Japoneses à beira de um ataque de nervos

0
477

Isso é parte de uma pequena história que ouvi na semana passada. Fernando, filho de um amigo meu, toca parte do negócio da família, um misto de pub, bar, restaurante, cervejaria e delikatessen na nova região hoteleira da cidade, na avenida Alberto Cintra, nas imediações do Minas Shopping.

Eustaquio02— Apareceram dois japoneses por lá. Acho que vieram do Ouro Minas Hotel. Não falavam uma palavra de português, nada de espanhol. Falavam inglês, mas lá no restaurante ninguém falava. Mostramos o cardápio pra eles, pra ver se eles sacavam alguma coisa e… Nada! Aí, no desespero, levei os dois até à cozinha e mostrei que estávamos fazendo. Eles olharam, olharam e, na sequência, zarparam.

Já vi e ouvi coisa parecida em diversos points da cidade. Ouvi dizer que os motoristas de táxi receberiam lições de inglês e espanhol básicos, e até de boas maneiras, tudo em função da proximidade da Copa do Mundo. Nada contra as pessoas receberem lições de idiomas, de urbanidade, de boas maneiras. Mas tem que ser só por causa da Copa? Há dias, no Baby Beef, que fica no centro da região hoteleira, vi que há vários garçons estrangeiros na casa. Claro, por causa da Copa, para atender eventuais clientes vindos de países de cultura hispânica. Um dos garçons era uruguaio e me atendeu falando espanhol, porque achou que eu tinha jeito de argentino… Lá fora, vi muita gente elogiando. “Como são educados”! De repente, todo mundo se sentindo melhor por frequentar restaurantes onde há garçons estrangeiros e onde os cardápios agora começam a ter versão bilíngue. Ou tri, ou poli, ou penta, pra ficar bem em ritmo de Copa do Mundo.

Outro amigo — esse, um dos proprietários de um restaurante de Santa Tereza — me disse que não vai mudar nada no cardápio: “Vai ficar do jeito que está”. Faz sentido. Quando sediaram a Copa do Mundo, os japoneses criaram cardápios em português para receber e facilitar a vida dos turistas brasileiros? “Não, por isso eu quase morri de fome”, me conta um amigo meu, Pedro Ivo de Mello, arquiteto e judoca, que assistiu os jogos tanto na Coréia do Sul quanto no Japão.

— Não criaram cardápios a não ser em inglês nem fizeram o menor esforço para facilitar a vida de ninguém: é pura lenda achar que todo mundo no Japão fala inglês. Por isso, o jeito foi se virar nas McDonalds ou nas pizzarias, onde a gente identificava a pizza na fotografia estampada no cardápio e apontava pros garçons. Mesmo assim, havia o risco de, em vez de uma pizza de peperone, acabar pegando uma de filé defumado de baleia.

Casos assim são bons para nos ajudar a esclarecer dúvidas. Já reparei, desde quando comecei a fazer jornalismo, que nós, brasileiros, temos essa mania de querer fazer de tudo para agradar quem vem de fora. Outro dia mesmo, o pateta do Sylvester Stallone, um dos atores mais medíocres dos Estados Unidos, não ironizou num jornal de lá que, aqui (ele se referia ao Brasil), “você pode xingar os caras de tudo enquanto é jeito que eles ainda sorriem e agradecem”?

Ter conhecimentos de inglês, hoje, é mais do que necessário. É obrigatório. Mas, de árabe, de japonês, de turco, de grego, de tailandês, de coreano, de russo, de dinamarquês, de sueco, de polonês, de finlandês e de… Como é que se chama mesmo o idioma do Taiti? E se o Alex Atala sortear o Azerbaijão para Belo Horizonte? Teremos que ter cardápios em azerbainjanês?

Bem ao lado da cervejaria do meu jovem amigo Fernando, há uma casa da comida japonesa. Se estavam com tanta fome assim, por que os japoneses não entraram lá? Isso me leva a pensar se esses caras estavam ou não a fim de outra coisa. Na dúvida, poderiam ter se informado melhor no próprio hotel, onde deve haver intérpretes para socorrer famintos hóspedes estrangeiros à beira de um ataque de nervos. Lá, com toda certeza, ficariam sabendo que, no afã de agradar a gregos e baianos, as garotas de programa de Beagá também estão fazendo cursos de inglês, para ter o “I Love You” ou um eventual “Yeah, Baby!” na ponta da língua. Com elas, garanto, japonês nenhum vai passar fome.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de Jornalismo.