Revitalizado, IAPI quer comércio, segurança e mais privacidade

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Vista do Conjunto IAPI
O IAPI (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários) foi construído nos anos de 1940

Gustavo Lameira

“São 5,4 mil moradores, 928 apartamentos, distribuídos entre nove edifícios; temos população maior que a de 162 municípios de Minas Gerais. Todo mundo se conhece, pelo menos de vista; se alguém passa mal, o vizinho pega e leva ao médico; se precisa de alguma coisa, bate no vizinho e pede… É uma cidade do interior!”. Assim é o IAPI na definição do representante da Associação dos

Carlos Alberto Pinheiro de Mendonça Júnior, o Juninho do IAPI, está à frente da Associação de moradores há 4 anos

Moradores, Carlos Alberto Pinheiro de Mendonça Júnior, o Juninho do IAPI, nascido ali mesmo.

O IAPI (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários) foi construído nos anos de 1940, pelo arquiteto White Lírio Martins, durante a gestão de Juscelino Kubitschek na prefeitura (1940-1945). A intenção de JK era a de resolver o problema de moradia da cidade e, principalmente, ordenar a Lagoinha — a Pedreira Prado Lopes, que se formou na época da construção da capital, crescia com o êxodo rural.

O IAPI era moderno e inaugurava a verticalização de moradias populares em Belo Horizonte. Na mesma época, a cidade recebia o Complexo Arquitetônico da Pampulha, projeto de Oscar Niemeyer.

Segurança

Não é de hoje que a proximidade com a Pedreira comprometia e compromete a segurança do conjunto. A presença da cracolândia (na esquina da Rua Araribá com a Avenida Antonio Carlos) e a falta de policiamento eram problemas crônicos do IAPI.

— Uma das melhores coisas que fizeram para nós foi retirar o albergue Municipal daqui. Os moradores de rua passavam o dia na região, furtando e assaltando moradores e pedestres pra poder comprar droga… Foi um alívio.

Os dois lados da valorização

Por sua importância histórica, social e arquitetônica, o IAPI foi tombado, em 2007, pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte, o que isenta seus moradores do IPTU. Outro ponto favorável para proprietários de imóveis no local foi a duplicação da Antonio Carlos e revitalização do conjunto, uma parceria entre a prefeitura e empresas privadas, por meio do programa Adote um bem cultural, da Fundação Municipal de Cultura (FMC).

Vista aérea do IAPI em 1955

De acordo com Moisés Montenegro (Morus Imóveis), nos últimos dois anos a valorização de alguns apartamentos chegou a 100%. “Os menores, de um quarto, que não valiam mais que R$ 60 mil, hoje, não saem por menos de 120 mil. Os maiores, de 160m², custam até 400 mil”. O preço médio de condomínio é de R$ 160.

Igreja de São Cristóvão fica ao lado do conjunto
Igreja de São Cristóvão fica ao lado do conjunto
Perfil variado

O perfil de moradores do IAPI é variado; há um equilíbrio entre proprietários e inquilinos. São pelo menos oito tipos de apartamentos (conforme a planta original), e os maiores estão no térreo. As janelas amplas, o pátio e vãos internos são marcas do conjunto. Já o “amarelo Santa Casa”, da pintura original, foi substituído por cores mais vibrantes, simbolizando — pasmem! — o ouro e o minério do estado. Nos domínios do conjunto estão a Igreja de São Cristóvão, a Escola Municipal Onorina de Barros, uma praça, duas quadras de esporte (onde são realizados as festas juninas do IAPI e outros eventos culturais e campanhas), e as antigas casas de força, que atualmente abrigam a biblioteca da escola, uma sapataria, e a sede da Associação Comunitária dos Moradores do Conjunto IAPI, que as administra.

65 anos de IAPI

Beatriz Ceraso (escolhida Madrinha da Revitalização, por sua participação ativa) está entre os moradores mais antigos: são 65 anos só de IAPI e, 21, como síndica do Edifício 3 — entre seus ex-condôminos famosos estão o ex-jogador e médico Tostão e a cantora Martinha, ídolo da Jovem Guarda. Em meio às melhorias, ela aponta falhas nas obras viárias no entorno do conjunto. “Aqui tem muitos idosos; ficou difícil atravessar a Antonio Carlos. Os atropelamentos são constantes. Já que não temos passarelas, a pista exclusiva para ônibus deveria ter sido feita nas margens da avenida, não no meio”. Ela ainda se queixa da segurança: “já melhorou bastante, mas ainda tem o vandalismo… Eles quebram as lâmpadas dos postes, cortam fiação, danificam as lixeiras, o jardim… Como o local foi tombado, merecia a presença constante da Guarda Municipal”, reivindicou.

Quem não sai do IAPI

O técnico de enfermagem do trabalho Paulo Pimentel, 51 anos, mora no conjunto desde os 6. Em sua opinião, o IAPI e o São Cristóvão ganharam vida nova depois das reformas. Por outro lado, a duplicação da Antonio Carlos acabou com o setor de comércio e serviços. “O Epa ficou aqui por muitos anos. Hoje, os moradores da região têm que ir pra outros bairros fazer supermercado”. — Uma opção modesta de comércio para os moradores fica na Rua Araribá. Outras perdas significativas foram a agência dos Correios e a limitação de uma única entrada de veículos para o conjunto.

O IAPI não tem garagem, há o estacionamento gradeado para os moradores. Mas segundo Paulo, a maioria dos carros estacionados durante o dia no conjunto não pertence aos moradores. “São pessoas que moram em outros bairros, vão trabalhar no centro, e acabam deixando seus carros aqui. Isso atrapalha a locomoção dos moradores e tira a vaga da gente. Eu mesmo tenho dificuldades de estacionar meu carro quando chego do trabalho por volta das 17h30min. As vagas só começam a ser liberadas depois das 19h”, denuncia. Mesmo assim, Paulo nem pensa em se mudar: “Gosto do meu apartamento. Em outro bairro não vou encontrar um imóvel que me atenda, de acordo com meu padrão de vida”.

Visitantes tomam vagas de estacionamento dos moradores do Conjunto
Para o designer Mário Cruz, a localização é o ponto forte do IAPI
Para o designer Mário Cruz, a localização é o ponto forte do IAPI
Ponto forte

Para o designer Mário Cruz, 37, e todos os outros moradores, a localização é o ponto forte do IAPI. “Dá pra ir a pé ao centro, com 15 minutos; temos linhas de ônibus à vontade na Antonio Carlos; fica barato andar de carro e de táxi… Estamos perto dos shoppings, das faculdades… Um problema sério aqui era a violência, mas com a urbanização da Pedreira, melhorou”.

Falta de elevadores

O designer ainda cita a falta de elevadores, que dificulta a vida dos moradores quando chegam com as compras, na hora da mudança etc. — O IAPI foi erguido num terreno bem mais baixo, em relação à Avenida José Bonifácio e Rua Araribá. Aproveitando a topografia, construíram as pontes como saídas de incêndio, e também para ligar essas vias ao conjunto, interligar os prédios e amenizar a falta dos elevadores.

Mário mora com os pais, mas só volta para casa na hora de dormir, “quase não vejo meus amigos, a vida está muito corrida; por isso mesmo a praticidade e logística do IAPI deixam a gente mal acostumado. É difícil sair daqui”.

Demandas

De acordo com a Associação de Moradores, as principais demandas da comunidade já foram encaminhadas à prefeitura. Entre elas: três passarelas para Avenida Antonio Carlos (uma na esquina com Rua Araribá, outra próxima ao Mercado da Lagoinha e Rua Formiga, e uma para a Rua Rio Novo, em frente à Uni-BH); uma casa lotérica, que irá funcionar numa das lojas existentes na entrada dos edifícios (nas demais, já funcionam uma locadora de vídeo, um salão de beleza e um bar); uma academia ao ar livre; a instalação de redutores de velocidade na pista interna do conjunto (usada para caminhadas); e por fim, o fechamento do IAPI, (esta, por meio do programa Adote um bem Cultural) transformando-o num condomínio com portaria aberta ao público durante o dia, e restrito aos moradores à noite.

De acordo com a PBH, a previsão para atendimento das demandas da comunidade do IAPI é só no segundo semestre de 2013, após conclusão das obras do BRT. Por sua vez, a Sudecap avisa que não há previsão para a construção das passarelas.

  • Waleria

    Muito boa a materia de Gustavo Lameira sobre o conjunto IAPI ! Parabens ! Conseguiu mostrar nesta materia os pontos positivos e as necessidades dos moradores.

  • Júnia

    Interessante a valorização dos apartamentos pós pintura e a questão da isenção do IPTU

  • Cláudia Amaral

    Eu morei no IAPI, Edf.04, apº607, de l958 à l982, minha mãe e meu irmão ainda residem. Saí quando me casei mas não perdi o contato com meus conhecidos moradores do IAPI. Teno acompanhado as melhorias, inclusive a tão sonhada pintura que ficou muito linda e agradável aos olhos dos moradores e até de quem passa pela avenida e a admira. Mas atualmente a violência é a preocupação maior e necessitando com urgência de um monitoramento por parte das autoridades policiais. Minha sujestão seria que os representantes fizessem um abaixo-assinado entre os moradores para que a guarita que está apenas montada e sem policiamento seja reativada, proporcionando aos moradores mais segurança quanto ao tráfego intenso das drogas que rondam, principalmente as imediações da Rua José Bonifácio, onde o comércio fica prejudicado. Na expectativa de medidas solucionadoras, me despeço de todos e muito obrigado pela oportunidade de colocar aqui meu comentário.