Santa Inês: momento de transição e reduto de nostalgia

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Viaduto da rua Minduri liga o Santa Inês ao Horto
Bairro Santa Inês vive o momento de transição — do intimista e clássico estilo residencial para a urbanização dos grandes prédios —, que domina a capital mineira

Texto e fotos: Michael Eudes

“O trânsito ficou ruim depois que descobriram que o Santa Inês existe. Antes era uma ilha, isolado, morávamos aqui sossegados, sem problema nenhum. Daí começou a verticalização sem noção”. A indignação contida nas palavras de Silas Mundim, presidente da União Pró-Melhoramentos de Santa Inês, expressa bem a opinião que os moradores desse bairro da região Leste da capital têm sobre a acelerada urbanização do local. Do brejo inabitado nos anos 1950 ao crescente interesse das imobiliárias em verticalizar a região no

Silas Mundim é presidente da União Pró-Melhoramentos de Santa Inês
Silas Mundim é presidente da União Pró-Melhoramentos de Santa Inês

século XXI, a áurea residencial resiste e o sossego insiste em buscar um recanto nas ruas desse pequeno bairro.

Um brejão no meio

Para contar a história do local, que possui cerca de dez mil moradores, segundo o Censo do IBGE, nada melhor que as palavras de quem viu com os próprios olhos a construção do bairro. Antônio Onofre Fontes, aposentado, tem total propriedade para essa tarefa, já que é morador do Santa Inês há cerca de 50 anos. “Tudo começou por volta de 1953, quando a imobiliária Tapir recebeu autorização da Prefeitura para urbanizar e vender terrenos no bairro. Era tudo calçado, mas não tinha luz nem água. O bairro era muito isolado e tinha um brejão no meio”, conta.

Dentre as inúmeras histórias de Fontes sobre o bairro, chama atenção a da construção das duas estações de metrô que atendem o local (Estação Santa Inês e Estação José Cândido da Silveira), no início dos anos 1990.

— Prefeitura e CBTU queriam fazer a Estação Santa Inês, mas não queriam construir um viaduto. Ficaríamos ilhados! Aí fizeram um muro para iniciarem a construção. Pois reivindicamos, lutamos e até o apelidamos de “Muro de Berlim”. Enquanto não fizeram o viaduto, não colocaram a estação para funcionar por reivindicação nossa —, comemora o aposentado.

A referência da exigência dos moradores é sobre o atual viaduto da Rua Minduri, que é a principal ligação do bairro com o Horto, atravessando a linha do metrô, próximo à Estação José Cândido da Silveira. Quanto ao “Muro de Berlim”, que estampou a edição do Diário da Tarde de 12 de janeiro de 1993, guardada e exibida como troféu por Fontes, está localizado na Rua Conceição do Pará, que faz margem ao terreno da ferrovia.

Caos do trânsito do Santa Inês

No entanto, nem todos os problemas do bairro se resolveram e nem todas as reclamações dos moradores foram ou são atendidas com tanto êxito. Assim como em todas as regiões da capital, o desenvolvimento urbano avançou e trouxe consigo considerável carga de automóveis. Fato esse que reforça a indignação e preocupação de Silas Mundim, representante da Associação do Bairro. “Nossa principal reivindicação é a melhora do trânsito daqui. Não temos nenhum semáforo. O trânsito está uma loucura. Na Rua Minduri com Vicente Risola tem que ter um semáforo. Lá tem acidente praticamente todos os dias”, reivindica.

Um dos principais fatores responsáveis pelo aumento de veículos na região é a urbanização em massa que se deu nas últimas décadas, principalmente pela construção de prédios residenciais. Luciana de Castro Morais, diretora comercial da Construtora Carrara, empresa atuante no Santa Inês, explica que o bairro é muito valorizado “porque apresenta ótima estrutura e tem uma rede de serviços completa para o bem estar de seus moradores; o acesso é fácil e a proximidade do centro de BH valoriza muito esta região”. O local, segundo Luciana, ainda possui ruas tranquilas, arborizadas e a procura por imóveis é grande.

Luciana de Castro Morais é diretora comercial da Construtora Carrara. Foto: Eduardo de Almeida
Luciana de Castro Morais é diretora comercial da Construtora Carrara. Foto: Eduardo de Almeida

Pelo conforto oferecido através da boa localização — com quatro linhas de ônibus e metrô disponíveis — além do forte potencial comercial concentrado na Avenida Contagem, os principais habitantes desses novos prédios são pessoas que já vivem no bairro. “Temos quatro empreendimentos na área e o perfil dos compradores são moradores da região que conhecem bem ou querem permanecer no Santa Inês”, explica a diretora comercial da Construtora Carrara.

“Não há lugar”

Contudo, na opinião de Fontes, não há lugar para tantas novas moradias. “O bairro não foi planejado para esse tanto de prédio. Aqui não tem rede de escoamento pluvial. Quando chove, por ser em um terreno irregular, com muitos morros, a água sempre escorre para a parte baixa, que fica próxima ao metrô. A rede de esgoto não foi feita para suportar tantos prédios”, lembra. Silas Mundim endossa o coro do colega de bairro e diz que, “uma caçamba chegou a descer uma rua por causa da quantidade de água que escorre no asfalto quando chove”.

Para quem deseja se tornar um novo habitante e continuar escrevendo a história dessa nova fase vivida por esse bairro, o preço médio de venda é de R$ 4.000,00 o metro quadrado. Portanto, um apartamento de três quartos com uma suíte, duas vagas na garagem e elevador, com 80m² sairá a R$ 320.000,00 em média.