Rampas para cadeirantes ou espaço gourmet?

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Eustaquio02Recebi, de sábado pra cá, quinze e-mails de autoajuda (e confesso que não me sinto nada confortável em escrever essa palavra assim, sem hífen). Um deles é o de um corretor chamado Reinaldo, que me afirmou ter vinte anos de experiência no ramo e que se especializou em vender apartamentos para pessoas portadoras de necessidades especiais (cadeirantes), categoria em que, graças a Deus, não me incluo. Apaguei o e-mail, mas ele voltou e mandou mais dois, antes que eu o bloqueasse definitivamente. Não fui o único atacado por Reinaldo e seus e-mails. Um vizinho meu, jovem, desses que são feras no computador, disse que todo mundo na família dele recebeu. E mais, que o Reinaldo é hacker conhecido na praça.

Há muito que já ando sem paciência pra essas coisas, mas acabei, por acaso, descobrindo que um amigo meu, dono de imobiliária, conhecia o tal do Reinaldo e me contou que esse era, de fato, o nome dele. E que não tinha vinte anos de experiência, mas de idade — “Ou pouco mais do que isso”. Reinaldo seria deficiente auditivo e perdeu um irmão, também deficiente, num acidente que houve em seu prédio, no Carlos Prates, onde o rapaz não conseguiu ouvir os gritos de alerta dos vizinhos e morreu num incêndio. Daí, que começou a criar essas ideias de comunidades específicas, em que os prédios seriam equipados de forma a atender todo tipo de necessidades: rampas, portas corta-fogo que funcionassem de fato, luzes, sensores especiais que ajudassem, num caso de qualquer acidente, quem fosse portador de algum tipo de necessidade ou sofresse de alguma limitação física. Ponderei que esse tipo de recurso deveria estar disponível em qualquer construção.

— É, mas que prédio te atrai mais, o que tem espaço gourmet ou rampa pra cadeirante? — me pergunta o amigo dono de imobiliária, com uma pontinha daquela arrogância típica de quem sabe muitíssimo bem do que tá falando.
Daí, começou a me enumerar uma série de coisas que, em sua opinião, afastam compradores. As rampas viriam em primeiro lugar. “Depois, os sensores especiais, luzes, muitos desses apetrechos também, porque isso sinaliza a presença de um tipo de gente que se quer evitar”.

— Evitar portadores de deficiência?

— Não pega bem. Tem gente que não gosta de ver. Há uma semana deixei de vender um apartamento no São Bento, porque o comprador topou com um rapaz que estava na cadeira de rodas. E esse nem era tetraplégico…

Essa explicação curta e grossa, fundamentada numa convicção sem nenhum tipo de reação emocional, só ajudou a me revelar mais uma face do mercado imobiliário. De uns tempos pra cá, tenho entrevistado muitas pessoas assim. Não culpo gente como esse amigo meu, a quem chamarei apenas de Luís, porque não estou aqui pra julgar ninguém, mas também não posso deixar de discordar e de aproveitar esse espaço pra deixar a discussão em aberto. Tampouco vou usar de subterfúgios ou metáforas para questionar a crueldade do mercado, porque essa é uma realidade que está aí para quem quiser ver.

Tentei voltar atrás e conversar com o Reinaldo. Ele ainda não me respondeu. Enquanto espero a resposta dele, liguei pra dois amigos meus — um deles, chefe de redação de um canal de TV; o outro, de um jornal. A resposta foi a mesma.
— Posso até propor essa pauta, mas os editores vão vetar. O pessoal do caderno de imóveis tem uma força que você nem imagina! As construtoras têm um lobby muito poderoso… Não dá pra falar mal delas!

Tudo muito simples, racional. Pretensamente mais racional. Só penso que, toda vez que assumimos posições assim, caminhamos em direção oposta à ideia do humano que deve prevalecer em nós. Diante do espelho, quando se estabelece de forma tão clara a impossibilidade de estabelecer uma lógica que não conflite com nossa própria natureza, nos resta apenas baixar os olhos. De vergonha.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • MARIA LUCIA FERREIRA FREITAS

    EXCELENTE MATÉRIA,APONTANDO A DURA REALIDADE,NA QUAL VIVEMOS.É UM EXAGERO AS PESSOAS NÃO QUEREREM CADEIRANTES,EM SEUS PRÉDIOS,ISTO É DESUMANO;E A POSSIBILIDADE DE VIR A SER CADEIRANTE,NÃO ESTÁ DESCARTADA PARA AS PESSOAS QUE NÃO O SÃO.VIVEMOS CORRENDO RISCOS TODOS OS DIAS.E A POPULAÇÃO ESTÁ ENVELHECENDO.
    PENSO QUE O EMPREENDEDOR QUE CONSTRUIR PRÉDIOS,OBSERVANDO CONDIÇÕES DE SEGURANÇA COMO AS RAMPAS,CAPITALIZARÁ MAIS;E ASSIM MAIOR LUCRO TAMBÉM.

  • MARIA LUCIA FERREIRA FREITAS

    EXCELENTE MATÉRIA,DESUMANO NÃO ACEITAR CADEIRANTES.TODOS CORREM O RISCO DE UM DIA VIR A SER.PRÉDIOS INTELIGENTES DEVEM TER COMO A PRIORI,A SEGURANÇA DE TODOS;PODENDO ASSIM ATÉ A CAPITALIZAR MAIS.HÁ QUE SE MUDAR A MENTALIDADE!!!!!!!!!

  • Maria Cecília

    Essa história tem que ser compartilhada e discutida sim. Infelizmente, alguém do mercado imobilíario, e quando digo alguém me refiro aos “cabeças”, talvez comprem causas como essas apenas se forem atingidos com tragádias parecidas com as pessoas deficientes. Ninguém pede pra ser deficiente, e já uma superação diária viver com isso, imagina ter enfrentar preconceito até na hora de escolher moradia? Não desejo mal a esses empresários, pelo contrário, que nunca precisem passar por um problema assim, mas que consigam ir além do limite financeiro e ajudem a construir um país menos preconceituoso e cheio de limites.