Estamos todos com síndrome do pânico (II)

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2° parte da crônica "Estamos todos com síndrome do pânico" de Eustáquio TrindadeSíndrome do pânico. Desgraça pouca é besteira. Quanto mais miséria, melhor! Olímpicas sensações na programação da TV não tiram de lá o ranço, ou melhor, a tendência macabra de continuar a espalhar o medo. Aí, me pergunta um amigo também jornalista: “Mas, falar de falta de segurança é espalhar o medo?”. Bom, é só ligar a TV e comprovar. O cardápio vem recheado de estudada dramaticidade, falsa indignação, moralismo oportuno e, agora, com direito a humor (negro) e trilha sonora. Esta semana, um oficial da PM indicou sua preferência musical — “Malandro é Malandro, Mané é Mané” — para digamos, ilustrar um acontecimento policial. Enquanto o apresentador mostrava a ação, a finada voz do Bezerra da Silva complementava o grotesco da cena. Esses programas começam quase pela madrugada, atacam na hora do almoço, continuam pela tarde e avançam pelas primeiras horas da noite, ao que se supõe, sob os aplausos de uma audiência crescente.

Duas atendentes de uma padaria aqui das vizinhanças contaram que não perdem um programa — o estabelecimento já foi assaltado três vezes — e que não veem exagero algum. “Tem que ‘voltar’ a pena de morte”, sentenciou uma delas. Gílson Batista Soares, aposentado, 69 anos, apoia incondicionalmente. Não, nunca foi assaltado. Nem sua casa, nenhum parente também, “mas é hora de começar a moralizar o país e a pena de morte é uma boa pedida”. Tudo isso, por causa de uma assaltante conhecida no bairro, que foi presa num dia e solta no outro. Gilson não perde o programa do Eduardo Costa, de manhã, na TV Record, e à tarde, na rádio Itatiaia. “Se todos os jornalistas fossem como ele, o Brasil não seria essa pouca vergonha”. Em vez de mandar os atletas para as olimpíadas — “eles não estão ganhando nada mesmo” —, o Brasil deveria ter pegado esse dinheiro e investido em segurança, com mais armas para a PM. Opinião do Gílson.

Tenho vários alunos que trabalham como estagiários ou contratados em redes de TV, atuando em diversas etapas de criação desses programas — apuração, produção, reportagens, apresentação, edição. Muitos têm críticas, não aceitam nem compactuam com a linha editorial adotada, mas isso, claro, não depende deles. “As ordens vêm lá de cima, se a gente não acata, rua!”. Questionei um amigo editor que, por razões obvias, não terá o nome citado.
— Em 90% dos casos, quem dita os rumos da pauta é a audiência. Em muitos, respeitamos o direito dos suspeitos, quando eles não querem aparecer ou gravar entrevistas, mas os direitos dos jornalistas também não podem ser ignorados, porque o público cobra isso do programa.

Em vários programas, com o auxílio luxuoso dos policiais, vi exatamente o contrário. Em alguns, os suspeitos são provocados, a fim de conseguir dele ou uma ameaça ou alguma declaração bombástica que possam legitimar tanto o heroísmo do repórter quanto a, digamos, credibilidade da ação e a importância do programa. Se faz ameaças, o suspeito mostra que é perigoso e, portanto, tudo se justifica diante do público. “Você viu, e ele ainda fez ameaças à nossa reportagem!”. A plateia bate palma e ainda pede bis, já dizia o Gonzaguinha… “Hoje, ninguém tá interessado em direitos humanos ou em saber se esses caras (os suspeitos) são vítimas das desigualdades sociais, o que interessa, infelizmente, é a audiência”, avalia meu amigo editor. Pergunto se ele concorda com isso.
— No começo, não, mas agora, de tanto ver essa escória, passei a concordar. Cada um aborda esses assuntos do jeito que quiser; nós abordamos do jeito que o público quer.

Não é por nada que as delegacias (mais) e as ocorrências policiais de rua vêm se transformando com assustadora frequência em palcos de espetáculos midiáticos, em que a convergência de interesses de jornalistas e policiais é que dita o rumo da ação. Até a repetição do ensaiado discurso dos oficiais da PM corre agora o risco de se tornar também parte integrante do cotidiano da população. Dias atrás, a faxineira do meu prédio disse que havia um “elemento suspeito na via pública”, e que ele “se evadiu”, quando ela ameaçou chamar “a viatura”. O elemento suspeito, que ela não conhecia, era o entregador da farmácia da rua de baixo, que estava, inclusive, vestindo o jaleco da empresa e trabalhando. O que assusta nisso tudo é a falta de um discurso coerente. O desrespeito à qualidade da informação, a falta de qualquer função social. E, pior, tudo muito bem patrocinado e com total beneplácito da Justiça e dos demais poderes públicos na avaliação desses programas.

Enfim, é o preço que pagamos por viver na sociedade do espetáculo, que, aliás, terá novos desdobramentos a partir deste mês, quando entrar no ar o horário eleitoral gratuito. Certamente um campo pra lá de fértil para os repórteres e apresentadores se exercitarem em busca de combustível para seus programas. Ali, a história já nos mostrou fartamente, contraventores (pra não usar palavras mais fortes) nunca faltaram!

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.