Onde estão as casas da Cidade Nova?

0
251

Relativamente novo, o bairro Cidade Nova se tornou pólo e referência da região nordeste de Belo Horizonte, uma das que mais crescem na capital. Não sem razão, cortado pela avenida Cristiano Machado, parte integrante da Linha Verde, o bairro experimentou súbita valorização imobiliária — que se estendeu aos bairros vizinhos — e vê, entre curioso e assustado, a transformação da paisagem humana.

— É um bairro privilegiado: tem um shopping, dois grandes supermercados, a feira dos produtores totalmente remodelada, três hotéis e pelo menos quase todas as agências dos grandes bancos — avalia Luiz Ricardo Jardim, executivo de uma concessionária de veículos da Cidade Nova.

As vantagens incluem ainda a relativa proximidade do centro da cidade, dos dois aeroportos e do futuro Centro de Convenções, mas isso não basta para que, aos olhos de alguns moradores mais antigos, algumas preocupações devam ser analisadas. Há tempos, casas e até prédios de três andares passaram a ser demolidos para dar a construções mais altas. E em alguns casos, mais luxuosas.

— Quase já não há casas na Cidade Nova — observa o aposentado Célio Ventura, um dos primeiros moradores do bairro, assustado com sua crescente verticalização.

Ruas tradicionais do bairro, como a Cardeal Stepinac, por exemplo, demonstram parte da preocupação de Ventura. Em menos de dois anos, a rua teve diversos prédios menores demolidos para dar lugar a edifícios bem maiores e mais luxuosos, o que vem interferindo radicalmente na paisagem do bairro. “Antigamente, eu andava pela rua e conhecia todo mundo; agora, não, é como se eu fosse alguém que veio de fora”, constata o aposentado.

O corretor Paulo Márcio de Souza pondera que esta é uma situação irreversível. Segundo Souza, o bairro estava “envelhecendo”. — Apesar de ser um bairro novo, tinha ar de velho, com prédios acanhados. Agora, não. A Cidade Nova, em alguns pontos, tem ares de Zona Sul.

Também moradora antiga do bairro, a professora Helena Serra discorda da visão do corretor, lembrando que nenhuma obra de infraestrutura vem sendo construída na região, onde a queda de energia, por exemplo, já não é tão incomum. “Tenho uma amiga que mora na rua Flor de Jequitibá, que fica na divisa da Cidade Nova com o bairro União e é um quarteirão só, mas em menos de oito anos, a rua ganhou mais de 12 prédios — e toda vez que chove, apaga a luz”, conta. Um morador da rua contabilizou que, nos oito anos citados acima, a população deste único quarteirão cresceu em mais de 300%. “E não foi só aqui”, observa o corretor Paulo Márcio, lembrando que em outros pontos da região houve também esse aumento populacional. Souza, no entanto, é otimista quanto à melhoria da infraestrutura no bairro.

A derrubada do imóvel — uma casa! — onde funcionava a Pizza Hutt é o mais novo sinal do avanço imobiliário sobre a Cidade Nova. No local da demolição, os dois “encarregados” informaram que não tinham autorização para falar do novo imóvel. “A não ser que vai ser bem grande”.