Outlet: mentira ou jogada?

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Uma imobiliária inaugurada há sete meses em Belo Horizonte fez uma jogada de marketing para captar pessoas que desejam comprar imóveis. Utilizou da boa-fé e da credibilidade ao divulgar que venderia imóveis com descontos incríveis, como se fossem peças de vestuário e calçados, já que afirmou que faria um OUTLET DE IMÓVEIS. Passados três meses, nada aconteceu … exceto que a imobiliária fez um enorme cadastro de potenciais compradores que colocaram seus dados e esperanças no site que prometia um “negócio da china”.

Muitas pessoas deixaram de comprar e assim perderam boas oportunidades na esperança dessas pechinchas. Acreditaram no que foi publicado no dia 02/10, no O Tempo: “vamos reunir imóveis que estão com a venda parada e ofertar por até 40% a menos do valor” anuncia Bruno Spínola, um dos sócios da Ampla Prime Imóveis.”

Inconsequência
Diante da reclamação dos leitores que ficaram esperando as ofertas, escrevo este artigo para respondê-los, com uma finalidade pedagógica, somente para orientar o público, sem qualquer intenção de duvidar da Ampla Prime, pois quero ver ela cumprir o que prometeu.

O mercado passou por um período superaquecido entre 2010 e 2011, alcançando agora a estabilidade, onde qualquer preço varia em torno de 10%, já que avaliação não é absoluta. Em 2012 os imóveis devem fechar o ano com valorização em torno de 14 a 18%, ou seja, o dobro da inflação, mas com alta inferior aos 25% ao ano apurada em 2009 a 2011.
Consiste numa atitude inconsequente inventar situação que pode ser considerada propaganda enganosa, pois caso não cumpram o que prometeram (40% de desconto em vários imóveis), haverá o risco de enquadramento criminal com base nos arts. 37 e 67 do Código de Defesa do Consumidor. Centenas de pessoas passaram seus dados, interesses, capacidade de pagamento para quem ofereceu o que não existe. Será que você faria negócio ou confiaria seu patrimônio com quem age assim?

Realidade
Comparar um imóvel de R$1 milhão com uma calça, camisa ou tênis, só pode ser brincadeira! Nenhuma construtora obtém lucro líquido de 40% sobre um produto de demora 2 a 3 anos para ficar pronto, sobre o qual há risco com aumento dos custos de materiais e mão de obra que está disputadíssima. Acabaria falindo com tal desconto, caso fosse praticado sobre o valor real.

Já no mercado típico de outlet, é comum o lojista comprar uma peça de roupa por R$100,00 na fábrica e remarcá-la com 200% de acréscimo. Passada a estação, ou seja, ao virar “ponta de estoque” aquela peça de roupa de R$300,00 perde o atrativo e o lojista concede um desconto de 50%, ou seja, a vende por R$150,00. Dessa maneira, liquida o estoque ultrapassado, evita o encalhe, e, ainda ganha R$50,00 acima do custo.

Ocorrer isso com imóveis, para vir a existir um outlet é uma piada de mau gosto ou muita audácia. Certamente, o resultado será colhido, pois a mídia que acreditou na promessa lembrará que ninguém faz milagre.

Entretanto, há apartamentos com péssimo acabamento, na zona sul, onde o comprador quer se livrar do “abacaxi” feito por construtora “estrangeira” (bem inferior às boas construtoras de BH) que prometeu na planta uma coisa e entregou outra, o que justifica não um desconto, mas pagar o preço que vale.

Kênio de Souza Pereira
Presidente da Comissão de Direito Imobiliário da OAB-MG
Diretor da Caixa Imobiliária – Rede Netimóveis
Consultor Jurídico do SECOVI-MG – Sindicato do Mercado Imobiliário de Minas Gerais Representante em MG da ABAMI – Associação Brasileira de Advogados do Mercado Imobiliário
Conselheiro e Consultor Jurídico da CMI-MG – Câmara de Mercado Imobiliário de MG
Árbitro da CAMINAS – Câmara Mineira de Arbitragem de MG
Presidente da Comissão de Direito Imobiliário da OAB-MG
Professor do MBA do Mercado Imobiliário da FEAD-MG
e-mail: keniopereira@caixaimobiliaria.com.br – tel. (31) 3225-5599.

 

  • Flávia Silva

    Muito esclarecedor o artigo, parabéns!
    Após a leitura do mesmo pude constatar a incoerência da Rossi em divulgar imóveis com “desconto” de até 100 mil reais. Impressionante a falta de respeito com o consumidor que não tem a oportunidade de ser bem informado sobre este desconto ilusório.