Pensar duas vezes antes de comprar formicida

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Pensar duas vezes antes de comprar formicida - Crônica por Eustáquio TrindadeMais um papo sobre chuva e moradia, mas, desta vez, em cima de um documentário que vi na televisão e que, pelo visto, outras pessoas também, pois o fato foi citado durante um daqueles debates com as autoridades ditas competentes, falando de enchentes, deslizamentos e afins. Um repórter saliente lascou: “Se o solo fica encharcado, animais como as formigas também devem sofrer, pois os formigueiros devem ficar inundados”. Num primeiro momento, confesso que me causou espécie esse súbito interesse dele pelo reino animal. Claro, pois quem é que vai parar pra pensar em formiga numa hora dessas, ainda mais num debate da televisão? Depois, percebi que, na verdade, ou ele não viu o documentário todo ou não entendeu patavina. Revi o documentário, por sorte, no mesmo dia. Aí, diversas autoridades — estas, sim, me pareceram competentes — se valiam de tecnologia de ponta, em laboratórios de última geração, para tentar entender o complexo mecanismo de construção adotado pelas formigas, em suas moradias subterrâneas, que podem chegar a até quatro metros de profundidade e que, numa escala humana, equivaleria a quatro quilômetros terra adentro. E aí, cada um deles ia explicando que tudo passa por uma série de critérios, sem os quais nada é construído. O primeiro deles é a escolha do terreno. Por exemplo, elas sabem que os rios necessitam de amplos espaços em suas margens para se espreguiçar em tempos de cheia. Por isso, nada de construir perto de cursos d’água. Nem nas encostas, pois é onde a terra encharca, amolece e desaba. E aí, me perguntei: “mas tem que ser formiga pra saber disso?”.

Depois vinham outras dissertações sobre ventilação, controle da temperatura ambiente, estocagem de alimentos e, enfim, outros macetes que me fizeram prometer quase jurar que vou pensar duas vezes sempre que entrar em lojas de produtos veterinários pra comprar formicida…

Há algum tempo, aqui no emorar, temos tentado levantar esse tipo de discussão toda vez que abordamos o boom imobiliário que envolve o país e, em particular, Belo Horizonte. A cidade, ou o município, pra cair numa expressão mais específica, já não tem tantas áreas assim pra se construir. A menos que seja, como estão fazendo na Cidade Nova, derrubando todas as casas pra construir prédios de cinco ou seis andares. Queria saber se, como as formigas, alguém tá pesquisando, procurando saber se o solo vai de fato aguentar, como é que a rede de esgoto vai ficar e se o fornecimento de energia não será alterado. O que se vê nesse momento de boom, que tem como mola mestra a ascensão da classe C emergente, com imóveis pipocando por toda parte, tem, em muitos momentos, cara de descontrole. E que ninguém me venha falar que é o contrário: basta olhar o caos em que se encontra a cidade.

E como estou falando de gente — as diligentes formigas, aqui, são apenas coadjuvantes —, fico pensando nos diferentes papeis atribuídos a diversos atores desse mesmo cenário, desse mesmo palco. Quem construiu, viu sua obra desabar, já está enfrentando problemas com a Justiça e com certeza vai ficar profissionalmente marcado por isso pro resto da vida; e quem comprou sem pesquisar direito. Quem diria que, nos dois casos, perder algum tempo diante da TV, seguindo inocentes documentários da National Geographic sobre a vida das formigas poderia ser de grande validade…

Eustáquio Trindade Netto – Jornalista e professor de Jornalismo.