Ronaldinho Gaúcho versus Elizabeth II

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Ronaldinho Gaúcho versus Elizabeth II -  Crônica de Eustáquio TrindadeZapear é um verbo novo e bom de acionar. Até porque, a fartura de canais das redes pagas de TV não rima tanto assim com qualidade. De manhã, bem cedo, zapeio entre o Bom dia Minas/Brasil (saio toda vez que entra receita ou lição de como evitar a gripe), na Globo, o Band News e o MG no Ar, do meu velho amigo Eduardo Costa, na Record. Três janelas diferentes, abertas para o mundo. Esta semana adicionei ao grupo a BBC HD, que me inundou com uma overdose sem limites das bodas de diamantes da rainha Elizabeth II. Uma forma diferente de rever a capital mais interessante da Europa, a que mais consegue equilibrar tradição e modernidade na justa medida. Povo bonito nas ruas, a arquitetura solene em contraste com a tecnologia que sustenta as novas construções, sem que nada signifique um mínimo de agressão ao passado. Festa pra tudo enquanto é lado, tudo organizadinho, pontual, apesar da chuva. A BBC mostrou, acima de tudo, o orgulho que os ingleses têm de sua cidade. Aí, dedos inquietos segurando o controle remoto, sintonizo a Record, enquanto a família real não aparece no balcão do Palácio de Buckinghan.

Tá lá o Eduardo Costa compartilhando a indignação de uma senhora, médica, que fazia sozinha o plantão de emergência num hospital da Baixada Fluminense: “A saúde tá zerada, eles não estão nem aí pra esses pacientes que estão morrendo na fila”, gritava a doutora Ângela (não consegui pegar o sobrenome), dando uma lição de cidadania, enquanto se via impotente para atender tanta gente. Em seguida, Dudu chama para o sequestro da gerente de banco lá no bairro Fernão Dias. Pulo para a Globo e eis que entra em cena o Ronaldinho Gaúcho. Mais do que depressa salto para a Band, que anunciava os novos índices do IPCA. Já pensando em comprar pilhas novas para o controle remoto, retorno à BBC, com a rainha e a família real já acenando para a galera (vi uma bandeira do Brasil no meio da multidão), lá do balcão do palácio. Uma pontinha de remorso ataca meu coração brasileiro e retorno às redes nacionais, que agora falavam de operários que tinham caído num buraco, do trânsito engarrafado no anel rodoviário e — de novo — Ronaldinho Gaúcho. Desse aí, mostravam um vídeo dele fugindo da concentração, entrando no quarto de uma dona e, por fim garantiam que tinha álcool no sangue.

Resolvo, por alguns momentos, deixar a rainha em paz e continuo no festival matinal de tragédias brasileiras: CPI do Cachoeira; o PT fazendo das tripas coração para conseguir um ou dois minutos a mais no horário obrigatório da TV, nem que para isso tenha que se aliar ao PR ou ao PSB; a dificuldade que uma ambulância do SAMU tem encontrado no trânsito de Beagá; as caras dos quatro sequestradores do Fernão Dias e o desespero da família em poder deles. E mais Ronaldinho Gaúcho.

Em pânico, retorno à BBC, que deu um tempo na rainha e passa mais um capítulo da série sobre a Amazônia, comandada pelo repórter e apresentador Bruce Parry. Ele partiu da nascente do rio, lá no Peru e já estava para chegar a Manaus. Há muito tempo não via nada tão interessante, tão bonito, tão perfeito. Jornalismo feito com muito recurso, claro, mas com muita competência, principalmente. O cara experimentou até o chá do Santo Daime, mas mostrou isso sem sensacionalismo, sem apelar pro lado, digamos, exótico da coisa… Meu coração ateu me faz voltar às tragédias nacionais e, por fim, assumo de vez que está ficando cada vez mais difícil levar adiante um dia de trabalho com a cabeça cheia de CPI, sequestro, engarrafamento no anel, SAMU e Ronaldinho Gaúcho. Minha empregada, que também tem TV a cabo, passa e para pra ver mais um flash da BBC na família real. Pondera que fazia uma imagem diferente da rainha, que só viu agora, pela primeira vez. Antes dela, só as do carnaval.
— Engraçado, pensei que ela tivesse uma coroa na cabeça… Lá, rainha anda é com esse chapelão?

Sem resposta, sem ânimo, sem paciência, acho que só fiz um gesto desses que não dizem nada nunca, tipo pra encerrar conversa mesmo. Na minha cabeça só uma coisa, de que adianta ser a sexta potencia econômica do mundo se nada aqui funciona? Eles estão hoje, atrás do Brasil, mas, e daí? Volto definitivamente à BBC HD e a Amazônia devastada pelas queimadas e desmatamentos, mas ainda indomável, surge na tela da minha TV. Hoje, pra ser feliz, não vou nem ler jornal. Pago todos os impostos em dia, cumpro com todos os meus deveres de cidadão e sou um cara do bem. Não mereço — ninguém merece! — começar o dia com CPI, sequestro, engarrafamento e, pelo amor de Deus, Ronaldinho Gaúcho! Por que ele não foi pra Porto Alegre?

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Divino Advincula

    Sempre leio o texto do Euatáquio. Ele é bom no que faz. Ponto. Ao mesmo tempo não dou conta de navegar somente sobre as águas tranquilas da sua escritura. Prefiro as fortes correntezas que fustigam o texto debaixo d’água. Ao ler a respeito da agonia que é dedilhar um controle remoto, na busca de algo coerente e interessante, parece que sou eu quem afoga no desespero. Ler o Eustáquio em paz é tão impossível quanto ler qualquer outro jornalista que tenha este alcance na arte de submergir as letras. Até o seu próximo texto. Até o meu incerto fôlego.

  • Maria Cecilia

    As vezes ligo a TV Com a ideia de me atualizar sobre os fatos do dia, normalmente gosto do JN, mas às primeiras notícias são sobre dentistas que, após sofrerem tentativas de assalto são queimados.. Que mundo é esse? Já é difícil me convencer que,após tantas tragédias pessoais algo de Bom vem por ai,mas basta ver jornal para se questionar se esse algo Bom realmente existe. Quero,desesperadamente acreditar que Sim.