Bairro Prado: entre galos, noites e quintais…

2
818
O antigo e o moderno se misturam nas ruas do Prado. Fotos Luiz Cláudio Ferreira
Mas os efeitos da modernidade já começam a se chocar com as tradições do bairro Prado

Gustavo Lameira

Tipicamente residencial, com suas casas de quintal e jardim preservados; de traçado irregular, com algumas ruas estreitas e pouco verticalizado. Com uma boa rede de serviços, comércio diversificado e população adulta, o bairro Prado se apresenta, paradoxalmente, como um bairro conservador e totalmente adequado à vida urbana.

Para o professor Luiz Cláudio Ferreira, 50 anos, trinta deles no Prado, a família ainda é o traço mais forte do bairro. “Antigamente, os filhos se casavam e iam embora. Só que depois de um tempo, eu via essas mesmas pessoas de novo aqui no bairro… Muitos porque tinham se separado e voltaram pra casa dos pais. Outros não: saíram e voltaram pra cá com suas novas famílias”, contou.

A localização do Prado é uma vantagem, “dá pra ir a pé ao centro, com 30, 40 minutos. Pra quem quer fazer uma caminhada, é ideal”, incentiva Luiz. Por outro lado, o acesso rápido ao centro, Padre Eustáquio e região da Pampulha e Contagem facilita o roubo de carros. “Volta e meia a gente escuta um ‘pega ladrão’, ouve alarme tocando… Um amigo meu entrou aqui em casa outro dia, pra tomar café, e quando saiu, tinham estourado o vidro dele e roubado a mala”. Segundo o professor, existe um policiamento regular e, em algumas ruas, a Rede de Vizinhos Protegidos; mesmo assim, pensa que segurança deve ser reforçada, principalmente nos fins de semana, quando o bairro fica bem mais vazio.

Contra congestionamentos

Ainda por conta da localização, o Prado se tornou uma alternativa contra os congestionamentos, o que complica bastante a vida dos moradores.

— Pra subir, sentido centro, eles pegam a Rua Brumadinho; pra descer, sentido bairro, a Turquesa. E o pior, essas ruas só têm sinal nos extremos (no cruzamento com as Avenidas Francisco Sá e Silva Lobo). É quase impossível atravessar. E isso é o dia inteiro; no horário de pico só piora. Vira e mexe, tem batida aqui.

Mobilidade

A estação de metrô Calafate e duas linhas de ônibus (9210, Prado-Santa Tereza / 2103, Prado-Anchieta) atendem os moradores do Prado. “Só não pode chover”, advertem o professor e as placas. A primeira chuva do período, no último dia 15, arrastou e empilhou carros, e deu prejuízo aos comerciantes da Avenida Francisco Sá, o ponto mais vulnerável do bairro. De acordo com a administração Oeste, não há obras em andamento nem previsão para começo dos trabalhos na via. Para o Orçamento Participativo (OP 2013/14), há uma proposta de revitalização da Rua Platina. Luiz ainda chama atenção para a Rua Ituiutaba, onde foi instalada uma boca de lobo “gigante”, mas com pouca resolução.

A jornalista Genoveva Ruisdias no bar do Bigode

Moradora do Prado, há mais de 40 anos, a jornalista Genoveva Ruisdias, diz que é urgente um levantamento sobre a saúde das árvores — tão antigas quanto o bairro —, outra ameaça nesta época do ano. E ainda aponta a má conservação das ruas e calçadas: “a maioria está cheia de degraus e buracos, e dificulta a caminhada dos moradores mais velhos. E como tem gente da terceira idade nesse bairro… Precisávamos de mais praças, de áreas de lazer… De um ‘serviço de babá’, afinal, pagamos por isso”. No Prado há uma grande concentração de academias de ginástica, mas nenhum espaço público para recreação e prática de esportes.

A história

A área em que está o Prado pertencia à Fazenda Calafate, uma entre tantas que cercavam a capital na época de sua construção, e eram responsáveis pelo fornecimento de material, água, alimento etc. Mais tarde, a Calafate foi dividida e parte dos terrenos doada pela prefeitura à população operária. Em 1909, foi construído o Hipódromo Prado Mineiro, que deu nome ao bairro e criou uma linha de bonde para a região. Com a baixa popularidade do turfe, o espaço acabou virando um campo de futebol, onde foram disputados os primeiros jogos do campeonato mineiro. Oficialmente, o primeiro voo de avião de Belo Horizonte também aconteceu ali. Àquela época, o aparelho era conhecido apenas por meio do Cinema. Atualmente, o local abriga a Academia de Polícia Militar de Minas Gerais, o Clube dos Oficiais e o Colégio Tiradentes. Grandes empresas presentes no Prado são a Faculdade Estácio de Sá, e a de call center, Contax.

A verticalização do Prado já é uma realidade
A verticalização do Prado já é uma realidade
Confecções

Outro negócio que vem se tornando marca do Prado são as confecções. De acordo com a PBH (num último levantamento), cerca de 450 empresas estão registradas no bairro. Diferente do polo de moda atacadista do Barro Preto, as lojas do Prado focaram no varejo, no atendimento personalizado. Esse mercado contribuiu ainda mais para valorização imobiliária. De acordo com Emerson dos Santos (Grupo Paixão Imóveis), desde a modificação na Lei de Uso e Ocupação do Solo (1996), a verticalização tem mudado a paisagem do Prado, que agora mescla casas de fachadas tradicionais com prédios modernos e de alto padrão de luxo. Ainda segundo a imobiliária há diversos lançamentos (de 3 e 4 quartos) na região. O aluguel de um apartamento de 80m² tem preço médio de R$ 2 mil; para a venda, o valor pode chegar a 600 mil. Já as casas têm sido mais procuradas para o aluguel comercial (para instalação das confecções); e para venda, pelas construtoras, para a demolição e construção de novos prédios.

Paróquia de São Cura D’ars
Um povo de fé e um novo circuito de bares

Observador, Luiz percebe o Prado como um bairro de classe média — a tradicional —, de boas casas, pessoas com bons carros, bons empregos, e de católicos praticantes. Frequentador da Paróquia de São Cura D’ars, ele conta que é na missa de domingo que a vizinhança se encontra. “A igreja sempre promove campanhas, bailes, jantares, e isso movimenta a comunidade. Inclusive, a Cura D’ars ganhou o título de basílica, em louvor a fé do povo da região”.

De olho no Comida di Buteco, participando ou não do festival, os bares do Prado também fizeram investimentos, da estrutura ao cardápio, garantindo a clientela durante todo ano. O Bar do Júlio está entre os cinco mais antigos da capital, e no Prado é o que está há mais tempo em funcionamento. “A história começou, há 54 anos, com meu pai, o seu Júlio, quando viemos de Portugal, e o bar de chamava Santo Antônio. Depois que ele morreu, há 20 anos, assumi o negócio e lhe fiz essa homenagem”, conta Antonio Caria. O cartão de visita da casa é a cerveja sempre gelada, e os tradicionais salgados e tira-gostos de boteco (pernil, costela, almôndegas, dobradinha). O bar fica na Rua Turquesa, 764. O horário de funcionamento é de segunda a sexta-feira, de 08h30min às 22h30min; e aos sábados, até as 18hs. Contato: 31 3332-6446.

Bar da moda

Considerado o bar da moda, o Patorroco foi o vencedor do Comida de Buteco 2012, com o prato “Sheik de Minas”, receita inspirada no chancliche, um tipo de queijo árabe temperado com ervas, acompanhado de lagarto em conserva agridoce. De acordo com o gerente Marcelo de Jesus, o bar ficou famoso por conta do encontro dos jipeiros, mas atualmente tem público variado. O Patorroco fica na Rua Turquesa, 875, e funciona de segunda a sexta, de 17 às 23 horas; e no sábado, de 12 às 23h. Contato: 31 3372-6293.

Bar Patorroco, vencedor do concurso Comida Di Buteco deste ano

Genoveva lembrou o ditado “Como Minas não tem mar, o mineiro vai pro bar”, e aproveitou o espaço para recomendar algumas “praias” do Prado. “Tem os tradicionais Pizzaiolo Barroca, Bar do Bigode e Churrasquinho do Rey. E ainda, Agosto, Rima dos Sabores, Bananeiras, Quintal do Prado; e os points musicais, Garagem e Bar do Prado.

  • Ola, sou proprietário do bananeiras bar e quero aqui agradecer por ter citado o bananeiras bar no texto; sou morador do bairro a mtos anos e concordo plenamente com tudo que foi escrito. no mais é conviver e adaptar as mudanças no bairro; quanto a questão da segurança, eu penso que devia ter investimetos em câmeras de segurança ( olho vivo ), uma vez que tem mtos comércios tanto durante o dia qto a noite; vira e mexe recebo comentários de clientes com relação a furto e roubo nos carros o que é lamentável. grande abraço

  • lindaura

    Obrigado a jornalista Genoveva Ruisdias por ter citado O Rei Espetinhos como referencia de bar no Prado, enfim obrigado a todos!!
    Abraco a todos.