV mostram os presos pintando e bordando no telhado da penitenciária de segurança máxima, que agora o apresentador diz que não é mais de segurança máxima. É o quê, então? Não explicou. Serviço terminado, o bombeiro continua de olho na televisão. “Se tivesse uma marquise ali, já teria caído”, filosofa. Embarco na dele e esquadrinho as imagens procurando, em vão, algum tipo de marquise. Nada. Enquanto fecha a sacola de ferramentas, mas ainda de olho na TV, desfecha seu último golpe.

— Será que a FIFA tá vendo isso?

Numa manhã de torneiras, marquises e penitenciárias problemáticas, só a FIFA mesmo pra dar um jeito nesse caos.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.