Salve Jorge!

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Eustaquio02No domingo de manhã, bem cedo, uma mulher com voz de taquara rachada tocou o interfone lá de casa. “Interfonou”, como diz agora minha empregada. Pra falar mal de Jorge… Do santo e da novela das nove.

— Quem? — Ainda bêbado de sono, naquela caliente manãna de domingo desta saariana primavera belo-horizontina, reprimi dois impropérios e, dado o inusitado do tema, ainda que a contragosto, abri o reservatório de paciência para ouvir a louca.

— Pois é, porque o diabo agora resolveu atacar com outras armas. Está na novela da TV Globo. Eu estou aqui fazendo uma campanha para ninguém assistir essa novela, porque ela é responsável pelo capeta ganhar espaço no horário nobre. A culpada é a Globo!
Pedi identificação. Era devota da Igreja Universal, mas estava ali por conta própria, sem que ninguém mandasse, apesar de o pastor ter recomendado no culto para que “ninguém desse trela pra essa novela”. Não tenho muita paciência pra novela, mas não tenho preconceito. E também ainda não tive tempo de ver nenhum capítulo de “Salve Jorge”, apesar de já ter lido alguma coisa sobre. Pouca coisa, aliás.

— A novela é sobre exorcismo? — perguntei. Acho que ela não sabia muito bem o que era exorcismo. Nem as outras duas gralhas que a acompanhavam, como pude perceber pela conversação que entabularam diante do interfone.

— É sobre macumba. Esse Jorge da novela é uma entidade do mal, de terreiro de umbanda, coisa de macumba da encruzilhada…
Não li o suficiente sobre a novela pra saber qual é a trama. Nem confio muito nisso. Dependendo da audiência, podem mudar tudo. Quem nem a Janete Clair fez décadas atrás na mesma Rede Globo, providenciando um terremoto que matou metade do elenco, eliminou cenários, reduziu os custos da produção e salvou uma novela que afundava em baixas audiências (“Anastácia, a Mulher Proibida” – de 1967). Como a Glória Perez não é a Janete Clair, nem terremoto dá pra esperar dessa novela. Alguma mensagem social, cenários exóticos e pouco mais que isso. Antes de despachar o trio taquara rachada, fiquei pensando um pouco na nova pele da censura que algumas igrejas, de repente, começaram a vestir, para dizer o que a gente pode ou deve ver na televisão. Indiretamente, é o que fazem, se valendo de gente simples e idiota como o trio que resolveu me aporrinhar no domingo de manhã.

Minha empregada faz parte de uma seita dessas, não sei qual, mas é uma que pega metade do que ela recebe mensalmente, a título de “dízimo”. Não estão nem aí se a coitada mora numa casa pobre, que rala em três ou quatro casas para conseguir uma ninharia. E olha que o pastor da igreja dela tem um Mercedes. Ele também recomendou ignorar a novela da Globo. Minha empregada tem uma amiga, que se chama Deo Gratias, e que frequenta terreiro de umbanda. Ela reprova, mas como são amigas de longa data, fazer o quê? Veio conversar comigo sobre o assunto. Deo Gratias, que conheço e que acho uma simpatia de pessoa, é cabeleireira, especialista em chapinhas e trancinhas afro. É alegre, falante, adora cantar e anda sempre cheia de guias, aqueles colares supercoloridos, que a identificam como legítima filha de Oxum, o sensual orixá que, no candomblé, é considerada a deusa do amor, patrono das águas doces e que vive nas quedas d’água. Segundo Deo Gratias, Oxum gosta de presentes: perfumes, flores brancas, potinhos de mel e fitas coloridas. Toda passagem de ano, quando não consegue uma cachoeira, Deo Gratias dá um jeito de levar seus presentinhos para Oxum. Mesmo que seja na Pampulha, apesar do fedor daquelas águas imundas e escuras — “ela sabe que é de coração”.

Ao contrário da minha empregada, que é louca por vinhos, mas não bebe cerveja, Deo Gratias gosta de umas bramas. E adora conversar. Já me contou que foi por intermédio de Oxum que ela conseguiu seu marido, Jorginho, pagodeiro e violonista de primeira, fã de Clara Nunes, Cartola e Nélson Cavaquinho, que interpreta como poucos. Formam um casal bonito e feliz. Ela, filha de Oxossi; ele, de Ogum, que vem a ser o orixá que representa São Jorge no candomblé. Dentro do tal sincretismo religioso de que os intelectuais sempre falam quando tentam justificar alguma simpatia à distância pelas religiões de origem africana.

— Ganhei o nome de Jorge porque meus pais também eram do candomblé. A mãe de santo que recomendou o nome — me conta Jorginho, lembrando que é um nome de origem grega (Iorgos), que quer dizer aquele que trabalha na terra, que denota poder, força e justiça. “Quem nem São Jorge”! Como seu eu não soubesse!

Nas novelas brasileiras, já vi personagens de todas as religiões. Do judaísmo, católicos, muçulmanos, protestantes de diversos matizes, budistas… Mas não me lembro de ter visto personagens que professariam o candomblé ou a umbanda. Pelo menos não na mesma escala. Às vezes, uma ou outra personagem que faz a empregada — se é da umbanda ou do candomblé, só pode ser empregada e negra — ou um feirante tão pobre quanto ignorante. Foi pensando nisso que despachei as loucas, não sem antes ameaçar tocar um processo nas três. Acredito que em outras igrejas, que não as protestantes, a orientação quanto às religiões afro-brasileiras deve ser a mesma. Em alguns casos, outros interesses calhordas, que visam minar a audiência da emissora concorrente…

Deo Gratias e Jorge são petistas, já militaram no Movimento Negro e não levam desaforo pra casa: entram na Justiça toda vez que vem ofensa preconceituosa ou discriminação. O Ministério Público deveria fazer a mesma coisa com essas igrejas malucas, verdadeiros lobos em pele de cordeiro, que andam disseminando o ódio por aí… Quanto à novela das nove, qual o problema? Quem não quer ficar como o diabo gosta?

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Sheilla

    Brasil, o país da miscigenação e do preconceito. Sábias palavras! Parabéns Eustáquio.

  • Neuber Campos

    Muito bem professor, gostei. Num país como o Brasil onde a umbanda e candomblé faz parte da nossa cultura vinda da Africa, porque não retratar isso numa novela. Quem não quiser ver use o famoso “controle remoto” e pronto.
    Parabéns pelo texto.

    Abraços,

    Neuber

  • Elaine Rodrigues

    Adorei o texto. Exemplifica exatamente o que anda acontecendo nas redes sociais, principalmente o facebook. São trocentas pessoas que se dizem evangélicas e que criticam a novela por causa do nome e seus significados, como se a religião deles fosse a melhor, a única que pode salvar as pobres almas que aqui habitam, mal sabendo que com tanto preconceito estão colocando as suas próprias no caminho para o inferno. E é tudo tão simples: se não concorda ou gosta, não veja. Ninguém está te obrigando. Não precisa criticar a crença dos outros. O respeito é algo básico que deve existir entre as pessoas para uma convivência pacífica. Mas não… Agora vá alguém criticar os evangélicos por alguma coisa…
    Quem me dera se todas estas pessoas se unissem para fazer algo realmente útil, se prestassem atenção ao que acontece à sua volta, principalmente o que os políticos andam fazendo.