Ne me quitte pas

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“Todas as palavras dizem a verdade, a mentira, a crueldade… Mas, afinal, o que perturba e espanta é o drama das que nunca foram ditas, o drama das palavras pequenas e infinitas, que morrem sufocadas na garganta”.

Eustaquio02Esses versos são de Virgínia Victorino (1898-1967), poeta portuguesa que descobri há algum tempo. Mestra das palavras. Mas, à sua maneira, cada um de nós, qualquer um, também é. Heidegger dizia que a linguagem é a morada do ser, porque nós, seres, nos definimos pela linguagem. Por isso, a gente passa a vida se explicando. Talvez porque não exista a possibilidade de uma explicação completa. E se é assim, então, também não existe o absoluto e, não existindo o absoluto, também não há o tudo ou nada e muito menos aquela história de oito ou oitenta.

Aí, vem alguém e me lembra que vivemos hoje o “século da imagem”. Deve ser por isso que muita gente acredita mesmo que elas valem mais do que mil palavras. Foi aí também que, outro dia, ouvi uma conversa a respeito da saturação que as imagens podem provocar, principalmente se geradas pela publicidade. Alguém citava como exemplo, mais no sentido de se informar e de debater, que essas mulheres que aparecem em publicidades de cosméticos são todas iguais. Mesmo quando uma delas é uma deusa chamada Giselle Bundchen. Tive que concordar. É que há muitas Giselle Bundchen vendendo coisas na televisão. São tantas, que a gente já nem sabe mais o que ela está fazendo lá; ou se é ela mesma. Quem sabe não é uma simulação de Giselle, ou uma simulação da simulação? Outro dia, vi uma Giselle, recortada em papelão e em tamanho natural, na seção de cosméticos de um supermercado. Acho que essa Giselle tentava fazer com que eu acreditasse que usa a loção Pantene, que por sinal estava em promoção. Na verdade, Giselle nunca disse que usa — o que faz é só ficar balançando os cabelos pra lá e pra cá, enquanto alguém fala por ela. E falam tanta bobagem, que agora peguei também a mania de ver televisão sem áudio… E lá se vão as palavras. Fica só o vazio das imagens, que nunca pensei que pudessem, às vezes, ser tão inacreditavelmente vazias.

Imagens são legais, apesar de tudo. São o combustível que alimenta as ilusões. Hoje, todo mundo prefere ilusões à realidade. O pior é que, sempre que penso nisso, me passa também a ideia de que alguém está tentando me transformar em público alvo de alguma coisa. E me dá um medo danado pensar que não há nada a fazer para não me tornar alvo da vigilância de alguém.

Palavras, às vezes, chegam de onde não deveriam. De manhã, então, às dezenas. Das editoras, que querem me vender assinaturas de revistas e jornais, das operadoras de telefonia e de TV, do povo que vive pedindo donativo pra tudo. Gente cansativa, sem imaginação, que eu sei que é paga pra fazer isso, mas que me dá uma preguiça danada. São palavras forçadas, de uma cortesia falsa, que se desmorona com facilidade.

Volto a Virgínia Victorino. Às palavras que nunca foram ditas. Que palavras são essas? Brasileiros são um povo que fala muito. Às vezes, calorosamente, com os olhos, com os braços, com as mãos. Tive vizinhos japoneses que nunca deram a mão em cumprimento a ninguém. Pra não ter que tocar em estranhos, criaram aquela curvatura solene e respeitosa, mas tão distante que nem parece cumprimento. Já os brasileiros, não. Mal se conhecem e já partem para o abraço. Até pro beijo. Foi aqui que inventaram aquela história dos três beijinhos — “Mais um, pra casar” —, lembram-se? Minha poeta Virgínia fala das palavras pequenas. Das que nunca foram ditas. Mas, palavras também podem ser meio abstratas; nem sempre se materializam. Moram até mesmo em um gesto incompleto, desde que repleto de intenção. Ou no rápido esboço de um sorriso, no leve brilho de um olhar. Numa fria e cinzenta manhã de quarta-feira, contemplo a vida com alguma saudade. E penso em palavras que nunca disse e em como isso pode ser insuportavelmente doloroso, quando já não há mais a possibilidade de dizê-las. Foi aí que me lembrei de Jacques Brel.

“Eu te trarei pérolas de chuva, de países onde jamais chove”. Isso aí foi o Jacques Brel, no momento em que se eternizou.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Maria Cecilia

    Se é que é possível, seus textos estão cada vez me surpreendendo mais. São os melhores! Me expresso muito Com gestos,adoro abraços e beijo.. As palavras as vezes são codigos sociais que somos obrigados a dizer,mas se seguidas de um gesto verdadeiro, simbolizam um grande sentimento. Sou sua fã, a número 1.