Malas sem alça mandam mala direta

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Malas sem alça mandam mala direta - Crônica por Eustáquio TrindadeEm todas as mesas, todas as rodas, as eleições de domingo são o tema dominante. Deu pra ver como o PT sujou a barra do Patrus. Mil pessoas falando — “só não voto no Patrus por causa do PT”. Fui petista de primeira hora. Nunca me filiei, mas fiz campanha, fui a todos os comícios, trabalhei em barraquinha, fui militante. Hoje não me considero nada em termos de partido. Acho que deveríamos ter no máximo uns quatro. Não acredito que a lógica das coisas seja assim tão diferente que as pessoas necessitem de tantos partidos para expor pontos de vista. Parto de uma lógica simples e simplista: tem gente ruim e tem gente boa em quase todos os partidos. Tenho falado muito do Patrus, porque sempre tive dele a impressão de um homem honesto. Um homem bom, uma pessoa do bem. Imagem que me passam também as duas candidatas, Vanessa e Maria da Consolação. Que a Marina Silva sempre me passou. Sobral Pinto, Dídimo de Paiva, Dona Sinhá.

O que acho mais chato de tudo é quando começam a misturar as coisas. Minha empregada, por exemplo, tinha um candidato a vereador que, na verdade, não era seu candidato.

— Então, por que você vai votar nele?

— Foi o pastor que mandou.

O candidato é também pastor. Uma pessoa que não tem a menor vergonha de pegar o dinheiro de uma mulher pobre e que luta com dificuldades. A renda mensal dela não chega a quatro salários mínimos, mas ela deixa metade nas mãos desse pastor e sua igreja. O mesmo pastor que, ontem de manhã, tocou o interfone aqui de casa, pra pedir voto. Fui criado na religião católica, mas nunca tive preconceito contra religião alguma. Só que, ao ouvir a voz cínica desse charlatão, me vi tomado de uma fúria quase fundamentalista e, por pouco, não mandei o safadinho pra aquele lugar. Mas, não. Respirei fundo, falei que não votava aqui e me livrei da peste. Da janela, fiquei olhando o desgraçado. Terno de microfibra azul marinho, gravata vermelha, dez litros de gel no cabelo e um perfume que chegava até o terceiro andar. Não sei se conseguiu votos aqui na rua.

Não foi o único que passou por aqui. Passaram dois delegados, um tenente, um cabo, uma cabeleireira, duas professoras (essas, com discurso simples, muito sincero, pelo que pude perceber) e a Teka, que tem sobrinho que vende DVD pirata. Teka, pelo que pude saber, já não é mais candidata e agora apoia o pastor…

Sem paciência, desço até a portaria para ver o cortejo. Dona Sinhá, com a canequinha de cachaça na mão, sentada nos degraus da entrada, é pura indignação. Já passou dos 70, o que a desobriga do voto, mas diz que não perde uma eleição (uma vez ela me falou que tinha 76, depois baixou pra 72…). Está furiosa com a Telemig.

— Mas a Telemig não existe mais.

— Não? Então é essa outra. Vou processar. Tem um pastor que tá ligando lá pra casa de meia em meia hora, pra pedir voto. Até na hora da novela! Quem que deu meu telefone pra ele? Só pode ter sido a Telemig… Ou essa outra que tem aí.

Entra em cena o Gustavo, o neto dela de 19 anos, que faz estágio em telemarketing e tenta explicar para a avó como os mailings (ele teve que explicar três vezes o que isso quer dizer) são vendidos livremente, sem que possamos esboçar qualquer reação. Eu, por exemplo, além de receber telefonemas (até do Márcio Lacerda), recebi malas diretas de uns mala sem alça que conseguiram meu endereço só Deus sabe como. Dona Sinhá também recebeu. Mas soube dar à papelada um uso digno.

— Tô forrando o cantinho onde o gato faz xixi!

E ali ficamos a observar o cortejo de vereadores. Dona Sinhá disse que se alguém voltar a telefonar pra ela, vai chamar o “Cidadão Éder”.

— Ele é candidato também?

— Não, é um cidadão que fica na TV Alterosa, ameaçando a bandidagem. Isso que estão fazendo com a gente é uma bandidagem.
Soubemos pela faxineira do prédio vizinho, que o pastor de terno de microfibra está prometendo “graças e bênçãos” a quem votar nele. Todas as faxineiras ganharam santinhos fedendo a perfume barato. O cheiro de gente que não presta, segundo minha tia argentina, tia Camélia, cientista política de mão cheia!

— Tem gente que é assim. Pode tomar dez banhos, vestir o terno mais bonito e se encharcar de perfume que não consegue disfarçar a vulgaridade.

Olfatos apurados ao máximo, encaremos nesse domingo, com a melhor de nossas intenções, a tarefa de eleger o prefeito e uma câmara municipal que não nos envergonhe tanto. Sem votos nulos ou brancos, que quem vota assim não tem nenhum direito de reclamar depois.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.