O que falta é vontade política

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O que falta é vontade política - Crônica por Eustáquio TrindadeA Rio + 20 tá parecendo um repeteco da Eco 92. Aterro do Flamengo em festa, os índios, muita falação, mas de onde mais se deveria esperar algum tipo de ação — o governo federal —, quase nada. “Falta vontade política”, disse a comentarista da televisão. Sempre faltou. Há coisas que parecem tão simples, que não dá pra entender porque não se resolvem. Na esteira desse frenesi ecológico que agita o Rio de Janeiro, vi que o governador daqui e alguns prefeitos da região metropolitana da Grande BH assinaram um acordo pra tentar resolver o problema do lixo. Aterros e coisa e tal. Não sei se é assim que tem que fazer. De que adianta ficar construindo aterro se a produção do lixo cresce em progressão geométrica? Não tem aterro que aguente.

Dona Sinhá, minha vizinha sábia, de 75 anos, que toma uma dose de cachaça todo dia e é torcedora fanática do América, me contou que ganhou um dinheirinho, recentemente.
— Joguei no burro, não deu outra.

Daí que resolveu renovar a casa. Geladeira nova, computador novo, com tela de led, imensa, última geração, pra ficar navegando o dia inteiro na internet. A geladeira velha foi passada para a faxineira do prédio, que veio pegar hoje de manhã, com uma carroça puxada — pasmem! — por um cavalo, que faz carreto. A geladeira vai ficar perto da churrasqueira que acabou de ser construída, porque na cozinha já tem uma novinha, de duas portas. Mas o computador velho, a faxineira não quis. Não gosta, não é nem um pouco chegada e, além disso, o filho tem um que também é novo e muito bom — “é desses que não precisam nem de tomada”. E criou um problema para dona Sinhá, que não sabe o que fazer com o computador velho, daqueles imensos, horroroso, ainda de tela verde.
— Diz que se a gente botar esse troço no lixo a polícia vem e prende…

Além do computador, o aparelho de telefone sem fio, também antigão, liquidificador e mais uma caixa de papelão atulhada de badulaques eletrônicos. Tudo recusado pela faxineira, emergente da famosa classe C, que também está renovando a moradia em prestações a perder de vista. O rapazinho que conduz a carroça puxada pelo Napoleão (o cavalo) topou se livrar do lixo.
— Vou tentar vender num ferro velho…

Sentada na escadaria do prédio, ouvindo rádio de pilha (pra não perder a resenha esportiva), lendo jornal, fumando e tomando café na canequinha esmaltada, dona Sinhá é pura indignação.
— Mas já não resolveu o problema do lixo? — pergunto. E ao mesmo tempo informo que uma simples ligação para a Superintendência de Limpeza Urbana poderia ter solucionado tudo e de forma bem mais prática, sem depender do Napoleão e seu corajoso condutor.
— Ah, mas tem lixo que não tem pra onde mandar — diz dona Sinhá, que todo dia também me pede emprestada a Folha de São Paulo. E aí me mostra a foto do Lula com Paulo Maluf, entre abraços.
— Ah, bom…

Danusa, a faxineira emergente, entra na conversa. A síndica chamou sua atenção para o excesso de gastos com sacos de lixo. Danusa diz que a culpa é das lojas, dos mercadinhos, dos restaurantes de comida a quilo e das pizzarias que, diariamente, depositam toneladas de panfletos na caixa de correio. Embalagens de alumínio, garrafas pet, latinhas de cerveja…
— O povo tá consumindo muito, hoje em dia.

Dona Sinhá tem netos adolescentes, que reciclam lixo direitinho. Mas não aprenderam isso na escola, aprenderam com a avó, que não desperdiça nem cinzas de cigarro, que usa como adubo para suas viçosas violetas. Conversa daqui, conversa dali, ela orienta Danusa a guardar o papel para depois repassar para um catador, que de vez em quando passa por aqui. As latinhas e as garrafas pet serão vendidas e o dinheiro vai para a caixinha do condomínio, para ajudar na compra de detergentes mais caros, mas que não degradam tanto o ambiente. Os moradores acharam ótimo, a síndica adorou. E dona Sinhá, desafiadora como sempre, me pergunta se precisa fazer convenção, chamar o Evo Morales e o Ahmadinejad para tomar medidas tão simples.
— O que falta é vontade política —, vaticina, fazendo coro à comentarista da televisão.

— Dona Sinhá, se a senhora fosse candidata, eu votava na senhora — entusiasma-se a faxineira. Mas, torcedora do América, fã de Fábio Júnior (o artilheiro), dona Sinhá não quer se candidatar. No momento, só pensa em fazer um bolo com trigo integral, passas e castanhas, para mandar de presente ao Givanildo, o bravo técnico de seu time do coração. Mas, esperta, vê que a moça do prédio vizinho, que diariamente passeia com seu poodle verde-limão, não limpou o cocô que o cachorrinho deixou de presente bem em frente à nossa portaria. Mais do que depressa, sem me pedir permissão, arranca uma página do jornal, chama a mocinha e manda limpar a sujeira, que vai parar bem em cima da foto dos dois políticos que “para o bem de São Paulo”, articularam a mais impensável parceria dos últimos tempos.

Dona Sinhá para presidente! Já!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.