Porque somos todos BBB (Big Bobos do Brasil)…

0
455

Eustaquio02É impressionante como por aqui é fácil burlar as leis. Como, no Brasil, a cultura de levar vantagem vem encontrando, nas próprias leis, respaldo para expandir-se. Para não ter que mexer nas prestações de quem tem mais de 60 anos, os planos de saúde começaram a mexer nas de quem tem 59… E o tal do atendimento eletrônico? No último fim de semana vivi uma experiência nada interessante, a de ter que enfrentar esse tal atendimento eletrônico. Ou digital, virtual, seja lá que nome for. Meu pesadelo começou no sábado, por volta das 16h, quando mais uma tempestade desabou sobre a cidade. Num poste quase em frente ao prédio onde moro, queimou um fusível do sistema trifásico, como me explicou depois um eletricista. Um conserto para ser feito em, no máximo, cinco minutos. Por volta das 16h30, como a energia não retornava, comecei a ligar para o 116 da Cemig. A voz gravada então me avisava que já sabia do problema, que uma equipe já estava no local e o problema logo se resolveria. Cheguei à janela e não vi equipe nenhuma. Esperei mais meia hora e voltei a ligar. A mesma resposta e, ao final, com um lembrete: “todos os nossos atendentes estão ocupados neste momento”. Sabe do que mais? Continuaram ocupados até às 11h do dia seguinte, quando, milagrosamente consegui falar com uma senhora, dona de uma voz que me pareceu de verdade, real, em vez do robô com quem passei a madrugada conversando. Essa, levemente impaciente, disse que minha reclamação foi feita “pela metade”, apesar do protocolo do atendimento que eu tinha em mãos.

— Como pela metade, se o atendimento eletrônico te impede de falar com os atendentes de verdade?
Do outro lado, um silêncio que traduzia, de novo, a impaciência dela.

— Bom, a reclamação está anotada, quero seu telefone de contato e uma de nossas equipes será notificada para comparecer ao local. São quatro horas, a partir de agora!

Compareceu às 15h52m, quando vi a camionete da Cemig estacionar em frente ao poste e, rapidamente, resolver o problema. Perguntei ao eletricista se isto não poderia ter sido feito na tarde de sábado. Ele disse que sim, porque “a situação só piorou depois das cinco e meia da tarde e esse conserto é rápido”. Não sei se voltei pra casa mais aliviado ou mais furioso. E a sensação de impotência que cai sobre a gente? Ficar 24 horas sem energia, porque não se consegue romper a barreira erguida pelas gravações do sistema eletrônico da Cemig… Uma vizinha comentou comigo:

— E dizem que essa é a melhor da América do Sul… Já pensaram nas outras?

Não tenho nem coragem de imaginar. Nem vou ficar rebatendo naquela velha história dos temporais do verão, porque também já conseguimos transformar essa observação em rotina e ninguém liga mais. Os temporais e suas trágicas consequências já ganharam, em nosso imaginário, aura de coisas inevitáveis, para as quais não há prevenção possível. Um dos dois rapazes que vieram fazer o conserto me contou que o maior problema foram as árvores: “caíram em quase toda a cidade, derrubando a fiação”. O outro ponderou que a culpa é das construtoras, que plantam as árvores que querem, onde querem, sem pedir a opinião de ninguém. “A prefeitura, que não fiscaliza isso, é outra culpada — árvores pequenas não dão tantos problemas”. Bom, em tese, essa fiscalização deveria caber aos vereadores — ainda mais agora, que receberam um aumento daqueles no salário —, mas como o comportamento deles é imprevisível… Na verdade, acho que “não confiável” seria o termo mais correto. No entanto, como pago IPTU em dia, Cemig, Copasa e o diabo a quatro, acho que tenho o direito de reclamar, sim. E o faço em nome de centenas de pessoas — todas indignadas — com quem conversei a respeito. Dois temas para a Câmara dos Vereadores botar em pauta:

1) Disciplinar o atendimento eletrônico das prestadoras de serviço. Se a Cemig não me dá energia elétrica de graça, então, não tem que ter esse papo de que “nenhum dos atendentes está disponível neste momento”. Se não tem, então, arranja mais gente! Às 17h do sábado não tinha, às 22h, às 24h, às 03 da madrugada, às 7h da manhã, às 10h da manhã também não tinha! Só o robô do outro lado, nos fazendo de bobos! Aqui, caberia também pensar se o PROCON ou a Promotoria Pública não poderiam ser acionados.

2) Na hora de plantar árvore na frente do prédio, que as consultoras peçam a permissão dos especialistas da prefeitura. Não às que têm raízes que arrombam passeios e ajudam a derrubar muros; não às que possuem galhos que crescem desordenados e danificam a fiação elétrica, tornando-se um perigo para carros e pedestres.

Quem sabe, botando um pouquinho de ordem no caos, no ano que vem as tragédias não se tornem assim tão frequentes? Um pouquinho de esforço, pelo menos uma vez na vida, ao que se sabe, nunca matou ninguém.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.