Imagina na Copa…

0
562

Daí que criaram um movimento chamado “Imagina na Copa”, que do Brasil já ganhou o mundo. Chile, Espanha, Itália, Austrália e até Eustaquio02os Estados Unidos. É mais ou menos uma coisa feita em cima de buscar ações positivas em momentos de crise. Ou seja, se de alguma forma já se espera que, durante a Copa, o bicho pegue pra valer, com mais manifestações na rua, mais oportunistas se infiltrando nos protestos e mais quebradeiras, mais violência, mais polícia batendo, mais tudo de ruim acontecendo, por que não tentar tirar algo de positivo desse caos?

Nas redes sociais, o movimento tá bombando, com muita gente apoiando e curtindo — inclusive eu. Busca “o engajamento dos jovens em iniciativas de impacto social”, diz lá o texto que apresenta o movimento, que parte de ações simples, cotidianas, que todo mundo pode fazer. Uma gentileza, um abraço, uma palavra boa, uma doação esperta pra quem tá fazendo coisa que merece ser destacada. A previsão — não deles, minha — é que será uma luta daquelas. É que não acredito muito nessa coisa de vencer o capeta só com rezas…

Imagina na Copa! Desde o dia em que sortearam o Brasil pra sediar esse infeliz evento, que venho ouvindo pessoas recitarem esse bordão. Às vezes, com intenções diferentes. No caso dos comerciantes, a maioria com mestrado e doutorado na Lei de Gerson, o bordão significa cifrões, passar a perna, levar vantagem, enganar e roubar — vão aumentar os preços em até 200% durante a Copa. Tirar a barriga da miséria.

Ouvi isso, outro dia mesmo, de um taxista daqui, valadarense, que tinha trabalhado algum tempo em Miami, até ser deportado como imigrante ilegal — e também, como não teve a menor vergonha de me confessar, porque foi pego roubando uma cueca numa loja de departamentos. Primeiro, reclamou que as tarifas dos táxis não acompanham o aumento da inflação; depois reclamou “da Dilma” (virou moda entre os motoristas de táxi!), que estaria dificultando o acesso às concessões a muitos taxistas, num processo que quase cabe apenas aos Detrans; por fim, deu de ombros e me informou que, em se tratando de Brasil, tudo isso é normal e que, se puder, vai explorar os turistas ao máximo — “Esse país é uma zona só”, justificou-se.

Ainda que não tenha a menor intenção de me aprofundar em qualquer tipo de conceito, percebo que essas observações podem se transformar num ótimo material de trabalho para os antropólogos, conforme concordou Stefano J. Mello, antropólogo e amigo de longa data.

— Não sei se isso é cultural. O Brasil é um país muito novo para que a gente defina esse tipo de comportamento como um traço de sua cultura, porque cultura não se resume a um conceito único, mas a uma série de conceitos, com muitos significados, usos e alcances também.

Concordo. Até porque, por experiência própria, já saquei que a malandragem tem sotaques variados. Vi isso na Argentina, no México e até na França. Aqui, talvez por causa da mestiçagem, ganha matizes diferenciados. É o caso de um conhecido meu, ex-bancário, gordo profissional, que já processou três empresas (ganhou duas vezes e perdeu uma), valendo-se de seu excesso de peso. O primeiro processo rolou em São Paulo, quando despencou de uma daquelas cadeiras de plástico que, do Chuí ao Shopping Oiapoque, estão na maioria dos botecos brasileiros e são, segundo esse moço, um dos nossos maiores sintomas de pobreza. Esse rapaz, que não por acaso tem o apelido de Adriano Bundão, me contou que, por não suportar seu peso, as penas da cadeira se abriram e o atiraram ao chão. Chafurdou no chope, numa concorrida tarde de sábado paulistana, em plena rua Augusta.

— Foi um puta dum vexame. Se só de passar na rua o gordo já provoca risadas, imagina quando cai da cadeira!

Adriano Bundão processou o restaurante por danos morais e materiais. Ganhou. Segundo ele porque a juíza que julgou o caso também era gorda e achou que suas reclamações procediam (“Com certeza também deve ter caído de uma dessas cadeiras”). As empresas brasileiras, segundo Bundão, são um sortido buffet para quem quer ganhar processos. O segundo que ganhou foi contra uma empresa aérea, daquelas que têm assentos que parecem projetados só para modelos anoréxicas, e onde ele obviamente não “se encaixou”.

— E que culpa que eu tenho de ser gordo?

Adriano está preocupadíssimo com a Copa do Mundo. Ou melhor, com os turistas gordos que porventura aportarem por aqui.

— Não vão poder entrar em nenhum barzinho. A maioria tem cadeiras de plástico… Numa cidade em que a maior atração turística são os botecos, pra onde você acha que esses caras vão? Pro Museu da Pampulha ou pra Ladeira do Amendoim?

A partir daí, enumerou que também terão dificuldades de entrar nas agências bancárias, devido às portas detectoras de metal serem muito estreitas, da mesma forma que os corredores de caixas de supermercados. E falou que nem vão poder andar de ônibus, já que não conseguirão vencer o obstáculo das catracas. Pra finalizar, disse que poderá haver problemas até no Mineirão.

— Não levei a menor fé naquelas cadeirinhas; será que elas aguentam um gordo de verdade?

Anderson Gomes Pereira é empresário, gordo de verdade, e acabou de voltar do Japão. La se fala muito na Copa do Mundo, segundo ele. Não só porque a seleção deles se classificou, mas também porque o país tem laços culturais muito estreitos com o Brasil, ainda hoje o mais concorrido polo dos imigrantes japoneses.

— Mas eles estão muito preocupados. Os japoneses viajam muito, têm um poder aquisitivo muito grande, apesar da crise, mas não gostam de correr riscos, sabe?

— Que tipo de riscos? — pergunto.

Segundo Anderson, a violência é o primeiro item da lista. A imagem das cidades brasileiras lá fora mistura um pouco dessas coisas: exotismo, barbárie (sujeira, pobreza), beleza e violência. E entre todos os povos asiáticos, “os japoneses são os mais clean”.

— As imagens dessas manifestações, então, com os caras quebrando e incendiando tudo, assustaram muito. Sei de gente que não vem só por causa daquilo. Imagina na Copa, se rolar uma confusão assim!

O antropólogo Stefano me lembra que há um traço muito forte que costuma identificar “uma das muitas imagens do que se define por cultura brasileira”, o jeitinho.

— No carnaval, em algumas festas religiosas e no futebol, isso fica muito evidente; as pessoas se permitem a um comportamento que não seguem em seus dias normais, mas tendem a achar que esse comportamento atípico, de exceção, é que tem que prevalecer. Só que não é assim.

Li que Darwin, no pouco tempo que andou pelo Brasil, criou uma imagem muito negativa do povo, a quem chamava de “os horríveis brasileiros”. Entre outras anotações, destacou que era um tipo de gente que procurava levar vantagem em tudo.

— Somos um país de extremos: enquanto nos permitimos viver todos os excessos do carnaval ou das arquibancadas, nos achamos o povo mais criativo e mais especial do mundo; mas no dia seguinte, quando caímos na real de uma segunda-feira de trabalho, essa opinião muda. Aí viramos o povinho sem vergonha que Deus pôs no paraíso, viramos o país do jeitinho, da falcatrua, da Lei de Gerson — atesta meu amigo antropólogo. Imagina na Copa!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.