Quanto vale morar em Buenos Aires

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Eustáquio Trindade é um apaixonado por Buenos Aires
Eustáquio Trindade é um apaixonado por Buenos Aires

Da Argentina

Eu tinha outro amigo, que era amigo do Tenório Júnior, pianista que acompanhava Vinicius de Moraes e Toquinho, e que foi pego pela polícia federal argentina, por engano, quando saiu pra comprar cigarros numa rua de Buenos Aires

Não sei quando surgiu minha paixão por Buenos Aires, mas foi há muito tempo. Eu tinha uma amiga, chilena, filha de exilados da ditadura Pinochet, que veio morar no Brasil e com quem eu adorava conversar sobre países que eu não conhecia, mas tinha muita curiosidade — o Chile, o Peru e a Bolívia. Aquela coisa de bicho grilo, de capanga de artesanato inca e coisa e tal, que eu pegava também dos livros do Carlos Castañeda, que era mexicano, mas falava um pouco daquilo que todo mundo que um dia foi hippie sabe como que é. Um dia, ela me perguntou: “E a Argentina, por que você não fala da Argentina”?

Eu tinha outro amigo, que era amigo do Tenório Júnior, pianista que acompanhava Vinicius de Moraes e Toquinho, e que foi pego pela polícia federal argentina, por engano, quando saiu pra comprar cigarros numa rua de Buenos Aires. Tenório foi torturado e morto. Quando a polícia sacou a cagada, que ele não era terrorista, escondeu o fato, que só foi revelado anos depois, quando um dos torturadores soltou o verbo e contou que, pra evitar problemas com o governo brasileiro, jogaram o corpo de Tenório na foz do rio da Prata — o maior cemitério da ditadura argentina. Quer dizer, ter problemas com o governo brasileiro é uma forma de dizer, porque o Brasil também vivia uma ditadura que nem a de lá, que matava, torturava e escondia corpo. Então, eu tinha muito essa coisa de pensar uma Argentina assim, que não podia ver um homem barbudo na rua, que ia logo prendendo, achando que era outra reencarnação do Che Guevara. Na época, de barba preta e cabelo grande, eu era pelo menos um protótipo desse perfil de terrorista. E assim, pra não correr o risco de ser preso, fui adiando minha vontade de conhecer a Argentina, ainda que, de certa forma, por meio de Julio Cortazar, Enrique Medina, Susana Rinaldi, Piazzolla, Amelita Baltar, Jorge Luis Borges, Mercedes Sosa e Mafalda, entre tantos outros, dentro de mim já batia um corazón porteño.

Buenos Aires duas vezes ao ano

Hoje, pelo menos duas vezes ao ano, dou um jeito de voltar a Buenos Aires. Um dia, ainda sonho morar numa daquelas ruazinhas tranquilas de San Telmo ou do Palermo Soho (desde que não seja na Plaza Serrano). Sheila, que é o nome dessa minha amiga chilena, um dia me disse uma coisa: “Pense nas pessoas que fizeram aquela cidade”. Pensei nisso logo na primeira vez que fui à Argentina. E na mesma hora entendi a paixão que os porteños têm por sua cidade. É bom morar em Buenos Aires, viver em Buenos Aires. Mesmo nos bairros mais pobres, na Zona Sul da cidade, casas e apartamentos mostram externamente o cuidado dos moradores, o amor que têm por suas ruas, prédios, sacadas, janelas. Não sei se por influência da imensa colônia italiana que também existe lá, há vasos de gerânios espalhados por toda parte. Sobrados em decadência, em La Boca, nas janelas ou nas varandinhas, estão permanentemente floridos, da mesma forma que os exclusivos condomínios da Recoleta, de Belgrano ou do Palermo Hollywood. Algumas casas têm muros altos, mas mesmo os muros são floridos, cobertos de hera ou sustentando imensas buganvílias. A gente passa pela rua, olha e pensa: “como deve ser bom morar aqui”.

Clarin

Por curiosidade, peguei a página de classificados do Clarin, o jornal de maior circulação em Buenos Aires. Com o câmbio favorável aos brasileiros, imóveis em bairros muito legais, como Montserrat ou Congresso — este, cortado pela avenida Corrientes, às vezes, com três ou quatro livrarias em um único quarteirão — oferecem muito mais qualidade de vida do que os chamados bairros nobres de Belo Horizonte e até do Rio de Janeiro. A quantidade de parques espalhados na área central e nos bairros é de matar de inveja. Por acaso, foi aí que descobri também que é grande o número de brasileiros que hoje está optando por essa alternativa de investimento. Há imóveis nessa região que custam quase a metade de apartamentos à venda na região Nordeste de Belo Horizonte…

Criminalidade

A quem interessar possa, informo que os índices de criminalidade em Buenos Aires já não são tão baixos e que, na periferia da cidade já há, sim, assaltos à mão armada. E que a inflação não é pequena, que há trombadinhas, batedores de carteira, que o trânsito é ruim, que as calçadas da área central estão urgentemente necessitando de reparos e, enfim, que os mendigos e favelas já não são mais estranhos à paisagem da cidade.

Mesmo assim, ela ainda está anos luz à frente da maioria das capitais brasileiras, no que diz respeito a morar bem. Por isso, se hospedar nos bairros, em vez do centro, quase sempre nos revela uma Buenos Aires muito diferente da que se estampa nos guias turísticos, que só falam em compras, compras, compras e parrilladas. Nos dois casos, nada contra, mas o encanto de desfrutar disso nos bairros é coisa que a maioria ainda não descobriu. E essa é, sem dúvida, a grande magia da cidade.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • joão paulo

    Olá
    gostei do artigo, muito convincente…
    até queria que o senhor me desse uma dica de qual bairo me hospedar em Bs As, pois eu estarei indo para estudar!!!
    grato.