Morar bem é…

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Morar bem é... - Crônica por Eustáquio TrindadeMorar bem é… Pesquisa de campo? Nada disso, só curiosidade mesmo. Vários amigos meus, entre misantropos infelizes e sociáveis nem tão felizes assim, me dão suas versões. Cabe a você, amigo leitor, escolher a sua ou criar novas normas para enriquecer ao receituário que se segue:
• Não ter vizinhos;
• Passar o dia na varanda da casa, de pijama, olhando o movimento da rua, enquanto resolve o enigma de palavras cruzadas;
• Ficar o dia inteiro no sofá da sala vendo televisão — começa no Bom Dia Minas e vai até a coruja colorida e seus equivalentes da madrugada;
• Não ouvir choro de menino, telefone (principalmente quando as ligações são para vender coisas — “Seu crédito foi pré-aprovado!”); interfone; liquidificador do vizinho batucando às sete da manhã;
• Ter uma cobertura maravilhosa, boa pra desfrutar mesmo em dias de chuva;
• Não ter uma cobertura maravilhosa, mas uma casa onde tudo tem a sua cara — da almofada cor de abóbora sobre o tapete azul real lavável ao quadro de São Jorge na parede — e você sinta um puta orgulho disso;
• Ter vizinhos legais, mesmo que, às vezes, eles toquem sua campainha cinco, seis, sete… dez vezes por dia, seja pra pedir uma cebola emprestada ou só perguntar se você viu o capítulo de ontem da novela das nove;
• Não ter vizinhos bem informados, que contam as últimas sobre a divorciada do quinto andar, que agora deu pra subir com rapazes pro apartamento (“Cada dia é um rapaz diferente”), sabendo que, por mais discreta que seja sua vida, ela poderá ser o assunto do dia entre esse vizinho e aquele do andar de baixo, que você nem conhece;
• Ter vizinhos que não roubam seu jornal nem no dia em que sai pôster do Galo com faixa de campeão;
• Ter vizinho que não pede pra ocupar sua vaga na garagem no dia da visita da sogra dele;
• Ter, a dois passos de sua casa, um sacolão maravilhoso, com frutas e legumes da hora, fresquinhos, maravilhosos e com preços mais maravilhosos ainda. E que fique no mesmo quarteirão da padaria, do supermercado e da farmácia;
• Voltar pra casa sentindo uma felicidade boba, que vem dessas coisas simples, mas que são capazes de tornar nosso dia mais suportável. Como a gentileza sem tamanho do pessoal da farmácia do lado, que já te chama pelo nome e oferece água e até café, em retribuição ao “bom dia” que você faz questão de dar;
• Ter vizinhos prestativos, discretos, mas bons para dividir um bom vinho e um espaguete ao gorgonzola, num fim de semana, ouvindo um disco de fados e comentando sobre a influência árabe na música mediterrânea;
• Respirar aliviado quando chegar a notícia de que a vizinha chata, com cara de psicopata, que mora no andar de baixo, passou num concurso público para ser delegada de polícia e se mudou pro Acre, a dez metros da fronteira com a Bolívia;
• Checar a correspondência, sacar que ninguém mexeu em nada e que suas contas estão em dia. Mesmo a droga do IPTU, altíssimo, que não leva em conta que você mora a três quarteirões da Avenida Cristiano Machado, que já está no livro do Instituto Guinness, alçada à pole position na categoria “a avenida mais infernal do planeta”;
• Mesmo a contragosto, achar que, de alguma forma, ainda é possível ser bom viver num canteiro de obras (quero dizer, em Belo Horizonte);
• Sentir uma alegria danada ao saber que, por fim, notificaram o casal do sexto andar do prédio ao lado, que vive atrás das persianas olhando o povo trocar de roupa;
• Ser amigo de dona Sinhá, vizinha aposentada, que se ri o tempo todo, apesar do salário apertado e dá notícias úteis sobre tudo o que rola de importante em seu bairro (“Olha, corre lá que o filé de merluza do EPA está em promoção”);
• Ficar de bem com a rapaziada do andar de cima, que baixou o volume e não toca mais o Iron Maiden às duas da madrugada;
• Mesmo achando que seu apartamento não é nenhuma Brastemp, ficar feliz em voltar pra casa toda noite, sentindo aquele clima que só a casa da gente é que tem;
• Não morar em andares muito altos, pra poder gritar com toda força para aquela dona da rua de baixo, aquela sem educação, que traz o cachorro dela pra fazer cocô na sua calçada (“Vou te denunciar na PBH”);
• Mesmo sabendo que isso não é nada correto, politicamente, dar toda razão à vizinha que assiste o cachorro fazer sujeira e grita: “Se eu pudesse, eu matava esse poodle!”;
Essa lista, colhida aleatória e displicentemente, teria e terá outros acréscimos bem mais interessantes e cada um deles bem próprio e revestido de observações muito pessoais, o que deixo a cargo de cada um que me lê aqui. Levarei todas em consideração. Talvez nem tanto como as de dona Sinhá, minha sábia vizinha aposentada e que vive irradiando felicidade.
— “Não peço satisfações a ninguém; mas também não dou nenhuma”. Falou e disse.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Jorge

    Morar bem é andar pelado pela casa sem ninhuém pra encher o saco.

  • Divino Advincula

    Caro Eustáquio. Nestes comentários destilados no seu texto, sou mais alvo que desejo. Assim, morar bem, para mim e ao meu gosto, é desejar que todos os vizinhos não se incomodem comigo. Impossível na prática e possível nas letras e fantasias. Valeu sua genial abordagem, ao menos somos felizes neste espaço construído por você, um pouquinho. O bastante para sonhar vez ou outra!

  • Sônia Araújo Nogueira

    Morar bem é:

    Morar em casa, mas se não for possível, que as paredes do apartamento tenham isolamento acústico. Vizinhos que cuidem cada um da sua vida. Harmonia no lar e entre os vizinhos. Área com plantas. Festas de confraternização entre os vizinhos, por hora é isso.