Estamos todos com síndrome do pânico (I)

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Eustaquio02“Estamos realmente vivendo tempos assim tão perigosos?” — É a pergunta que faz o sociólogo norte-americano Barry Glassner, em seu livro “A Cultura do Medo”, em que define a sociedade atual, principalmente nos Estados Unidos, como portadora de uma síndrome do pânico quase irreversível. Lá, o ponto de partida teria sido o ato terrorista de 11 de setembro de 2001. O caso se aplica ao Brasil? Sem a menor dúvida. Talvez até bem antes dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, o medo, associado à violência criminal, já vinha fazendo parte do cotidiano das famílias brasileiras. A princípio, possivelmente, nas capitais e nas grandes cidades, mas, hoje, em qualquer vila do interior.

Na pequena Perdões, cidadezinha mineira da região de Campo das Vertentes, um adolescente feriu gravemente um colega, durante um auê promovido por uma menina de 14 anos, que se aproveitou da ausência da mãe, que estava no trabalho, para dar uma festa de arromba. Entrevistado pelos repórteres, o atirador, com voz, corpo e roupa de adolescente, proferiu várias ameaças à imprensa e este acabou se tornando o aspecto dominante da matéria (em dois diferentes canais de TV), seguido das lágrimas da mãe da vítima. A casa onde houve a festa foi devassada pelas câmeras que ainda mostraram a fachada, sem se atentar a um detalhe que agora parece comum à arquitetura brasileira: grades por tudo enquanto é lado. Mesmo assim, houve o crime. Como ele conseguiu as armas? Não perguntaram.

Também por aqui houve um acontecimento digno de interesse. Eu voltava de mais uma penosa sessão de fisioterapia, quando a faxineira do prédio me apontou dois rapazes, que estavam do outro lado da rua. Tênis tipo lancha, boné, bermudão, blusa de moletom. Ali estava delineada a iconografia do mal.
— Já liguei pro 190.
Fixei de novo o olhar na ameaça, que permanecia tranquila, do outro lado da rua, como se esperasse mais alguém. Um terceiro menino, que não demorou a chegar e trazia a tiracolo três armas, digo, três pranchas de skate.
— E você disse o quê à polícia?
— Eles falaram que é pra denunciar qualquer coisa suspeita…

Tentei falar de novo no 190, mas a enérgica atendente disse que, uma vez levantada a suspeita, ela teria que ser investigada e que não haveria como alterar o processo.
— Então não chamasse! E a viatura acaba de entrar na sua rua.

E entrou a toda, cantando pneu. Chamaram os meninos, todos de famílias conhecidas do bairro. Revistas, testemunhas, humilhação — “Sabe com quem tá falando?”: “Cadê os documentos?”; “Tem bagulho aí?”. Não encontraram nada de mais, os meninos estavam rigorosamente limpos. Aproximei-me e tentei ajudar, dizendo que foi uma ação precipitada da faxineira. Um dos policiais, o mais jovem deles, não gostou. Disse que era sempre assim, que quando a polícia aparecia para “pegar os marginais, a própria população atrapalhava”. A essa altura, o pai de um dos meninos, um advogado, já tinha chegado e mudou o discurso policial.

— Será que a televisão vai aparecer? — O exército das faxineiras, reunido ao lado da viatura da PM, ainda tinha essa esperança, em parte, compartilhada pelos policiais — mas, no caso destes, só até a chegada do advogado.

Retomo à dúvida proposta por Glassner: “Estamos realmente vivendo tempos tão perigosos?”. Assim que a polícia se foi e os skatistas tomaram posse da rua, seus pais fizeram algumas ameaças às agora assustadas faxineiras que, na verdade, fazem essas denúncias inspiradas pelo excesso de zelo dos síndicos, todos acometidos de síndrome do pânico.
A quem interessa, de fato, essa utilização político-ideológica da insegurança?

Ao incentivar o interesse pelo macabro — a morte sempre atrai mais do que a vida —, a maioria dos programas de televisão está apenas incitando comportamentos violentos, em que policiais e pessoas comuns se veem aprisionados num mesmo jogo esquemático, orquestrado pela mídia.

A mesma mídia — basta ligar a TV e comprovar — que nos ensinou a ter, diariamente, medo de sequestros, de andar de avião, de carros que andam na rua, de motociclistas, de parar em sinais de trânsito, de entrar em farmácias e padarias, de tirar dinheiro em caixas 24 horas, de ir ao médico, de pedir uma pizza pela entrega rápida, de policiais e bandidos. E até de casar, pela frequência com que andam mostrando casais e namorados se matando.

Acho oportuno lembrar que, em torno dessa dramatização exacerbada da violência gira um ativo comércio, comandado pela mesma legião de oportunistas que, daqui a pouco, quando começar o horário eleitoral gratuito na televisão, vai tirar proveito disso. Será que alguém vai propor uma rediscussão sobre o estatuto do desarmamento e a necessidade de rever a liberação do porte de armas? A quem interessar possa, no Brasil, a indústria de armas e munições arrecada mais de R$ 180 milhões anuais, só em impostos. Ah, e emprega cerca de 50 mil pessoas. Mas e o custo disso?

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.