Quem nos representa?

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Notícias, nos conta o teórico Nélson Traquina, distorcem a realidade, embora pudessem ser seu espelho. São dissonantes da realidade porque os jornalistas, sem autonomia, têm que se submeter ao controle ideológico e, segundo Traquina, até  conspirativo, que leva os meios de comunicação a funcionarem como um instrumento da classe dominante. As notícias, então, dariam uma visão liberal, conservadora e direitista que contribui diretamente para que tudo continue como dantes no tal quartel de Abrantes. Outro viés da teoria sustenta que os meios informativos são instrumentos de ideologia dos jornalistas, que seriam, em sua maioria, de esquerda. Ou esquerdistas como agora está na moda dizer. As notícias, então refletiriam a tendência de noticiar o mundo sob uma ótica esquerdista.

Eustaquio02Esse embate surge diariamente no facebook, a tribuna dos novos tempos. Ali, percebe-se que não mudou muito o discurso da velha esquerda. Nem o da direita. Esse, aliás, conseguiu ficar ainda mais furioso, mais intolerante. E os dois já começam a encher o saco. O “Bom Dia Brasil”, na Rede Globo, teria virado um desses panteões da direita, não fossem as intervenções risíveis da inacreditável Ana Paula Araújo, sempre a pontuar as notícias com expressões pobres, pra lá de manjadas. Quase cômicas, até. Melhor, direita por direita,o que o Boris Casoy fazia com muito mais convicção: “isto é uma vergonha!”. Como não tem coragem de falar (ou porque não sabe ou não tem realmente o que falar), acabou se transformando numa espécie de boba alegre, espécie, aliás, que já se considerava extinta nos dias que correm.

Nem só a Globo, claro. A Bandeirantes também enfatizou muito o blá blá blá do Aécio Neves sobre a redução da maioridade penal pra 16 anos. “Punir com os rigores da lei”, disse Aécio, refletindo o que 93% da população querem, como a Band News mostrou logo em seguida, para legitimar o discurso aecista. É muito oportunismo. Falta agora um outro candidato fazer uma proposta baixando pra 14. Aí, quem sabe o Aécio não baixava pra 12? Me fez lembrar um trabalho de conclusão de curso que orientei aqui, em que o desembargador Ciro Darlan, ao defender o Estatuto da Criança e do adolescente, que prevê a maioridade aos 18 anos, dizia que era um documento avançado para o Brasil: “Nós é que não estamos à altura dele”. Digam isso pro Aécio!

A esquerda costuma ser mais bem humorada. Ri mais, relaxa mais. Parece mais chegada a uma cervejinha, ainda leva discussões pra mesa de boteco. Mas o discurso também envelheceu. Ainda tem aquele ranço autoritário das palavras de ordem, mesmo quando se pinta de verde, como é o caso da Marina Silva — chata até onde é possível ser chata. Enquanto uns e outros marcam posição nesse terreno baldio onde parece que não brotam nunca ideias novas, percebo que há coisas acontecendo no país que vão passando à margem dos mundo dos políticos. Todas essas manifestações que surgiram no país trouxeram indícios disso. E não estou falando nem de Sininhos nem de Black Bloc. Há outras lideranças muito mais fortes surgindo, em campos, às vezes, insuspeitados. Uma delas, a do menino Lucas, o mentor dos rolezinhos, que foi assassinado nesse fim de semana. Logo, logo, vai aparecer outro Lucas. Essas são as lideranças de fato. Não importa se, em muitos casos, os rolezinhos se transformavam em algum tipo de baderna. Ou se criavam um clima para que a coisa parecesse se transformar logo depois em baderna e vandalismo, como adoram afirmar os noticiários da TV com seus urubulogistas de plantão. Mesmo quando a maioria dos jovens só quer saber de se divertir.

Há dias, encontrei um jovem amigo, aqui num shopping do Caiçara, olhando atentamente para uma loja do terceiro piso, daquelas que enchem os olhos dos adolescentes: cheia de bonés, camisetas, mochilas, botas, tênis… Magrinho,de bermudão, camiseta quase chegando aos joelhos, óculos escuros e o indefectível boné virado pra trás. Meia hora antes, ele quase desistiu de comprar uma mochila, desanimado com a desconfiança do jovem vendedor(que devia ter a mesma idade dele), relutante em aceitar seu cartão de crédito. Mas, Douglas, que joga vôlei, fez intercâmbio em Londres, já viajou pela Argentina e Chile, Estados Unidos e Canadá, vai fazer vestibular pra engenharia. É um carinha pra lá de esperto.

— Se o meu cartão estiver com problemas, posso chamar meu pai; ele é advogado e trabalha aqui pertinho. Aí, você passa o cartão dele.

— Seu pai é advogado? — Os problemas do cartão acabaram na mesma hora.

Conheço Douglas há muito tempo. Somos, eu e os pais dele, grandes amigos de longa data. Douglas não faz nem nunca fez rolezinho, mas acha legal, acha que o grande problema é que os comerciantes veem perigo em tudo — “porque a mídia motiva essa ideia de perigo”. No colégio dele, um colégio de alta classe média, dois de seus colegas moram em Venda Nova e estudam com bolsas oferecidas pela instituição. Eles apanharam muito quando houve aquela tentativa da garotada de lá de fazer um rolezinho no Shopping Venda Nova. Fora esse shopping, os jovens de Venda Nova quase não possuem outras alternativas para se divertir. “Só porque eles moram em Venda Nova não quer dizer que eles têm que gostar de funk ou do bailão sertanejo”, afiança Douglas, coberto de razão.

Às vezes, diálogos assim brotam em sala de aula, onde tenho muitos alunos nessa faixa de idade (17, 18, 19 anos), muitos deles morando na periferia ou, às vezes, até em cidades da Grande BH, tendo que viajar de três a quatro horas diariamente para chegar à faculdade. Não se interessam por esse discurso velho que bomba o facebook, cheio de acusações, ofensas e palavras de ordem. Mas não são apolíticos. A seu modo, também querem um país melhor, com mais oportunidades de estudo e trabalho para todos. Querem o direito de consumir o básico e também o de ser feliz, de se divertir, de serem aceitos sem prejulgamentos. “O que falta é gente que nos represente como somos”, me disse um deles, outro dia. Aí é que acho que o bicho começa a pegar.

Acho que nenhuma instituição representa hoje as multidões que estão tomando conta das ruas. Não só no Brasil. Os partidos políticos, principalmente. E não se deram conta disso, de que todas as possibilidades de seu discurso se esgotaram, que suas propostas já não atraem ninguém. Em vez de ficar só gastando dinheiro na compra de equipamentos de segurança para a Copa do Mundo, urge muito mais repensar o momento que vivemos, ouvir melhor o que a voz das ruas tem a dizer. Sacar que, hoje, no Brasil e em quase todo o mundo, político nenhum representa essas multidões. Por isso, em vez de só pensar no que se promete para a Copa — manifestantes versus polícia — talvez fosse melhor conjeturar sobre o depois, quando o exército sair da Maré, as PMs afrouxarem o cinto e os olhos do mundo se desviarem para outro cenário de desgraças. Aí, que Deus nos acuda!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Maria Cecília

    Como sempre, muito bem colocadas suas palavras. O que me faz pensar se não era hora de mudar a bandeira que o povo vem levantando para uma nova idéia: Imagina o que será de nós depois da copa? Como Lucas outros pessoas que formam grupos por ai, nem sempre com o proposito de badernar, sofrem por dar a cara a tapa pelos mesmo covardes que nada lideram e nada tem a acrescentar a cada um de nós.