Insegurança faz moradores de capitais criarem suas próprias fortalezas

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Violência nos grandes centros transforma casas e prédios em fortalezas
Violência nos grandes centros transforma casas e prédios em fortalezas
Casas se armas e viram fortalezas contra a insegurança nos grandes centros

Ana Clara Otoni

As fortalezas estão se proliferando pelos grandes centros. A morte da universitária Bárbara Quaresma Andrade Neves, de 22 anos, que foi assassinada na porta da casa do namorado no bairro Cidade Nova, na região Nordeste de Belo Horizonte, reacende a discussão sobre a segurança nas capitais brasileiras. O bairro onde o crime ocorreu é tradicional e composto por famílias de classe média e alta e integra a rede de vizinhos protegidos, que opera em parceria com os moradores e a Polícia Militar de Minas Gerais. Apenas em relação ao número de furtos de carros, a PM contabilizou dez casos de furtos de veículos no bairro, no período de janeiro a maio de 2012.

A reportagem do portal emorar solicitou os dados referentes aos furtos, assaltos, invasões e arrombamentos à residência referentes ao ano passado e até maio de 2012, mas a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) pediu um prazo de 48 horas para fazer o levantamento e, passado esse período, não havia divulgado os dados até a publicação desta matéria.

Opção forçada

Construir uma fortaleza em casa tem sido uma opção quase que forçada para muitas pessoas, que se vêem amedrontadas com a violência. É o caso da família do administrador Rafael Lopes, de 28 anos, moradora do bairro Caiçara, na região Noroeste da capital. “Minha mãe foi assaltada a mão armada na porta de casa quando chegava do trabalho, os delinquentes eram menores de idade e levaram o carro dela. Desde então, a gente precisou ficar mais esperto”, contou.

Na casa dele – onde moram seis pessoas – há portão com proteção e grades nas janelas e há cerca de um ano e meio a residência passou a integrar a rede de vizinhos protegida. “Foi uma ideia de uma moradora que tinha acabado de se mudar para a minha rua. Ela reuniu todo mundo e fizemos uma reunião com a polícia. Agora, todos têm um apito para alertar uns aos outros caso ocorra alguma situação suspeita, como um assalto, além dos contatos de e-mail e telefone dos vizinhos”, explicou Lopes.

Caiçara

No bairro Caiçara, o projeto foi adotado há cinco anos e é composto por cerca de cinco mil famílias, e também por comerciantes. Uma oficina em frente a casa do administrador Rafael já teve um carro roubado durante o dia. Com isso, desde a criação da rede o proprietário aderiu ao sistema. O resultado do projeto Rede de Vizinhos Protegidos pode ser medido pela redução em 64% das ações criminosas (assalto à pedestres, estabelecimentos comerciais, prédios e residências; arrombamento de veículos e furto), em zonas consideradas perigosas dos 14 bairros apenas na região.

Olho ativo

O major Gilmar Luciano, chefe da sala de imprensa da Polícia Militar de Minas Gerais, diz que a comunidade passa a ser um “olho ativo” atuando na segurança da vizinhança. “A rede tem um papel muito importante dentro do princípio de polícia comunitária. É a forma mais efetiva de a comunidade participar na segurança pública”, defende. Os vizinhos que integram a rede são orientados a avisar se, por exemplo, notam alguma pessoa estranha observando a rua ou alguma residência. A recomendação é para que acionem a polícia através do número 190 e comuniquem os demais vizinhos – seja por meio do apito ou por telefone.

Morar em fortalezas

A vizinha do administrador Rafael Lopes que levou a ideia da rede de vizinhos protegidas para a rua onde eles moram possui sistema de monitoramento de câmeras, portão eletrônico, cerca elétrica e vidros blindados nas janelas. O aparato dessa “armadura” tem o preço do medo e da insegurança causados pela criminalidade em Belo Horizonte. A preocupação dela com a segurança e sigilo são tão grandes que ela se recusou a falar com a reportagem.

Luciana Ulhôa, da empresa de segurança Emive, diz que há sistemas de segurança a partir de R$ 1 mil. Foto: Emive/divulgação

Luciana Ulhôa, gestora do departamento de marketing da Emive, empresa especializada em monitoramento residencial e predial, explica que há no mercado pacotes com serviços e equipamentos de segurança para atender diferentes necessidades e bolsos. “Em média, um kit básico de alarme custa R$ 1 mil; os serviços de monitoramento custam R$ 220, por exemplo. Mas, para quem quer ainda mais segurança há o kit com quatro câmeras com gravação do circuito interno por cerca de R$ 4 mil. Tudo depende da necessidade do cliente”, diz.

Segundo ela, não há um perfil padrão para as pessoas que buscam pelos sistemas de monitoramento de segurança, mas há características comuns para maioria delas. “Geralmente são pessoas que passaram por algum momento de stress, teve a casa arrombada ou a sede da empresa ou mesmo alguém que foi assaltado na porta de casa ou perto e que não tinham sistema de segurança próximo a esses locais”, explica. Ela diz ainda que é comum o caso contrário, quando pessoas que nunca tiveram problemas com a criminalidade buscam pelos serviços. “Nestes casos, há um desejo de se precaver, de estar preparado para situações adversas. Hoje em dia, o que as pessoas querem é se sentir seguro”, afirma.

Tecnologia

Vários são os recursos tecnológicos que estão sendo usados em favor da segurança residencial. Há equipamentos que permitem fazer o monitoramento eletrônico das câmeras de segurança de casa em qualquer lugar do mundo – por meio de computadores, tablets, palms e até pelo celular, tanto via Intranet como Internet. Alarmes digitais e analógicos com sensores de calor e magnéticos que são acionados quando violados, além de botões de emergência que acionam automaticamente a polícia ou a empresa responsável pela segurança da casa com apenas um toque. A reportagem do portal emorar selecionou os itens mais modernos e os mais cotados no mercado de monitoramento de segurança. Confira:

Unidades Volantes de Atendimento (UVA):

São equipes de vigilância que fazem a ronda em motocicletas 24 horas por dia, sete dias da semana do local monitorado. Em algumas empresas, como a Emive, as UVA são regionalizadas por bairros, o que garante o atendimento em menor tempo, caso haja violação do patrimônio assegurado. Em circunstâncias assim, a Central de Monitoramento aciona a UVA mais perto do local para checar qualquer ocorrência. Simultaneamente, é feito um contato via telefone com o morador para confirmação da senha e contrassenha.

Alarmes:

Há várias opções para diferentes ambientes e necessidades. Por exemplo, os alarmes com teclado digitais e analógicos que permitem acessar o sistema com uma senha de acesso individual e assim controlar os horários de entrada e saída do local. Há ainda os sensores internos IVP e externos IVA que, instalados em pontos estratégicos, detectam movimentos de calor. Há ainda alarmes para portas e portões, são os sensores magnéticos que, ao serem violados, disparam.

Botão de pânico:

Colocado em locais estratégicos, ao ser pressionado aciona a central de monitoramento responsável pela segurança do local. O morador pode pré-determinar as ações as quais a empresa deverá tomar em casos de acionamento do botão de pânico.
Cerca elétrica: muito utilizada por ser um sistema de proteção e intimidação para invasores. Seu circuito gera uma carga de alta tensão que produz uma descarga elétrica entre 8.000 a 12.000 volts (caso ocorra violação, é gerada uma comunicação com a Central de Monitoramento).

Sistema digital de circuito fechado de TV:

Sistema de câmeras que transmitem imagens através da internet banda larga em tempo real. Para acessá-las, o morador precisa ter um dispositivo wi-fi com banda larga como: laptops, smarthphones, palms, tablets, etc.

Câmera IP: 

É uma câmera de vídeo que pode ser acessada e controlada através de qualquer rede IP, como a LAN, Intranet ou Internet. Há modelos que permitem ao morador mudar o ângulo das câmeras, habilitar áudio e controlar uso de luz infravermelha para uso noturno. Além da boa qualidade da imagem, essas câmeras têm a função de vídeo inteligente, incluindo detecção de movimento, reconhecimento facial, análise de movimentação, reconhecimento de objetos estranhos e da falta de objetos ou mudança de cena, entre outras.

Veja como criar gratuitamente a rede de vizinhos protegidos na sua vizinhança:

É preciso criar um conjunto de moradores reunidos em grupos de até cinco residências circunvizinhas e entrar em contato com a Polícia Militar através do número 190. Como a Rede é entrelaçada, uma residência pode pertencer a dois grupos. O principal objetivo de cada laço é a integração de todos os componentes. Para tanto, é necessário conhecer o vizinho, seus contatos e até hábitos. Bem estruturada, a Rede proporciona condições mais adequadas para a discussão de problemas complexos, facilitando a tomada de decisões. Após a formação do laço, afixar a placa Residência Monitorada pela PM.

Criar a Rede de Verificação:

Cadeia de contatos de uma residência para a outra. Os integrantes da Rede estabelecem a forma de atuação, considerando horário, senha e outros fatores relevantes para os moradores. Pode ser feita através do telefone e outras formas de comunicação.

Criar a Rede de Vigilância Mútua:

Processo de observação do movimento nas imediações da residência vigiada, para detectar a presença de pessoas ou veículos estranhos ou em atitude suspeita. Funciona como uma câmera viva – o sinal de perigo é dado através de som (apito, por exemplo) ou códigos combinados. Em caso de invasão ou flagrante criminoso, os moradores fazem um barulhaço, mobilizando toda a Rede de Vizinhos Protegidos.

Providenciar a melhora da iluminação da rua:

Pode ser feito com a instalação de um holofote em pontos estratégicos da rua. A lâmpada pode ser acesa pelo sistema de fotocélula ou outro mecanismo.