JANELA INDISCRETA

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Tenho um casal de amigos que mora no centro da cidade, rua da Bahia. Nunca pensei em morar no centro, mas o apartamento deles é legal. Amplo, janelas bem grandes e, como fica no oitavo andar, o barulho da rua não chega a ser tão assustador. Disseram que já estão acostumados, nem ligam mais. É um prédio grande, antigo. São, pelo menos, uns dez apartamentos por andar. Mas os corredores são amplos, claros, bem iluminados. Não assustam.

Eustaquio02O melhor de tudo é que, da janela deles, vê-se parte da rua da Bahia, do Museu de Mineralogia, do antigo prédio onde funcionaram o Clube Belo Horizonte e o cine Guarani. Entre um e outro, uma das casas mais antigas da cidade, onde, dizem, na década de 1950, houve um crime que não foi solucionado até hoje. Meu amigo que me contou. É jornalista, mas não tem muitos detalhes. O que importa é que a casa é linda e está bem conservada. Então, toda vez que chegam à janela, eles têm uma visão bonita da rua. À noite, iluminada, com movimento intenso, parece que todo dia tem uma coisa nova. Dá prazer ficar olhando da janela.

Eles gostam tanto de morar no centro, que as duas filhas — uma já casada e a outra em vias de — compraram apartamentos no mesmo prédio. A desvantagem é que não tem garagem, mas, por isso mesmo, os preços compensam. O casal não tem carro. Rafael trabalha perto de casa, dá pra ir a pé. “Uma distração a mais”, conta Amanda, que é dentista e também tem consultório a poucos quarteirões de casa.

— Então, pra que carro? Quando precisa, a gente toma um táxi, que é o que não falta aqui.

E aí começam a enumerar as vantagens de morar no centro, pra satisfazer minha curiosidade e, de alguma forma, tentar me convencer a me mudar pra lá. Bancos, supermercado, cinemas, livrarias, todo tipo de comércio, mesmo que seja o que se concentra numa praga chamada shopping… “Ah, mas tem o Maletta, nossa segunda casa”, lembra Rafael. E tem o Maletta, os sebos, a Cantina do Lucas — “marcamos ponto lá pelo menos uma vez por semana”.

Eu achava que as paredes dos apartamentos nesses prédios enormes eram daquelas bem finas, daquelas que dão pra devassar a vida dos vizinhos mesmo quando a gente não quer. Rafael me conta que não é bem assim, a não ser no caso dos meninos de Abaeté, estudantes que moram no sexto andar, numa república.

— Tem dia que eles cismam de ouvir o Deff Lepard no último volume…

Amanda me conta que muitos moradores são antigos, como eles. Vivem ali há mais de trinta anos. Alguns se tornaram amigos, vizinhos prestativos, gente com quem se pode contar sempre. Até para as coisas mais triviais. Rafael me mostra as áreas de serviço dos apartamentos e, em muitos casos, elas são como pequenos quintais, lembram um pouco aquela visão que o James Stewart, de perna engessada, teve dos fundos de um prédio, em “Janela Indiscreta”, obra prima do mestre Hitchcock. É tal e qual.

Umas áreas têm varais e as roupas dependuradas revelam um pouco da intimidade de cada morador. Outras, plantas e até gaiolas com passarinhos. De lá, cheiros diversos se misturam. Mas Amanda diz que também tem um rapaz no décimo segundo andar que passa o dia inteiro camuflado atrás de uma samambaia, munido de um binóculo gigantesco, procurando flagrar alguém — “só que todo mundo aqui já sabe qual é a dele”.

A vizinha do lado é dona Viridiana, diamantinense, “devota” de JK, apreciadora de uma boa cachaça e exímia contadora de causos. Diz que viu o famoso Don Sigaud, quando ainda era bispo de Diamantina, entrar no Beco do Mota para enfrentar as putas. Rafael me conta que na sala do apartamento dela tem um altar com o retrato do ex-presidente, que nem como se ele fosse um santo. Mora com as irmãs Eurídice e Dinorá, todas aposentadas, festeiras, desbocadas e alegres. São seresteiras afamadas também, que preparam batidas de abacaxi como ninguém mais.

— Receita que trouxeram do bar da Dilza, lá de Diamantina. De vez em quando fazem um sarau e convidam a gente. Aí, cantam “Peixe Vivo” pelo menos umas dez vezes. Se já beberam umas antes, choram de emoção. Dona Viridiana tem um missal com autógrafo do Juscelino.

Rafael aprendeu a identificar alguns vizinhos pelo cardápio.

— A Ivone, que mora no nono andar, quase todo dia faz bife acebolado com batata frita; o Daniel, que mora aqui ao lado, é o mestre da broa de fubá: faz pelo menos duas vezes por semana.

Rafael e Amanda mantêm uma saudável relação com os vizinhos. Não se frequentam tanto, mas conversam, trocam informações, estão sempre se ajudando. Presenciei lá uma coisa que há tempos não via. Elisângela, um moça lourinha, que mora no mesmo andar que eles, veio pedir emprestado uma cebola e uma xícara de farinha de trigo.

— Uma xícara só? — pergunta Amanda.

— É. Comecei a fazer uma torta salgada e vi que a farinha não dava. E eu preciso enfarinhar a forma, senão a massa vai agarrar, vai grudar no fundo.

Voltou uma hora depois, com um generoso pedaço da torta da sardinha e uma garrafa de licor de jabuticaba, que a irmã trouxe de Sabará. “É pra tentar compensar o incômodo”. A torta cheirava tão bem que Amanda pediu a receita e ainda ganhou de Joana a promessa de voltar no sábado para fazer a iguaria.

— Vendo como se faz, você aprende mais depressa.

São gentilezas que fazem o dia melhor. Hoje, uma xícara de farinha; amanhã, um comprimido para dor de cabeça; depois, jornais ou caixas de papelão para embalagens. Começo a entender porque Amanda e Rafael gostam tanto de morar no centro, no prédio em que moram. Eu, que antes morei numa república em Santo Antônio, na Barroca, na divisa de Santa Tereza com o Horto e hoje tenho que aturar a Cidade Nova, quase me sinto tentado a rever meus conceitos sobre moradia. Mais ainda quando Amanda me conta que nunca comprou Miojo nem pratos congelados para “quebrar o galho”.

— Gostamos muito de cozinhar em casa, mas quando a gente está com preguiça ou acontece algum imprevisto, tudo é motivo pra descer pro Lucas e pegar um filé à cubana… É como se aqui, todo dia, fosse dia de domingo!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.