Ora direis, morar na areia

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Eustaquio02“Eu não tenho onde morar; é por isso que eu moro na areia…” Esse era o refrão de um samba que Dorival Caymmi compôs e que bombou num distante carnaval, lá na virada dos anos de 1950 para 1960. E se mostra bem que esse problema de moradia, no Brasil não é de hoje, mostra também que, em outros tempos, dava até pra fazer samba com as desgraças dos sem-teto. Parecia que não era tanto assim, a violência era menor, ninguém falava em tsunamis… Dormir na areia nos remetia, de certa forma, a dormir na praia, a ouvir o barulho manso das ondas, ao compasso de um dolentíssimo Caymmi: “O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito”.

Não é o caso de hoje. Pelo menos aqui em BH, que não tem nem mar. Aqui, é dormir na areia áspera que cobre imundas calçadas esburacadas, onde há riscos maiores do que tsunamis. Se não é um prédio ameaçando desabar, são os mauricinhos assassinos sempre prontos a atear fogo em quem se arrisca a dormir ao desalento. Sem falar na chuva e no frio. No cenário cada vez mais caótico das grandes cidades brasileiras, viver sem ter onde morar parece ser, de todos os dramas, o mais grave.

Para chegar ao trabalho, passo todos os dias numa rua chamada Cubatão, que começa na Cachoeirinha e vai até a Renascença. É uma rua tranquila, de casas simples, muitas árvores, e crianças jogando futebol (as traves do gol são garrafas pet e os ‘jogadores’ ficam furiosos quando o carro passa e interrompe o jogo!). Também tem um simpaticíssimo barzinho no centro de uma praça arborizada e, enfim, nada que nos lembre da Cubatão paulista, de triste memória. Pois bem, desde o ano passado, no primeiro quarteirão da Cubatão, onde ela faz esquina com a rua Cônego Santana, vive um casal de sem-teto. A moradia, se é que pode ser chamada assim, se resume a caixas de papelão abertas e encostadas em um muro, recobertas por um plástico preto. Passei por lá em uma tarde de dezembro, justo uma daquelas em que desabou sobre a cidade um temporal danado, que derrubou árvores, arrastou carros, barracos, abalou prédios e matou gente. O papelão e o plástico preto não resistiram, claro. Mas não vi o casal por lá. No dia seguinte, no entanto, lá estavam eles. O papelão, o plástico preto, a mulher (frequentemente sentada no meio-fio, fumando) e o marido, se oferecendo para limpar para-brisas, em troca de alguns centavos. Sorridente, educado, sem nunca se esquecer de dar bom-dia ou boa-tarde.

“Não sei como esses caras sobrevivem”, comenta o motorista do táxi.

Resolvi parar por lá, uma tarde dessas. Levar um papo com o cidadão. Ainda educado, mas desconfiado, não quis dar o nome. Nem da mulher. Achou que eu trabalhava na prefeitura. Contou que foi procurado pela Defesa Civil, mas se recusou a ir para o abrigo — “Não é bom; a gente não tem liberdade nenhuma lá”.

— Mas, e a chuva, não é pior? — perguntei.

Disse que era, mas que, com o tempo, acaba aprendendo a se virar — “Quando aperta mesmo, a gente escolhe uma marquise boa, toma umas pra espantar o frio e acaba que dá tudo certo”. Fui pra casa tentando idealizar uma “marquise boa”. E buscando imaginar como é que pode dar “tudo certo” sob temporais que não respeitam mais barrancos, muros de arrimo, carros, caminhões, casas e muito menos gente rica. “Deus dá o frio, conforme o cobertor”. Só pode ser.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Alexandre Kupidlowsky

    E esses moradores da Cubatão belo-horizontina também não precisam de coxinhas para sobreviver!