Quem quer ser voluntário na Copa?

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Eustaquio02Minha empregada acabou de me contar que o filho de uma amiga sua será voluntário na Copa das Confederações. Veio me perguntar o que faz um voluntário e, na falta de uma resposta melhor, me limitei a dizer que voluntário é gente que trabalha de graça. Depois, com uma pontinha de remorso, emendei que são pessoas que também trabalham por prazer, que gostam de ajudar. A resposta, pelo jeito, não convenceu.

— Mas não leva nenhum tostãozinho? Um salário mínimo?

— Não, não leva. Por isso é que são chamados de voluntários.

Minha empregada não é nada boba. Diz que andou pesquisando sobre “a dona da Copa das Confederações”, a tal da FIFA. Ficou sabendo que é um pessoal muito poderoso, que ganha muito dinheiro. Gente estranha, que nem mora no Brasil, mas se mete na vida da gente como se fosse dono. A avenida Cristiano Machado em obras é um dos exemplos que ela me dá, com as minúcias que só conhece quem tem que atravessar diariamente a infernal avenida, a única do mundo que está permanentemente em obras. Pelo que andou sabendo, foi a tal da FIFA quem mandou fazer as obras, “para os jogadores chegarem mais depressa ao Mineirão”. Por causa das obras, uma comadre sua que morava no bairro São Paulo teve que fechar as portas da birosca em que vendia petiscos e cachaça. Sem renda, foi obrigada a retornar ao interior. Voltou para trabalhar de novo numa roça perto de Bom Jesus do Amparo, onde não tem televisão, onde não vai dar mais pra assistir o programa do Eduardo Costa, seu ídolo. E adivinhem de quem é a culpa? “É dessa FIFA”.

Márcio é corretor de imóveis na região Nordeste — Cidade Nova, Silveira, Palmares, União etc. Ele não tem nada a reclamar da FIFA, pelo contrário. Reclama das obras na avenida, mas aposta no futuro.

— Assim que estiver tudo pronto, o preço dos imóveis deve dobrar. Então, se a prefeitura não faz, a FIFA vem e manda fazer —, raciocina.

Faz mais: agradece intimamente à Federação Internacional de Futebol Association pela agitação que vem transformando a cidade num verdadeiro canteiro de obras. “No futuro, todo mundo vai agradecer também”, vaticina. Márcio não sabe o nome do presidente da FIFA, mas faz questão de dizer que, “daqui”, manda um abração pra ele. Faz sentido. Afinal, já conseguiu convencer dois clientes a comprar apartamentos na Cidade Nova. Um deles, uma cobertura a meia quadra do inferno. Quero dizer, Cristiano Machado. O irmão de Márcio também se inscreveu como voluntário para trabalhar na Copa das Confederações. Mas não esconde o jogo: não quer perder uma partida no Mineirão. “Nem que seja da Nigéria contra o Japão”. O irmão de Márcio, que fala inglês e espanhol, ainda não sabe se foi selecionado. Por isso, duvida da informação de minha empregada.

— O filho da amiga dela fala quantas línguas?

Não sei. Mas conheço a amiga da minha empregada, a mãe do rapaz. É a Conceição, que fazia faxina no prédio aqui do lado e já cobriu férias aqui onde moro. Conceição é bem descolada. Cozinha bem, e sabe fazer um tropeiro que já ficou famoso por aqui. Também já trabalhou como cozinheira e arrumadora em diversos hotéis da cidade, onde colecionou muitos autógrafos de gente famosa, driblando as proibições dos patrões. Mas, foi lá que conseguiu os macetes para inscrever Alan Fabiano, o filho. Graças aos bons relacionamentos que tem na hotelaria, garante que Alan já está selecionado como voluntário.

— Não vai ganhar dinheiro agora, mas depois…

Conceição mora no bairro São Paulo, pertinho da avenida Cristiano Machado e tem o sonho de abrir um salão de beleza, para trabalhar como manicure. Uma amiga sua, lá do bairro, foi trabalhar como manicure nos Estados Unidos e voltou “podre de rica”. Depois que soube que as manicures brasileiras são muito apreciadas pelas gringas, Conceição não pensa em outra coisa. Por isso, o feijão tropeiro feito com tanto capricho está momentaneamente fora de seus planos, para tristeza geral dos bingos clandestinos da região, que ela abastecia até pouco tempo. Conceição tem casa própria, de dois andares, com quintal grande, onde há pitangueiras e mangueiras, além de garagem que pode abrigar até quatro carros — no momento, só a Titan, a moto do filho, e um Pálio usado, mas que está como novo, que o marido já acabou de pagar. Tem forno de micro-ondas, geladeira nova, TV com alta definição e 3 D — “duas, uma no quarto do Alan e outra na sala” —, aparelho de som, fogão de seis bocas, exaustor, aspirador de pó com jato de vapor de água, jogo de sofás, ventilador no teto, grill George Foreman, omeleteira, iogurteira, panelas de teflon, panela elétrica pra fazer arroz… Diz que o valor de seu imóvel já dobrou!

— Não sei como as pessoas podem falar mal da Copa…

Nem da FIFA. Não sabe quem é nem onde fica, mas se fosse por aqui, iria pessoalmente agradecer por tanta coisa boa, tanta graça que tem recebido. Por isso, reza diariamente — jura de pés juntos — pela felicidade da FIFA. Se tivesse a oportunidade, faria pra eles um feijão tropeiro inesquecível, em que não falaria nem mesmo a farinha torrada, que recebe especialmente de Itabira e diz que é um dos segredos do sucesso de seu prato.

Curioso e, confesso, com uma pontinha de inveja que não consegue esconder, meu amigo corretor quer conhecer a Conceição, pra ver se não arranja um contato que garanta também ao irmão o cobiçado papel de voluntário da FIFA. Fico de apresentar os dois.

Pensativo, Márcio, que é um rapaz inteligente, que conhece Buenos Aires, onde comprou sua coleção de camisas Lacoste, numa ponta de estoque muito frequentada por brasileiros na Calle Suipacha, diz que nunca havia pensado na FIFA dessa forma.

— Que forma?

— Uai, como benfeitora. Já que por aqui ninguém faz nada mesmo, qual é o problema de alguém de fora chegar aqui e fazer?

Pra vereador, prefeito, deputado estadual, federal, senador, governador e, quiçá, presidente da República, a FIFA já tem cabos eleitorais garantidos. Só não vai candidatar se for boba!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.