Joaquim Barbosa, do gol à ponta esquerda

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"Joaquim Barbosa, do gol à ponta esquerda" Crônica por Eustáquio TrindadeEsta foi, o dia inteiro, a pergunta que não quis calar: “O Zé Dirceu vai mesmo para a cadeia?” — As respostas, ora revelavam a mais absoluta descrença; ora se apegavam a um fio de esperança quanto à possibilidade de, enfim, começarmos a punir com a cadeia esse tipo de crime, o do colarinho mais ou menos branco. Uma punição dessas vai ao encontro de tudo o que o país espera para se ver livre de uma imagem que os brasileiros fazem tristemente de si mesmos, a de que somos um país sem lei e que a corrupção entre nós é endêmica. Que não tem nem jamais terá cura.

A dona do Banco Rural, Zé Dirceu, Genoíno, Delúbio… “Só figurão”, me lembra um aluno, que afirma estar “doido para ver esses caras atrás das grades”. Também quero, mas não porque são figurões ou porque sejam ricos, mas só pelo fato mesmo de serem criminosos. Infringiram a lei, têm que pagar. Zé Dirceu e sua turma disputaram o espaço nobre da mídia com o artilheiro Fred, do Fluminense, que deu a volta por cima e, depois de voltar desacreditado de sua temporada europeia, se firmou no Fluminense como um jogador do qual a seleção brasileira não poderá prescindir.

Vi, ontem, em frente à vitrine de uma loja, algumas pessoas assistindo o noticiário da TV, numa daquelas gigantescas telas modernas, de led, com altíssima definição. “É HD plus” — ou seja, é mais que HD, me informa um vendedor que se aproximou da porta para apreciar a moçada e, de repente, não sei por que, cismou que eu tinha cara de comprador de um aparelho de TV que custa quatro mil reais. O Fred estava no noticiário. Um torcedor do Cruzeiro queria matar os Perrela por terem vendido o jogador; outro espectador, americano, lembrou que foi lá que tudo começou… E mais um torcedor, atleticano, sonhou com o Fred no time do Galo: “Já pensou? O Ronaldinho Gaúcho lançando pra ele?”. Amistosamente, os três concordaram que o Fred era, enfim, caro demais para os atuais sonhos das equipes mineiras.

Eis que, de repente, Fred dá lugar a Zé Dirceu e sua turma. Os torcedores permaneceram firmes na geral do calçadão. Um chamou o Zé de safado; o outro, de filho da puta; o terceiro, de veado. Uma mulher, tipo de dona de casa severa, batalhadora, chamou de “cachorro sem vergonha” e desencadeou uma cascata de impropérios que assustou o vendedor. Pensei que ele fosse entrar e mudar de canal, mas não, ficou ali, divertido, em companhia de mais um que veio lá de dentro da loja. “Rapaz, esse desgraçado desse Zé Dirceu tá vendendo mais televisão do que o Fred”.

— Como é que é? — perguntei.

Um dos rapazes contou que duas pessoas já haviam comprado a tal televisão de quatro mil, só naquela manhã. Coincidentemente, as duas entraram em momentos em que os aparelhos estavam sintonizados em canais diferentes, mas mostravam telejornais e, claro, falavam do mensalão. A primeira compradora foi uma mulher, “meio coroa, com jeitão de professora”, me informa um dos vendedores.

— Disse que queria ver o Zé Dirceu indo pra cadeia em imagem de alta definição.

— E o outro comprador?

Disseram que era um “torcedor”, mas não sabiam de qualquer time. “Deve ser do Galo, porque disse que estava desencantado com o futebol, mas gostava de noticiário e ficou aqui assistindo até o telejornal terminar”. Lá fora, na geral, todos de olhos grudados no belo aparelho de TV da vitrine. À mulher que chamou o Zé Dirceu de cachorro sem vergonha se juntaram mais duas, que também não se fizeram de rogadas. Em comum, expressões indignadas, olhares severos acompanhando o noticiário. “Se eu pego esse Dirceu, eu acabo com ele”, ameaçou uma delas, a mais idosa, já com jeitinho de avó… Dois senhores engravatados, ternos bem cortados, ligeiramente à distância, acompanham o noticiário — ah, a democracia do calçadão —, curtindo também a reação do povão. Um deles, à meia voz, disse que tudo vai acabar em pizza.

— Vão ter coragem de botar a Kátia na cadeia?

Ainda bem que ninguém ouviu, pois quem entrou em cena, aplaudido — pasmem! —pela geral, foi o ministro Joaquim Barbosa, garantindo que ninguém terá direito a prisão especial. O Brasil da geral do calçadão, que, mesmo com o avanço consumista da famosa classe C ainda tem dificuldades para comprar a TV HD plus de quatro mil, se identificava naquele momento com a fenomenal figura do negro retinto que, do outro lado da vitrine, dentro da magnífica tela de led, falava do que até então parecia impensável para nós: que aqui também a justiça é possível.

— Tarda, mas não falha — disse a mulher com jeito de avó, feliz e sorridente com a imediata concordância das outras duas.

— O Obama tem que conhecer esse cara — disse o atleticano, magnetizado pela figura do ministro.

— Eu votava nele pra presidente — garantia o torcedor cruzeirense, o único que permaneceu no calçadão, depois que o bloco do mensalão terminou dentro do telejornal. Foi também o único que ouviu o anúncio da morte do esquecido atacante Alex Alves, que sofria de leucemia e jogou algum tempo no Cruzeiro.

— Era bom jogador? — perguntei.

— Meio polêmico, mas era bom jogador. Não tanto quanto o Fred, mas era bom assim mesmo… Agora, foda mesmo é esse negão, não é não?

Com certeza. Do gol à ponta esquerda, o ministro Joaquim Barbosa, com o perdão do Fred e do Alex Alves (que descanse em paz), sua excelência tá batendo um bolão pra ninguém botar defeito.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Marcelo

    As preocupações atuais do povo…