Minha casa dos espíritos

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Eustaquio02Casa dos Espíritos. Criado em família religiosa, acho que o Cristo crucificado foi o primeiro morto de que tive notícia. Depois, uma vizinha, que morava na mesma rua. Mas, dessa, pelo zelo excessivo de minha mãe, não pudemos nem ver a saída do caixão, como se assim, de alguma forma, nos preservássemos. E assim foi, durante muito tempo. Então, cresci a uma distância que pensava segura da morte. Às vezes, até acreditando que certas pessoas jamais morreriam — amigos, pai, mãe, irmãos. De vez em quando, no entanto, me pegava pensando em como seria esse dia, em como seria viver um dia ansiando que as horas corressem aos saltos e que o tempo voasse, a fim de estabelecer dentro de mim algum tipo de calma para poder, enfim, controlar um sofrimento que eu já antecipava. Vieram esses dias e, como filho ou irmão, sem poder contar com a ajuda do tempo, tive eu mesmo que buscar a calma necessária para lidar tanto com a dor quanto outras providências ainda mais insuportáveis que cercam a insensível burocracia do ato de viver. Se esses dias me trouxeram muitas dúvidas, também me deixaram algumas certezas.

A primeira, talvez, foi que observar o sofrimento de outras pessoas, às vezes, nos alivia. O sofrimento nos torna solidários, porque percebemos que não somos os únicos. Então, é como se, de repente, por meio de uma série de reações, notamos que não estamos sozinhos no mundo. É quando os pequenos gestos do dia a dia, que podem ser um aceno, um olhar, um sorriso tímido ou até mesmo um silêncio, nos ligam mais fortemente a essa estranha corrente que move a vida, e da qual temos que fazer parte. Então, não queremos mais que o tempo voe. Em vez disso, queremos fazer dele um aliado, porque, por mais triste que seja qualquer perda, ninguém vai conseguir tirar de nós o tesouro de tantas recordações vividas juntos. De tantas lembranças — boas ou más —, das quais nos riremos ou choraremos depois, em pequenos acessos de remorso ou de saudade, a lamentar que as horas tenham passado tão depressa.

A complexidade desses momentos, paradoxalmente tão cheios de simplicidade, é infinita. De repente, descobrimos que nunca mais ouviremos aquele riso; que não compartilharemos aquela velha canção ou a paisagem que se abre diante de nossa janela num fim de tarde. É uma certeza dura, que depois se transforma numa espécie de mágoa, doce e profunda, que vem e se aninha no fundo do coração, pronta a nos confortar. O coração vira essa caixinha de recordações — versos, cartas, pétalas, sons, cheiros, retratos. Mais velhos vamos ficando, mais cheia vai ficando a caixinha. É possível que, num primeiro momento, isso tenha o significado de uma dor sem tamanho, mas na verdade, pode ser muito bem o contrário. É um tesouro que nos pertence e que está o tempo todo ao nosso alcance. Para visitá-lo, basta fechar os olhos e fingir que não estamos aqui. Aí, passearemos felizes pelas praças do Rio, pelas ruas da Floresta, pelas ladeiras de Ouro Preto, pelas fiestas de Monterrey. Navegaremos em mar de Espanha sem pedágio, sem fiscais, guiados apenas por essa eterna força que nos instiga a prosseguir na vida, apesar de tudo.

A mim, o tempo ensinou e vem ensinando quase tudo. Cada dia, uma nova lição. Sofrer, chorar, rir… Tudo isso é parte de um mesmo processo, o de viver. Talvez, por isso, eu hoje rejeite tanto a ideia de ficar infeliz por qualquer coisa. Em respeito à vida, ao tempo, aos outros e a mim mesmo. Sei que minha caixa de lembranças, a cada dia, se torna mais pesada. Mas não penso nisso como um fardo. São riquezas. São a descrição do que de mais humano vive em mim. Bateu saudade? Abre um vinho tinto, põe um disco do Bola de Nieve e chore até não poder mais. Mas não deixe de atender ao telefone nem diga não ao amigo que te chama para tomar mais uma num bar do Maletta. O tempo não para!

Pra Ruth e Regina Lúcia.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Milton Carlos

    Como sempre vc arrassa!!!
    É isso ai meu meu irmão, e a jornada prossegue no aprendizado!!!

  • Me fez chorar… Esse trecho diz tudo: “A mim, o tempo ensinou e vem ensinando quase tudo. Cada dia, uma nova lição. Sofrer, chorar, rir… Tudo isso é parte de um mesmo processo, o de viver. Talvez, por isso, eu hoje rejeite tanto a ideia de ficar infeliz por qualquer coisa.”
    bjo e saudade, Tio Eustáquio!

  • Maria Cecília

    Texto espetacular, maravilhoso!! Não poderia ler esse texto em melhor hora, e indicá-lo para minha mãe. Suas palavras são um conforto para aqueles, que como eu, ainda não sabem como ouvir Tim Maia, mas seguiram trabalhando e levando um dia de cada vez. Não vou dizer que as vezes não dá vontade de chorar e largar tudo já que aquela pessoa tão especial não está aqui para compartilhar nossa vitória, mas ai me lembro de quantas outras pessoas, anjos (família) que Deus colocou no meu caminho para ajudar superar qualquer momento. É uma honra compartilhar minha vida com você!!
    P.S adorei a parte de ouvir Bola de Nieve ; – )

  • Emanuelle de Paula

    Sincero e profundo. Gostei muito. 🙂

  • Maria Luisa

    Você traduziu o que eu sinto. Me permito sentir tristeza, mas só quando é necessário. A saudade nem sempre tem que ser triste. As vezes uma lembrança serve pra nos alegrar nos momentos dificeis. Como você disse: Repeito à vida…