IPTU, Cemig e ‘Caras’: o mistério do condomínio

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Eustaquio02Uma vez, muito tempo atrás, tive um pesadelo. Sonhei que era o síndico de um prédio muito grande, um daqueles condomínios gigantescos, que parecem ser maiores que muita cidade do interior. Tenho uma amiga que mora num desses, aqui bem no centrão de Belo Horizonte — e vou logo avisando que não é o JK. Pois bem, há dias, reclamou comigo que estava com umas contas acumuladas, com dificuldades pra pagar. “IPTU, Cemig… Logo eu que sou supercuidadosa, que nunca deixo atrasar”, reclamou. Mas um infortúnio, pra nos parecer menor, tem que cair também em outras pessoas, pra não fazer com que a gente pense que é a única pessoa do mundo que tem problemas. Daí, contou que um vizinho seu, um jornalista, ameaçou levar o condomínio na Justiça, por não receber a Folha de São Paulo e uma revista semanal, que assinava com evidente sacrifício. Conversa daqui, conversa dali, descobriram que pelo menos umas vinte pessoas ou mais enfrentavam o mesmo problema no condomínio. Foram ao síndico, que era um doutor advogado muito falante, muito articulado, que mostrou-se interessado em resolver a questão.

— Se eu pago a assinatura da revista, tenho o direito sagrado de recebê-la — bradou o jornalista.

— E quem vai pagar a multa do meu IPTU? — quis saber minha amiga.

E por aí foi. Choveram reclamações. Acusaram um dos porteiros, homem humilde, pai de família e que estava há trinta anos em uma das duas portarias do condomínio. O coitado jurou de pés juntos que não tinha nada com aquilo. E passou a bola pra frente. Ele só recebia a correspondência e deixava lá: quem selecionava e distribuía era a subsíndica, dona Fortunata. Ou, em seu lugar, o marido dela, seu Rafael, aposentado à moda antiga, que usava pijama listrado e costumava, sem o menor constrangimento, descer assim até o balcão da portaria, “pra dar uma mãozinha à patroa”.

— Sair por aí distribuindo a correspondência é o mínimo que posso fazer para ajudar Fortunata.

Seu Rafael era um homem muito curioso. Por isso, demorava na entrega da correspondência, que ia distribuindo, andar por andar, de porta em porta. Pra satisfazer a curiosidade, se valia de alguns artifícios, desde levar os envelopes contra a luz, pra lhes adivinhar o conteúdo, ou partir para a violação pura e simples, quando essa curiosidade passava da conta. Foi assim com um exemplar da revista ‘Caras’, de uma das condôminas, que trazia na capa o ator Reinaldo Gianechini falando de sua luta contra um câncer. Seu Rafael teve um primo que morreu da mesma doença, anos atrás… “Será que estão contando alguma novidade no tratamento?” — Só abrindo a revista pra saber. Nesse afã de satisfazer uma curiosidade que, a cada dia, só aumentava, foi surrupiando daqui e dali, acumulando em casa uma posta restante que não tinha mais tamanho, e que só dona Patroa é que não via. Os que reclamavam do sumiço da correspondência, como minha amiga e seu vizinho jornalista, passaram a ser misteriosamente penalizados por seu Rafael, que rasgava os envelopes e os atirava no incinerador do prédio. E assim, nada de IPTU, nada de Cemig, nada de nada pra pagar, até que chegavam as ordens judiciais.

Cremilda, faxineira gente finíssima e nordestina de Palmeira dos Índios, tinha uma irmã que, por um breve tempo, trabalhou para o ator Gianechini, em São Paulo. Ou pelo menos trabalhou para alguém que conhecia uma pessoa que era mais ou menos amiga do artista. Por isso, ficou de olho no exemplar da ‘Caras’, que chegou a ver nas mãos de seu Rafael. Um pouco de curiosidade misturado com orgulho pela irmã faxineira em Sampa e que só trabalhava em casa de gente famosa, somado a um tiquinho de compaixão pela má sorte do rapaz, tão novo e já tendo que enfrentar uma doença ruim que nem essa…

Comentou com Aparecida, Floripes e Elisângela, também faxineiras do prédio, a ruindade de seu Rafael, que preferiu incinerar a revista a emprestá-la. O ti-ti-ti chegou a Mabel, empregada da advogada Kátia Cilene, que assinava ‘Caras’ e que teve que pagar por um exemplar nas bancas, justo no dia em que o exemplar da revista que trazia como matéria de capa uma entrevista com seu ator favorito, não lhe foi entregue. O mundo não desabou, mas esteve por perto. Descobriram todos os podres, todas as patifarias de seu Rafael e de dona Fortunata. A partir daí, as andanças de seu Rafael e seu pijama listrado foram sumariamente proibidas e as ‘Caras’, os boletos da Cemig, do IPTU e a Folha de São Paulo voltaram a chegar a quem de direito. Seu Rafael, que com o tempo cismou de circular de cueca samba-canção e camiseta regata, em vez do pijama listrado, repousa hoje em uma casa de saúde das imediações da Pampulha, para escapar ao vendaval de processos que caíram sobre sua cabeça. A Cremilda, a quem foi creditada a façanha de ter desbaratado o mistério do sabotador de correspondências, cabe agora o privilégio de ler e colecionar ‘Caras’, numa deferência toda especial da advogada Kátia Cilene, que lhe repassa todos os exemplares. E a paz, pelo menos por ora, voltou ao condomínio.

PS
Só por curiosidade: se ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração do filho, ser pai é o quê? Beijo grande em todas as mães, nesse domingo de maio.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.