Salão de beleza grátis para aposentadas

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Eustaquio02Manhã intensamente marcada pela presença de carros com alto falantes na pequena rua em que moro. Já houve um tempo, quando ainda havia lotes vagos e árvores, que as manhãs eram marcadas pelo canto dos pássaros. Vários, mas entre eles, um inconfundível sabiá. Vieram as construtoras, as árvores foram cortadas, prédios foram erguidos e a maioria das aves zarpou. Em lugar delas, os carros com alto falante. Primeiro, uma Kombi, vendendo laranja de Brumadinho; depois, uma camionete anunciando ofertas do comércio local, incluindo uma viagem à terra santa, que é mais ou menos ali onde o pessoal vive se pegando (Cisjordânia, Faixa de Gaza, Palestina, Israel, Síria e por aí vai); em seguida, os que pedem votos para os vereadores. Um deles parou aqui na porta do prédio. Desceu uma senhora, que encheu de santinhos a caixa do correio, irritando a faxineira, Danusa, que havia acabado de limpar a caixa. Isso mesmo, limpar, dar sumiço na tonelada de folhetos que diariamente baixa por aqui: da pizza, do sanduíche, do carro que agora pode ser comprado em vinte e quatro prestações, da pet shop, da comida a quilo, da lavanderia, do novo condomínio que estão construindo aqui perto. E agora, do Pipoco, do Rato, da Teka (a do DVD Pirata), do Dazinho e outros candidatos à Câmara Municipal.

Dona Sinhá, vizinha e guru, aposentada de um pouco mais de 70 anos (a seu pedido, deixo agora de publicar a idade exata), pergunta à candidata Teka “qual a sua plataforma política”. Teka, uma senhora robusta, morena de cabelos negros como as asas da graúna, malha de ginástica verde-limão/abacate combinando com a bolsa e o tênis, brincos iguais ao colar, óculos ray-ban do Oiapoque, muitíssimo bem pintada e perfumada para o horário matinal, é toda sorrisos. Diz que vai dar atenção “para os pobres”.

— Que pobres? — Dona Sinhá desce disposta a sabatiná-la.

— Os pobres, uai.

Percebo, tanto quanto minha vizinha, que plataforma política não é bem o forte da Teka, que tem um sobrinho que anda pelos bares da região vendendo CDs e DVDs piratas numa kombi caindo aos pedaços. Segundo as más línguas, financiado pela tia — daí o apelido! Teka entrega santinhos e lixas de unha, que a faxineira do meu prédio e outras duas, da vizinhança, que estavam também varrendo calçadas, e mais uma mulher que passeava com o cachorro se apressam a guardar. “Se eu for eleita”, anuncia Teka, “vou fazer uma lei para dar desconto para aposentadas em salão de beleza”.

— Só para as aposentadas? — As faxineiras, eleitoras em potencial, cercam a candidata, que já se sente dona da situação. Fazer promessas parece que é com ela mesma.

— Bom, tem que ver como é que vai ser… Se a pessoa for pobre, mas bem pobre mesmo, acho que ela tem direito a um salão de beleza grátis, porque, hoje em dia, ter boa aparência é tudo para o sucesso de qualquer mulher…

— Ah, é? E quem vai pagar essa conta? A Câmara Municipal ou a Dilma? — Dona Sinhá não nega fogo, é nitroglicerina pura. Teka começa a dar sinais de impaciência…

— Acho que quem tem que pagar é a Dilma, porque o governo tem mais recursos, né?

— É? E por que você não bola um projeto pra abrir logo um salão de beleza lá na Câmara, de graça, pra atender todo mundo? Porque atender só aposentadas pode ser inconstitucional, você estaria favorecendo uma categoria de pessoas. A menos que você associe as aposentadas ao sistema de cotas, porque aí a gente podia entrar de graça no Independência, na comida a quilo, nos bingos, que estão cobrando uma fortuna… Então, como você tá querendo favorecer os pobres, faz uma campanha lá pros vereadores doarem parte do salário deles pra financiar um salão de beleza para atender à cota dos necessitados.

Teka, acredito, ainda não sabe muito bem o que é sistema de cotas e menos ainda o que pode ou não ser inconstitucional. Mas, com certeza, já sabe muito bem o que é tirar parte do salário para favorecer os pobres. A discussão com uma aposentada que bebe um copinho de pinga toda manhã, fuma Derby, lê jornal todo dia e não perde noticiários da TV não lhe é nada favorável. Dona Sinhá percebe claramente as deficiências da antagonista e tira partido disso.

— Já sei: os pobres que você quer favorecer são os pobres de espírito, não é, querida?

Teka tem uma vaga noção do que significa ser pobre de espírito. Talvez por experiência própria. A discussão é acompanha por outro candidato, igualmente picareta, o Dazinho que não sei se é sapateiro, palhaço ou marciano, mas que resolve dar o fora antes de também se tornar alvo da fúria de Dona Sinhá. Teka se aproveita e também dá no pé.

— Votar numa picareta dessas? Nem morta! Nem o DVD pirata dela presta. A cópia do “Conan, o Bárbaro”, que meu neto comprou do sobrinho dela não rodou nem no computador. E olha que trocou duas vezes! Se não serve nem pra gravar DVD pirata, vai servir pra administrar a vida da gente?

Agora é Dona Sinhá quem parece a candidata. As faxineiras, a mulher que passeava com o cachorro, o doidão do 104, Valdete, a periguete louca que abalou Barão de Cocais, Dona Leonor, a dona da autoescola, o casal de cabeleireiros, o instrutor de futsal da quadra que fica defronte, os adolescentes do time de futsal, o motociclista que veio entregar talão de cheque, a cover da Gaby Amarantos que desce para o ensaio com o time igualmente cover das Empreguetes do Bairro União, os dois pastores de terno e gravata e mais uma multidão de anônimos formam uma atenta plateia. Mas, alheia a todos, ela se senta nos degraus do hall, acende um Derby e abre o caderno de Economia da Folha de São Paulo que, diariamente me pede emprestada.

— Você viu que a Dilma mandou baixar ainda mais o IPI?

Diante da plateia extasiada só se ouve agora a voz de Danusa, nossa insubstituível faxineira: “Dona Sinhá, se a senhora fosse candidata, eu votava na senhora e ainda fazia campanha, mesmo que não desse salão de beleza de graça”. Eu também votava.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.