Santa Maria: a dor não se mede em números

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Eustaquio02Acompanhei, atentamente, a cobertura que a televisão fez da tragédia de Santa Maria, cidade universitária do Rio Grande Do Sul, que cheguei a conhecer. Fiz uma visita à Universidade Federal de Santa Maria, há alguns anos. De certa forma, me lembrou Ouro Preto, onde estudei, apesar das diferenças arquitetônicas. O ponto comum entre as duas é a presença dos jovens. Nas ruas, nas praças, nos parques, nas lanchonetes, eles são sempre o retrato mais forte e ruidoso da vida em constante movimento. São uma pequena parte do presente e uma outra muito maior do futuro que há de vir, porque são a parte que carrega a esperança, a possibilidade de mudar, de fazer um mundo melhor. Aí, vem uma festa estúpida, numa boate que só tinha uma porta e, de repente, 231 pessoas, todas jovens, morrem. “E a barra da morte é que ela não tem meio termo”, escreveu um dia o poeta Antônio Carlos de Brito, o Cacaso. Não tem mesmo.

Tragédia acontecida, as autoridades que todos ainda insistem em chamar de competentes começam logo seu falatório. Vem o prefeito, promotor, governador, secretários, ministros… Só faltaram a ONU, o Papa e o Obama! Li e vi que essa banda que tocou na boate Kiss, que atende pelo extravagante nome de Gurizada Fandangueira, há dez anos se utilizava de sinalizadores em seus shows. No Canecão Mineiro, em que morreram sete  pessoas e mais de 300 ficaram feridas, a tragédia se iniciou também pelo uso desses sinalizadores, que parecem extremamente perigosos, mesmo quando usados em ambientes teoricamente mais seguros do que o interior de uma boate, conforme percebi pelas explicações de um oficial do corpo de bombeiros. O que acontece é que a vida hoje anda depressa demais. Não tenho a menor dúvida que, com a série de eventos que o país vai abrigar daqui a pouco, essas mortes logo estarão esquecidas e outras bandas iguais subirão em palcos iguais e acenderão sinalizadores iguais. E novas pessoas irão morrer. Longe dos olhos, longe do coração — da tragédia do Canecão Mineiro, quem se lembrava, até que os departamentos de pesquisa das redações desenterraram o fato?

Então, se é verdade mesmo que prevenir é melhor do que remediar, a hora de começar a dar um basta nisso tudo é agora. Temos boas leis e isso foi repetido à exaustão. “O problema é que não aplicamos as leis”, disse um advogado numa rede de TV. Ou seja, temos leis e não as aplicamos, portanto, sinal verde para a impunidade. Quantas vezes já não ouvimos esse discurso? Penalizar os donos da boate ou os integrantes da banda gaúcha não trará ninguém de volta. Nem vai aplacar a dor que vai apertar para sempre os corações e mentes de pais, irmãos, namoradas e amigos dos que se foram. Mas pode se tornar um exemplo capaz de fazer com que, no futuro, alguém pense duas vezes antes de cometer insanidades semelhantes. Em um debate promovido por um canal de TV, alguém comentou que, no Rio de Janeiro, para evitar tragédias em bailes funk, que se realizam áreas de risco, a Secretaria de Segurança do Estado impôs uma série de providências que incluem até mesmo a presença de ambulâncias ao lado das quadras. “Mas nenhuma destas exigências jamais foi cumprida”, comentou, desanimado, um oficial do corpo de bombeiros, que participava do debate. Então, para justificar o dístico “competentes”, que, no Brasil, insiste em acompanhar a palavra “autoridades”, é preciso mudar muita coisa. Fazer valer as leis e zelar pelo cumprimento delas é o princípio de tudo. A tragédia de Santa Maria tem que ser vista, revista, examinada e lembrada como o ponto de partida para a retomada do mais básico de todos os direitos, que é o direito à vida. Em Belo Horizonte, em Salvador, em Recife, em Porto Alegre, quantas boates Kiss e quantas bandas de gurizadas fandangueiras ou não, já não estão de prontidão, com sinalizadores à mão, para os embalos do carnaval?

Se já sabemos que é muito próprio dos jovens, em qualquer parte do mundo, ter essa prosaica irresponsabilidade com relação à vida, então é hora de formarmos uma força tarefa para começar a dar um mínimo de ordem a esse caos. Checar microscopicamente todos os alvarás, enviar fiscais a todas as casas de espetáculos, vetar (se for o caso) o uso de sinalizadores, examinar todas as condições de segurança e aplicar a lei com rigor. Ou então, teremos que continuar a chorar no eterno papel de espectadores passivos de um rol de tragédias que não terá mais fim. De onde estamos, nem reagimos mais. Nem quando as redes de televisão se referem à tragédia de 235 mortos resumindo-a a um comparativo idiota como “esta é a segunda maior tragédia em incêndios acontecida no Brasil”. Ou seja, ainda bem que não foi maior que a primeira! Como se a dor se medisse em números…

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Adrielle Lopes

    Sensacional. Estava sentindo falta de um olhar inteligente sobre isso tudo.

  • Bruno Marques

    professor Eustáquio, o papa também se manifestou! Mais um belo texto, pena que sobre um assunto tão triste.

    Antes eu achava que o problema do Brasil era a impunidade, mas hoje entendo que é a falta de formação, de caráter e de cidadania. A falta desses três permite aproveitar as oportunidades quando encontrada, por que não criada?, uma brecha na legislação.

    A diferença do Brasil para demais países de cultura desenvolvida é que o que é público, para nós, não é de ninguém; e para os demais é de todos! abraços.