Factory: a origem do loft e suas transformações

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Hoje é extremamente comum ouvirmos a denominação loft ser usada para uma determinada tipologia arquitetônica. A origem do loft, entretanto, nos revela um espaço que pouquíssimo se assemelha com as construções atuais. O loft não era simplesmente um espaço pragmático composto por uma série de metros quadrados e um determinado layout, mas convidava a um estilo de vida e a uma maneira específica de usar o espaço.

Estela-NettoÉ sempre complexo determinar a origem de um partido arquitetônico, mas vários autores acreditam que o loft teve seu princípio na Factory, na Nova Iorque da década de 60. O cenário artístico da época era extremamente diversificado. A arte contemporânea se apresentava de distintas maneiras após o expressionismo abstrato de Jackson Pollock. A Pop Arte foi um movimento extremamente revelador da sociedade americana de consumo e muito relevante para os novos rumos da arte e seus questionamentos sobre o que poderia ser considerado arte e qual a sua função.

Andy Wharol foi um grande expoente da Pop Arte e criador da Factory. Foi, provavelmente, o loft mais ilustre de todos os tempos. No livro A boa vida: visita guiada às casas da modernidade, de Iñaki Abalos, o autor elege a Factory como um dos dez exemplos de casas e modos de morar criados na modernidade. Isto nos revela o quanto Wharol consegue “inventar” um novo lugar, uma nova forma de viver.

Localizado em uma antiga fábrica de Nova Iorque, em uma região decadente financeiramente, Andy cria uma espécie de comuna urbana, baseada nas comunas marxistas e sua família eletiva. As pessoas que ali viviam não eram membros de uma família tradicional, mas eletiva, moravam juntas por compatibilidade de idéias sobre o mundo e sobre a arte. A Factory era um local onde se habitava e trabalhava, um local destinado à festa e ao trabalho, e, principalmente, ao trabalho como festa.

O loft novaiorquino era basicamente, em sua estrutura arquitetônica, uma casa-oficina, com grandes superfícies fluidas, alugada por baixos preços frequentemente datadas do final do século XIX. Viver no SoHo, região que acabou abrigando muitos lofts, já significava uma espécie de sentimento de “pertencer” a uma determinada comunidade. Uma comunidade alternativa, crítica e com novos códigos sociais. A liberdade marcou estas comunas urbanas, no âmbito da arte e da sexualidade.

Wharol disse: “Sempre gostei de trabalhar com as sobras, de converter as sobras em coisas, sempre achei que as coisas rejeitadas, e que todos pensam que não servem para nada, podem ser divertidas”. É como objetrouvé. Assim como a Factory é, em si mesma, uma nave rejeitada e reciclada, bem como os objetos duchampianos. O conceito de Wharol se dá no seu espaço de trabalho e vida e também em sua obra, o que se torna evidente nos seus trabalhos com latas de sopa Campbell e caixas de sabão Brillo.

Localizado, normalmente, em locais nobres nas cidades, os lofts contemporâneos são completamente diferentes das características que deram origem a esse tipo de construção
Localizado, normalmente, em locais nobres nas cidades, os lofts contemporâneos são completamente diferentes das características que deram origem a esse tipo de construção

Esta breve visita à Nova Iorque da década de sessenta nos revela o significado do loft e o quanto às características marcantes foi sendo perdidas e transformadas na contemporaneidade. A ideia de trabalhar com as sobras, da família eletiva e do lugar eternamente aberto à festa cedeu espaço a uma arquitetura encomendada e construída sem rígidas restrições orçamentárias e em locais nobres da cidade. A antiga fluidez dos galpões aparece hoje timidamente na conexão entre sala, cozinha e às vezes dormitório.

Obviamente a arquitetura se transforma para atender a novos conceitos, novas maneiras de conceber os espaços e está intimamente ligada aos códigos sociais vigentes, mas sempre será bom pensar e, por que não, se imaginar em uma das festas de Wharol, repletas de personalidades ilustres, como os Rolling Stones e Jacky K., com música dos então desconhecidos Velvet Underground e obras ícones do Pop espalhadas pela Factory.

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Estela Netto é arquiteta formada pela PUC Minas, especialista em História da Cultura e da Arte. Atua no mercado de arquitetura e design com projetos residenciais e comerciais.
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