Luta de classes e a moradia

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"Luta de classes e a moradia" Crônica por Eustáquio TrindadeElisângela chegou em casa aos prantos. Não quis contar o porquê do chororô. Trancou-se no quarto, chutou as paredes, jogou um punhado de coisa no chão, gritou que queria morrer e que tinha ódio dessa vida. Só resolveu abrir a porta quando a mãe, em pânico, ameaçou chamar o pai.

— Abre o bico e conta logo o que aconteceu.

O retrato de uma mãe preocupada. Como toda mãe de classe média, a de Elisângela, hoje, trabalha fora. É gerente de uma loja de roupas femininas, muito chique, no Barro Preto — “Tem uma cliente que é amicíssima da Paula Fernandes e conhece o Michel Telló pessoalmente”. Sem tempo pra nada, cozinha o feijão à noite, pra durar três dias, e faz um panelaço de arroz pra durar a semana inteira. Mas isso, até que sem muito esforço, como reconhece intimamente, graças à panela de pressão nova, com equipamento digital, que permite controlar temperatura e até o tempero… E graças também ao forno de microondas, que simplifica tanto o trabalho. E o novo conjunto de refratários com revestimento em porcelana galvanizada, que impede a aderência da gordura e ainda vai direto do forno para a mesa, e dali para a lava-louça? O que seria das mães da classe média se não fosse o acesso a essa parafernália?

Sem eles, a vida seria uma trabalheira… Mas, se bem que nem tanto assim. Tudo graças aos processadores novos, que ralavam, picavam, fatiavam e faziam legumes julienne, tal e qual passou no programa da Ana Maria Braga; ao liquidificador de potência máxima, ao conjunto de tupperwares japoneses que permitiam armazenar o máximo, aproveitando assim todo o imenso espaço da nova geladeira, de um cinza metálico com metais cromados, ainda mais linda do que aparecia no anúncio e que desobrigava, finalmente, daquela chatice de ter que desligar o refrigerador todo fim de semana, pra descongelar…

Ah, os fins de semana. Sábado agora também era dia de descanso e garantia de bons momentos para uma cervejinha, quando o marido assumia o comando e pilotava um grill George Foreman que transformava a picanha (argentina, maturada, por certo!) num manjar digno dos deuses. Para acompanhar, batas fritas num fritadeira eletrônica monitorada pelo controle remoto! Longe os tempos em que cozinhar, enquanto punha uns panos pra lavar, era um suplício… Agora já dava tempo até pra ler “Alzira morta virgem”, “Fragmentos de uma paixão” ou “Alan, o cigano que veio de longe” romances recomendados por sua supervisora.

Mas há temores que não há George Foreman que resolva. Mães da classe média ainda têm que desdobrar fibra por fibra o coração dos filhos. Temores de o rapaz contar que está fumando maconha, da filha adolescente aparecer grávida, ou confessar que anexaram uma foto dela, pelada, na internet…

Bom, mas pra que ficar reclamando tanto da vida? Era bom quando moravam naquele barracão do Ribeiro de Abreu? Não. Lógico que não. Hoje, morar na Renascença, bairro bom, mais perto do centro, em casa de dois andares, a dois quarteirões da rua Jacuí, com garagem com vagas para dois carros… Quem quer se lembrar do Ribeiro de Abreu? Tá certo que é casa geminada, mas é de dois andares, com uma escada em forma de caracol (a mãe imagina Elisângela, de branco e rosa, descendo pela escada na festa de seus 15 anos). Na parte de baixo tem sala de visita, de ver TV, copa, cozinha, um banheiro e um quarto para o Wesley, o filho mais velho. Sem falar na área de serviço, totalmente cimentada, com churrasqueira de tijolinhos, um quartinho só para a superlavadora (que seca a roupa também)… No segundo andar, quartos separados para o casal e para cada uma das duas meninas, Elisângela e Tatianne Aparecida. Gerenciar tudo isso e ainda ter que acompanhar a vida dos filhos não é pra qualquer uma, mas é mil vezes melhor que o barracão de dois quartos, onde dormia todo mundo amontoado. A televisão da sala, de 52 polegadas, por exemplo, nem passaria pela porta do barracão…

Mas, por que é que a Elisângela tanto chora, se não está grávida nem apareceu pelada na internet?

— Uma menina da minha sala, irmã da Miss Belo Horizonte, me chamou de classe C…

A mãe e o pai foram tirar satisfação com a diretora. Como é que pode acontecer uma coisa dessas num colégio religioso respeitadíssimo, com mensalidades caríssimas, a poucos quarteirões do centro? A seu modo, a diretora tentou ser compreensiva e, digamos, didática. Que esse negócio de classe C é relativo. É bom e não é. É bom, por que está movimentando a economia do país, consumindo, fazendo o dinheiro girar: “o Brasil de hoje é o Brasil que é por causa da classe C”.

— Vocês devem se orgulhar de ser classe C.

O pai e a mãe da Elisângela voltaram pra casa sem ter muita certeza disso, mas foi só entrar no carro, o JAC amarelinho, com garantia de não sei quantos anos, quando pai viu, pelo retrovisor, a diretora em pé, diante de um ponto de ônibus, que as dúvidas rapidamente se dissiparam. “Meu bem”, disse o pai, “a diretora anda de ônibus; a gente tem que dar o desconto pra esse pessoal da classe D”.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.