Pra não dizer que não falei das flores

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Pra não dizer que não falei das flores - Crônica por EustáquioTrindadeÀ exceção do sábado e do domingo, quando escolho ficar por mais tempo na cama, nos outros dias, a fim de planejar uma série de atividades, que vão da fisioterapia à caminhada, acordo bem cedo. Por volta das seis. Na verdade, nem há tanta necessidade de ser assim tão cedo, mas o certo é que acabei viciando o tal relógio biológico e, às vezes, antes das seis, já estou irremediavelmente acordado. Então, vou ver televisão. Telejornais. SBT, Band, Record e os da Globo, Bom Dia Minas e Bom dia Brasil. Como já escrevi antes sobre as linhas editoriais de cada um, não voltarei mais a falar do assunto. Em vez disso, prefiro falar da construção da pauta (o agendamento) e de como isso acaba por ir ao encontro, mesmo que sem intenções explícitas, da vontade dos patrões. Ou seja, de quem define as linhas editoriais.

A vida nos bairros, por exemplo. O boom da construção civil. Esse só é mostrado do lado, digamos, positivo. Tá aumentando, o que significa que tem mais gente comprando, consumindo, que as desigualdades sociais também estão desaparecendo. E tome oferta de crédito e conselhinhos bobos sobre como não se endividar ou comprar gato por lebre. O lado negativo só vem em forma de tragédias sensacionais, do tipo desabamentos do bairro Buritis. Exageros, apelos emocionais, tudo para reforçar as matérias de interesse do público. É quando os recursos do sensacionalismo chegam ao auge. Transformar a informação em matéria de interesse público, jamais. Não dá audiência, parece que não age com a mesma eficácia que o jornalismo sensacionalista. As matérias de interesse público, ao contrário das de interesse do público não têm a menor capacidade de estimular manifestações sociais.

A região aqui da Cidade Nova/União tinha duas áreas de lazer interessantes. Quadras, onde se paga (caro) pra jogar futebol. Não é pra qualquer um, mas num momento em que todos apontam shopping center como áreas de lazer, não vejo qualquer problema em fazer esse tipo de comparação. Ou bem ou mal, as quadras são área de lazer. Uma delas fica em frente à minha casa. A outra, a um quarteirão. Essa, acabou de ser vendida e vai virar um conjunto de lojas, salas, apartamentos e estacionamento. Uma permuta que fizeram com o dono do lote, que ainda vai levar todas as lojas e salas. A construção deve começar já. Tem gente adorando. É o progresso chegando a uma região cada vez mais verticalizada, onde problemas como queda de energia elétrica e inundações são frequentes. E reparem que nem falei em problemas de estacionamento! Não custa lembrar que a Cidade Nova e boa parte do União correm às margens da Avenida Cristiano Machado, eleita em concurso deflagrado no inferno e referendada com assinatura do capeta (com firma reconhecida), como a avenida mais infernal do planeta. E aí vem mais prédio e mais carro! Problematizar esses dados daria uma matéria de interesse público ou de interesse do público?

Pra não dizer que não falei das flores, retorno às tragédias do Buritis, que abordei lá no comecinho, quando falei das saudades de seu Janot, alguns meses atrás. Até porque, nesse fim de semana me encontrei com um colega jornalista que se mudou para lá e está se remoendo de arrependimento.
— Rapaz, todo dia tenho que enfrentar, ou a Raja Gabaglia ou a Barão Homem de Mello. Esse bairro tá me levando à loucura!

O que os jornais de TV fazem mais é mostrar engarrafamentos extensos, sem se deter na origem do problema — a falta de planejamento, permissão para construções em locais indevidos etc. Só ficam no exagero dos engarrafamentos. E, ao abordar com tal exageros os fait divers, tendem a banalizá-los. Imagens marcantes, textos fortes, apelo emocional elevado ao extremo. Esse é o espetáculo que o público de massa consome. E o exagero, sabemos bem disso, deturpa a realidade. Nenhuma das pessoas com quem conversei se interessou pelo assunto que propus: o impacto dessa nova construção no bairro. Aliás, um dos que têm índices de violência mais altos de Belo Horizonte. Não, a maioria preferiu se interessar pelo preço das salas, que já estão à venda (média de duzentos mil, pelo que eu soube). Isso é que é investimento, disse um deles.

O lote onde fica a quadra situada em frente à minha casa é maior. Na esquina tem outro (vago) do mesmo tamanho. Não dou um ano e também já estarão na corrida imobiliária. Imagino o transtorno. Buzinas, roubos, luta por vagas nos estacionamentos, homens de negócios, copa do mundo, olimpíada, qualidade de vida escorrendo rapidamente pelo ralo. Tá parecendo que sou contra o progresso? Que estou nadando contra a correnteza? Será que é tão difícil assim se expressar a favor da vida?

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Holanda Xavier

    Gostei dessa inovação quanto ao ramo imobiliário, mas preciso obter mais conhecimento sobre a referida Empresa. Porque tenho encontrado muita dificuldade na parte de cumprimento das Leis criadas e engavetadas, substituìdas, para nunca serem cumpridas.Temos o imenso prazer de sabermos que estamos conhecendo uma equipe dígna de conconcorrer com o mercado imobiliário, porém com grande possibilidade de vencer esses entraves nesse campo.

  • Holanda Xavier

    Aguardo seus pareceres quanto a Lei Nº 4.121 de 278\1962, Art. 246, como ela funcionou, e como funcionará, á partir do Novo Código Civil de 111\2003, quanto as vendas de imóveis Adquiridos, antes desse Código atual?