Lance um olhar sobre Belo Horizonte

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Dia 12 de dezembro, Belo Horizonte completa 116 anos. Os processos sociais vivenciados pela cidade durante todos esses anos, muitas vezes, são perceptíveis na arquitetura. Os desejos, as ânsias e o ideal de mundo do homem belorizontino são traduzidos através dos caminhos desenhados pela produção arquitetônica.

Estela-NettoNa década de 30, em visita ao Brasil, o antropólogo Lévi-Strauss se impressiona com a rapidez que as cidades americanas se transformam, negando o passado. Havia uma espécie de falta de “vestígio” do passar do tempo, já que as cidades se destruíam e se reconstruíam em busca de uma modernidade. O tempo e a convivência harmônica e enriquecedora entre o antigo e o novo não eram uma conquista, uma espécie de “promoção”, como se encarava na Europa, mas uma demonstração de envelhecimento e decadência.

Passaram-se muitos anos desde as constatações de Lévi-Strauss, mas será que perdemos esta ânsia pela modernidade? Valorizamos nosso passado e o queremos vivo no cotidiano da cidade? Como temos tratado os nossos “vestígios” históricos? Certamente as respostas para tais questionamentos não demonstrarão que nossa postura com relação ao passado e à história se modificou muito. As casas antigas, quando não tombadas, acabam fadadas à destruição a fim de ceder lugar a um grande e reluzente prédio de mármore, ou a ter sua fachada absolutamente escondida atrás de elementos arquitetônicos e decorativistas que lhe confiram uma “cara” nova, contemporânea. É lamentável que ainda não tenhamos nos dado conta do quão absurda e superficial é uma sociedade que renega sua história em função de tendências alheias a sua verdadeira identidade.

Ainda que este texto lhes possa parecer acometido por uma espécie de pessimismo, o que não seria de todo falso, venho chamar-lhes a atenção ao trabalho que alguns arquitetos estão fazendo, estes sim com uma postura contemporânea, em casas antigas da cidade. O grande desafio está em adaptá-las a novos usos, novas maneiras de pensar o espaço e se apropriar dele, deixando sinais históricos que certamente contribuirão de muitas formas, inclusive do ponto de vista estético do projeto.

Lancemos nosso olhar a Belo Horizonte a fim de descobrirmos nossa história, nosso passado para compreendermos quem somos hoje. As marcas que o tempo faz no homem e nas cidades não devem ser escondidas, mas absorvidas e incorporadas na prática cotidiana. Desfrutemos das edificações antigas que, ao se apresentarem à cidade, parecem nos incitar memórias e sentimentos de outras épocas e colaborar com a construção do imaginário coletivo sobre a cidade.

CCBB BHO Centro Cultural Banco Brasil, assim como dos demais edifícios que compõe o Circuito Cultural Praça da Liberdade, é um excelente exemplo de arquitetura que conta a história de Belo Horizonte e, ao mesmo tempo, propõe um novo uso

Estela Netto é arquiteta formada pela PUC Minas, especialista em História da Cultura e da Arte. Atua no mercado de arquitetura e design com projetos residenciais e comerciais.
Estela Netto Arquitetura & Design
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