“Porque eu gosto de morar no centro de BH”

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Prédios do Centro de Belo Horizonte vistos do Viaduto Santa Tereza
Nem todos gostam, mas há quem não troque a agitação da área do centro por nenhuma tranquilidade…

Gustavo Lameira

O centro da capital mineira é fascinante. Quem disse que só descolados, hippies, solteiros, atores não elencados, estudantes do interior, entre outros estereótipos, povoam os condomínios do centro de Belo Horizonte? Isso é o senso comum. Nem todo apê é quitinete nem necessariamente está no Maletta ou JK; nem todos são preenchidos com mobília de bambu, almofadões, carrancas, discos de vinil e incenso. São diversos os tipos, estilos e motivos para se morar no centro da cidade. Há os que sempre viveram bem ali, e preferem a vida com pressa, com menos chance de repetição. Há os que trabalham buscando o espaço ideal para outros também poderem morar ali, e os que conseguem colocar ordem nesse aparente caos.

É ter tudo à mão
O Edifício San Remo, na rua da Bahia, é um dos mais tradicionais do Centro de BH

A aposentada Vildete Chaves de Menezes, 71 anos, é de Itinga, no Vale do Jequitinhonha. Assim que se casou, no final dos anos 1950, se mudou para Belo Horizonte, porque o marido era daqui. A família veio depois, atrás de melhores oportunidades. Primeiro ela morou no bairro Floresta; e há 40 anos vive no Edifício San Remo, rua da Bahia, centro.

Para ela, morar no centro é ter tudo à mão, além de ser bem mais seguro. “Aqui nós temos farmácias, hospitais, supermercados, todos os bancos, ônibus à vontade, táxi barato, sem falar que podemos ir a pé a muitos lugares”.

Em tempos idos, os bares, livrarias e hotéis da rua da Bahia eram pontos de encontro de artistas, intelectuais, jornalistas, políticos, empresários. Em memória disto, e para preservar o patrimônio cultural da via, foi instituído em 1998 o Eixo Cultural Rua da Bahia Viva. Entretanto, poucos estabelecimentos aderiram e funcionam ininterruptamente. A segurança, pelo menos para o quarteirão entre Avenida Augusto de Lima e Rua Guajajaras, está garantida, com a 4ª Cia. do 1º BPM, funcionando em frente ao prédio.

Sabendo de tudo

O San Remo é de 1958, tem 12 andares e 168 apartamentos (de um e dois quartos). Os inquilinos são maioria entre os moradores, com um aluguel variando entre R$ 950 e 1.200, mais taxa de condomínio, de 170. O San Remo ainda tem uma galeria com dez lojas e sete funcionários, tudo e todos sob o comando de Vildete, a síndica.

Num apartamento de fundos, de 87m², ela quase não percebe o barulho da cidade, mas está a par de tudo que acontece ao seu redor.

— A gente acaba conhecendo a rotina de todo mundo, os hábitos, os horários. Mas para viver num prédio, em comunidade, tem que ter limite. E aqui, uma minoria, às vezes, se esquece disso… Se um morador chega tarde, dando risadas, um pouco mais exaltado, eu ligo pro porteiro, que dá o primeiro aviso. Se persistir, eu mesma interfono pro apartamento dele… E o morador pode até ser multado, como alguns já foram.

O ex-governador Newton Cardoso está entre ex-moradores famosos do San Remo.

Incômodo maior para o condomínio era a passagem da Banda Mole, que por anos subiu a Rua da Bahia, fazendo um esquenta para o carnaval.

“Eu fui uma das que lutaram para mudar o trajeto do bloco. Nos dias de desfile a gente tinha que manter dois seguranças na portaria, mesmo assim ainda tínhamos problemas. O prédio tem muitos idosos, e já aconteceu deles passarem mal e a gente não conseguir sair daqui”, contou.

Fins de semana

Já nos fins de semana, Vildete vê o centro de Belo Horizonte como uma grande cidade do interior. “Os moradores têm a Praça da Liberdade e o Parque Municipal para passear e fazer caminhadas; a Feira Hippie, os shoppings, bibliotecas, igrejas, centro cultural, teatros, museus (o Inimá de Paula fica em frente ao San Remo)… É um privilégio”. Mas reclama: “o que falta pra gente aqui, e já pedimos à BHTrans, é uma vaga na porta do prédio, pelo menos para desembarque. Quando chegamos com as compras de supermercado, o taxista mal pode estacionar e a gente descer as sacolas, por causa das multas”.

À frente do condomínio por oito anos (alternados), Vildete administra o San Remo como se fosse sua casa. Além da manutenção periódica, atualmente o prédio passa por reformas. A contratação das empresas e a fiscalização dos serviços são de responsabilidade dela.

— Com uma “caixinha” de R$ 100, paga durante 15 meses, trocamos os elevadores, o telhado, o encanamento e os extintores de incêndio; fizemos a pintura e instalamos corrimão, guarda-corpo e câmera em todos os andares… Agora, estamos terminando a portaria, e o 13º salário dos funcionários também já está garantido.

As eleições para síndico acontecem a cada dois anos, que pela função recebe de dois a três salários mínimos. No entanto, Vildete diz que assume o cargo por vocação. “Faço isso porque amo o San Remo! Sou síndica 24h, me sinto prefeita de uma cidade. E é claro, não consigo agradar todo mundo… Também nunca pedi voto, nunca distribuí um folheto, sou aclamada”.

Falta policiamento

A produtora de cinema Daniela Fernandes, 30 anos, nasceu e mora no centro; sempre no mesmo endereço: Edifício Flávio dos Santos, Rua dos Goitacazes, 90.

A produtora de cinema Daniela Fernandes (direita) mora no Edifício Flávio dos Santos e diz que as vantagens de morar no Centro são inúmeras

Para ela, são inúmeras as vantagens de se viver na cidade, principalmente a de estar tão próxima do Palácio das Artes (Daniela coordena há oito anos a programação do Curta Circuito, evento permanente da casa). E quando pensa em sair dali, pensa em outro extremo. “Me mudaria pra uma casa, num desses condomínios fechados, ao redor da cidade”.

O edifício Flávio dos Santos é da década de 1950, e foi construído pelo engenheiro Hugo Balena, filho do médico Alfredo Balena. São dez andares, 29 apartamentos (de 2, 3 e 4 quartos) e garagem para 1/3 dos moradores — um luxo, por se tratar do centro. A maioria dos moradores é proprietária, e o condomínio, 700 reais. O prédio é tombado pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte.

Confortavelmente instalada, Daniela divide o apartamento de 280m² com a mãe, a jornalista Cleurice Fernandes, que deu mais detalhes sobre a história do imóvel.

— Hugo Balena separou este apartamento aqui pra ele, por isso é o único que tem piso em mármore carrara, o mesmo que foi usado na portaria. Essas colunas gregas também só têm aqui. Eu sou a terceira dona dele.
Mais urbana, Cleurice diz que só deixaria BH para morar em Copacabana (RJ), onde tem um pequeno apartamento, compensado pelo clima e paisagens cariocas.

A segurança é uma preocupação para elas. “Falta policiamento aqui, principalmente no fim de semana. Nosso quarteirão é muito escuro (Goitacazes, entre Espírito Santo e Bahia)”. E o trânsito de domingo, um aborrecimento: “o pessoal que vem para Feira Hippie usa essas ruas todas do entorno como estacionamento. Isso, quando uns motoristas ainda não fecham a entrada e saída das garagens”.

Dá status

Segundo a corretora Glauciole Gomes (RC Nunes Imóveis), investir no centro é um bom negócio. “Há pouco tempo uma construtora anunciou o lançamento de um prédio com cem vagas de garagem, na Avenida Amazonas, e vendeu todas as unidades em menos de uma hora. As pessoas estão comprando na planta; depois alugam ou revendem com mais de 100% de lucro”, explica.

Glauciole, 37 anos, é de Coronel Fabriciano, e veio para a capital, em 1999, tratar dos dentes. Na época, se hospedou na casa de uma tia, no bairro João Pinheiro. Mais tarde, já acostumada com a cidade, foi morar no hipercentro, na Avenida Paraná. Conseguiu uma bolsa do Pro Uni, se formou, e foi ficando. Agora, ela está no Edifício Riviera, na Avenida Augusto de Lima, a um quarteirão da Praça Raul Soares, no Barro Preto.

A corretora Glauciole Gomes diz que morar no Centro da capital dá status

O Riviera é de 1967; tem 15 andares e 60 apartamentos (de 90 e 120m²). O preço do aluguel varia entre R$ 700 e 1.300, mais R$ 250 de condomínio. Para venda, o preço médio é de R$ 300 mil.

A corretora vive num apartamento de dois quartos (mais dependência de empregados e sacada), com três amigas do interior, que também vieram estudar e trabalhar. “Não tenho problema em morar assim, sou de família grande. Lá em casa somos sete filhos; sem falar que fica bem mais em conta com elas”. Glauciole também destaca o custo de vida. “Outro dia sai do trabalho e comprei uma ricota na Savassi, por R$ 16. Aqui, perto de casa, paguei 8, e na mesma rede de supermercado”.

Sem carro

Até a falta de garagem não é mais problema para quem decide comprar ou alugar imóveis na região central. Segundo Glauciole, para não terem que enfrentar o trânsito, os clientes estão abrindo mão dos carros ou, então, alugam garagens.

De acordo com Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura, estão em andamento no centro da cidade, o recapeamento da Rua Curitiba, entre o Mercado Central e a Av. Álvares Cabral, e o BRT, que vai passar pelas Avenidas Santos Dumont e Paraná. Ainda estão previstos para região central a construção de oito estacionamentos subterrâneos, um deles no Barro Preto. O projeto vai criar 3.469 vagas até 2017. O início das obras está previsto para o primeiro semestre do ano que vem.

Além do importante polo de moda que é o Barro Preto, a reforma da Praça Raul Soares valorizou ainda mais a região. Mas a prostituição é um antigo problema local.

— Ali na Raul Soares fica cheio de garotos de programa. O bairro também está cheio de boates. De madrugada, tem muito barulho, assalto, briga entre os travestis. Um tempo atrás, aqui no prédio mesmo, o porteiro percebeu um “entra e sai” suspeito de um apartamento… Aí o condomínio não aceitou; não renovaram o contrato desse inquilino.

O perfil de quem procura imóveis residenciais no centro, pelo menos entre os clientes de Glauciole, é bem variado: Solteiros, casados — sem filhos —, recém-casados, os jovens, os de meia-idade. A corretora também sonha com a casa própria, com qualidade de vida.

No seu caso, considera um desperdício o dinheiro gasto com aluguel. Mas admite que a praticidade da região central talvez a faça pensar duas vezes.

Eu já me acostumei com esse estilo de vida… Hoje o preconceito é menor, mas já me estranharam por morar sozinha. Mas, engraçado, pro povo do interior, a gente só tá bem aqui quando mora no centro. Para eles dá status (risos).