O dia em que a terra parou

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Tiramos o atraso. O Brasil despertou. O Brasil mudou. O Brasil está em sintonia com o que acontece no mundo. Na Grécia, na Turquia, na França, na Espanha… A pátria mãe gentil acabou de mostrar, mais uma vez, que não descansa nem dorme mais passivamente em seu berço já nem tão esplêndido assim.

Eustaquio02Sinais desse despertar já estavam por aí há muito tempo. Palavras, gestos e ideias que ainda insistiam em pintar do povo brasileiro um retrato conformista e ingênuo caíram definitivamente por terra. Violência urbana, inflação, contas que ninguém nunca presta, desperdício do dinheiro público, impunidade elevada à potência máxima, abuso da força policial, repúdio e desconfiança total das intenções e da representatividade da classe política — das câmaras municipais dos menores municípios ao Congresso. Só quem não viu isso foram os políticos. Tanto que, na noite dessa inesquecível segunda-feira, sem saber o que fazer e o que dizer, insistiram no vazio de um discurso repleto de clichês, que já não pega mais.

Míseros R$ 0,20 foram o estopim. Mas que ninguém se engane. Não foi só por isso que, em São Paulo, no Rio, Brasília, Belo Horizonte ou Salvador, pessoas saíram às ruas para protestar. O que se viu foi um grito reprimido, há tempos preso na garganta, pedindo por melhores condições de vida, mais dignidade. Um grito que partiu principalmente dos jovens, que se viam cada vez mais sem perspectivas, diante de um país em que as instituições, ou já estavam totalmente falidas ou beiravam a falência. “Isso é uma prova da democracia”, disse a presidente. A mesma frase — quem diria! — saiu da boca da oposição tucana que, em um primeiro momento, tentou se aproveitar da crise para atacar o PT. Fazer política, pra eles, é sempre assim: botar os interesses partidários acima dos interesses do povo. Um erro atrás do outro. Quando interesses partidários falam mais alto e deixam o país em segundo plano, a práxis política se torna quase inviável. E o país para. Em vez de refletir sobre a riqueza do momento que vivemos — o despertar do país, enquanto nação — continuaram batendo na mesma tecla, só tentando tirar proveito da situação. Não perceberam que os tempos são outros, que os cordões que marcham hoje pelas ruas já não são mais tão conformados nem indecisos. E que as redes sociais se encarregaram de fazer com que a vida desse um passo à frente, deixando para trás uma forma antiga de fazer política. A bandeira oportunista de alguns pequenos partidos de esquerda bem que tentou, mas não adiantou, quando tentou arrebatar para si o germe do protesto — o povo não permitiu. No centro, na esquerda ou na direita, isso só mostra o discurso político já se revelou anacrônico, ineficiente, incapaz de sensibilizar gente que não tem mais paciência e que não quer saber de um Brasil como “país do futuro”. O futuro do Brasil é já; é agora.

Claro, não podemos, em momento algum, tolerar os atos de vandalismo e a infiltração traiçoeira de marginais que tentam esvaziar a legitimidade das manifestações populares. Os R$ 0,20 mais caros da história são injustos se, em um primeiro momento, analisarmos a qualidade do transporte público brasileiro, um dos piores do mundo. Mas tudo é parte de um mesmo processo, dinâmico e irreversível, que junta na mesma sequência a falência do ensino e dos serviços de saúde públicos. Ninguém aguenta saber que o país quer importar médicos de Portugal e de Cuba; ninguém aguenta mais obras que nunca terminam, que são superfaturadas e que nunca dão certo; ninguém aguenta mais o descaso com que cada reivindicação popular é tratada; ninguém aguenta mais vereador legislando em causa própria para aumentar salário; ninguém aguenta mais político que recebe salário faraônico, pago com o dinheiro dos nossos impostos, e quem nem comparece às sessões plenárias. Ninguém aguenta mais falar em PEC 37, que é a manobra mais ousada para se legitimar a impunidade da classe política. O Brasil mudou!

E que ninguém pense também que esta segunda-feira é página virada na história do País. Ela é só o ponto de partida de um momento tão histórico e rico quanto perigoso, pois exige uma discussão ampla, que deve envolver todos os segmentos da sociedade. Mas, muito mais do que isso, é uma carta aberta à classe política, para a necessidade urgente de rever conceitos e valores. Ou, então, que se prepare. Nem sempre, depois da tempestade, vem a bonança.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.