Entrevista Paulo Tavares (Presidente do CRECI-MG) – “A Pampulha está abandonada”

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o presidente do CRECI-MG, Paulo Tavares, é a favor da verticalização de alguns bairros da Região da Pampulha

Paulo Tavares tem 43 anos de experiência no ramo imobiliário e é especialista em locação de imóveis. Advogado por formação, tem na carreira imobiliária sua realização. Entrou no mercado por meio da Imobiliária Chaves, na época, a maior corretora de Belo Horizonte. Lá, atuou em todos os setores, começando como office-boy e saindo 16 anos depois, como gerente-geral da empresa. Em 1981, fundou a Sótão Imóveis, especializada em administração e vendas de imóveis, e em 1995, com um grupo de empresários criou a Netimóveis, primeiro portal de imóveis do Brasil. Tavares é conselheiro do Creci-Minas há 13 anos, tendo se tornando diretor em 2000 e vice-presidente em 2004, cargo que ocupou até o final de 2009. Atuou como diretor e vice-presidente do Sindicato da Habitação de MG (CMI/Secovi-MG), onde hoje é conselheiro meritório. Está no segundo mandato do Creci-MG. Nesta entrevista ao Portal emorar, Paulo Tavares faz uma avaliação do mercado imobiliário em Belo Horizonte e diz que a Região da Pampulha está abandonada pelo poder público.

Portal emorar — O mercado imobiliário está crescendo muito. A zona Sul é um ótimo exemplo disso; não se acha mais imóvel lá. Como o mercado imobiliário vai crescer nos próximos dez anos? Pra onde e como?

Paulo Tavares – presidente do CRECI-MG: Não há mais espaço para crescer na zona sul. Os espaços que possivelmente ainda existem, eles estão desmanchando prédios pequenos e construindo grandes edifícios, porque casa não tem mais. E quando tem uma casa, está no meio de dois prédios. E estas casas normalmente são de pessoas idosas que resistem vender justamente pela cultura do mineiro, que é diferente da do carioca ou paulista. O mineiro tem em mente deixar patrimônio para o filho. E no mais, a zona Sul, principalmente no bairro de Lourdes, como Belo Horizonte passou a ser a capital dos barzinhos, hoje, na zona Sul se encontra nessas casas remanescentes, os barzinhos ou as confecções. Casas e espaços não há mais…

Portal emorar — Lotes…
Tavares — Lotes, muito menos. Alguns proprietários foram obrigados a vender suas casas, por não ter liberdade nenhuma. Com relação ao crescimento de Belo Horizonte, a própria lei de uso e desuso de solo tem a intenção que o crescimento seja de maneira ordenada. Nessa última lei, a capital está direcionando para outros rumos. A região da Pampulha, por exemplo — É só casa no Bandeirantes. Mas no Jaraguá, Itapoã e Planalto encontram-se muitos prédios. No São José se encontram prédios maravilhosos, de até dois milhões.

Portal emorar — O CRECI, como instituição, é a favor da verticalização da Pampulha?
Paulo Tavares — Isso não é o CRECI, são as pessoas. O CRECI é uma entidade. Se você tomar como base o crescimento, hoje confunde se Belo Horizonte com Nova Lima. Os prédios que a Líder fez em parceria com a Cirelo, são nove torres em uma área de cinquenta e dois mil metros quadrados, lá é Nova Lima, mas todo mundo fala Belvedere. A própria Líder, na campanha de marketing e venda, fala Belvedere. Hoje, Nova Lima é um bairro de Belo Horizonte.

Portal emorar — Mas o senhor é a favor da verticalização da Pampulha?
Paulo Tavares — Em determinados locais sim. Na orla da Pampulha, não. Mas a Pampulha está abandonada. Quem está em Belo Horizonte há muito tempo sabe. Antigamente, não tinha onde passear, todos iam pra Pampulha. Hoje, quem vai pra Pampulha são as classes B e C. Belo Horizonte é carente de lazer, e a Pampulha precisa urgentemente que o governo municipal lhe dê o tratamento especial que um cartão de visitas merece.

Portal emorar — É muito comum ver em Belo Horizonte mais de uma imobiliária vendendo o mesmo imóvel. Qual é a orientação do CRECI? É correto mais de uma empresa comercializar o mesmo imóvel?
Paulo Tavares — O CRECI não pode interferir nisso. O CRECI é uma autarquia; então, só pode autuar, orientar e eventualmente punir o profissional. O papel da entidade é ir através de denúncia ou vai para uma empresa que infelizmente são os maiores facilitadores do profissional ilegal, os empresários . O CRECI só pode autuar e fiscalizar o profissional que é legalmente inscrito. A partir daí, a pessoa é chamada no juizado e responderá por isso.

“O mercado está expurgando o corretor de imóveis que não tem terceiro grau”

Portal emorar — O que o senhor pode orientar a uma pessoa que quer comprar, alugar ou vender um imóvel com relação às imobiliárias e os corretores?
Paulo Tavares — O CRECI orienta que o profissional tem que estar sempre atualizado. Hoje dificilmente você encontra um corretor sem terceiro grau. Existem vários cursos tecnólogos. Porque o próprio mercado está expurgando as pessoas que não têm o terceiro grau. Nas palestras que eu faço, eu sempre falo: “quem vende o imóvel não é o corretor, mas o proprietário; e quem compra é o comprador”. O corretor vende é a informação. Então, se ele não é atualizado e conhece o produto a fundo, o mercado irá expurgá-lo. Primeiramente, o corretor tem que conhecer profundamente sobre documentação e captar a necessidade do cliente. Eu não posso tentar entender se você tem capacidade para comprar um imóvel de um milhão e te oferecer um de trezentos mil, ou o contrário. E hoje, depois do advento do código civil de 2002, o prestador de serviço — seja o corretor, ou qualquer um que atue na área de prestação de serviço —, é obrigado a conhecer o produto que está oferecendo para o cliente e obrigado a informar para esse cliente sobre todos os possíveis problemas que o imóvel possui. Se o corretor não conhecer sobre os problemas do imóvel e isso vier causar algum problema no futuro, o cliente pode processar o corretor por não ter capacidade profissional e ele terá que responder civilmente sobre o dano material que causou. Foi suprimida do artigo 735 do código civil, a cláusula que falava o seguinte: “Se eu não tiver conhecimento do defeito que o imóvel tem, eu não respondo sobre isso.” Hoje em dia, o corretor tem que conhecer a fundo sobre o imóvel; ele é obrigado informar no contrato todos os defeitos do imóvel.

Portal emorar — Normalmente, as pessoas têm em mente que as comissões dos corretores são muito altas. Isso é uma visão caolha, o senhor concorda? Porque é muito melhor pagar a comissão do corretor e ter a segurança que está sendo trabalhada a venda do imóvel. O que o CRECI tem a dizer em relação a isso?

Paulo Tavares — Você falou muito bem: “é uma visão caolha do dono”. O CRECI orienta o profissional. Eu tenho visto negócios caírem, e pessoas tomarem prejuízo. Muitas vezes, a pessoa sacrificou-se e à família para comprar um imóvel. Ou mais de um, para na velhice ter uma vida digna. E, às vezes, o empreendimento é tolido por cair na mão de um falso profissional, ou por vender por conta própria. Então, a pessoa, antes de vender ou comprar, deve dirigir-se ao CRECI, através do telefone 31-32716044 ou através do site www.crecimg.gov.br, para ver se a pessoa é verdadeiramente um corretor, ou se é um corretor e está coerente com as obrigações.

Portal emorar — É um direito do cliente.

Paulo Tavares — É direito do cliente e ele inclusive deve fazer isso. Por incrível que pareça, o nosso código é um dos maiores códigos de ética e também o mais desrespeitado pelos próprios corretores. Infelizmente isso acontece principalmente em mercados com uma dose excessiva de euforia, com positivismo, e não aproveitamos essa oportunidade. Daqui pra frente, vamos sofrer uma estagnação em virtude de várias coisas, falta de mão de obra, farta linha de credito, entre outras. Belo Horizonte cresceu assustadoramente, duplicaram-se avenidas importantes em um período muito curto. Agora, o governo, para incentivar o consumo para o futuro, criou o programa “Minha casa, Minha vida”, que é um ótimo exemplo de crescimento.

Portal emorar — Hoje existe um dado que aponta que 1/3 dos apartamentos em construção estão com atraso na entrega. O que O CRECI orienta?
Paulo Tavares — Não é função do CRECI. Os atrasos são verificados em função de dados que já falei, falta de mão de obra… O que faz com que as obras atrasem. Mas essa falta de recursos é na capital.

Portal emorar — Algumas as pessoas reclamam com relação ao pagamento da avaliação jurídica do imóvel. O CRECI como entidade é a favor de que o consumidor pague por isso ou quem deve pagar são as incorporadoras?
Paulo Tavares — O corretor vai orientar. Se você tivesse que contratar um advogado, você não teria que pagar? Então, por que não pagar pela prestação de serviço ao corretor? O CRECI é totalmente a favor do pagamento da avaliação jurídica. O corretor é um profissional, você pode contratá-lo para diversos aspectos, até mesmo independente da imobiliária, e ele pode procurar um apartamento que você queira. Então, é mais do que justo o pagamento.

  • Muito boa a entrevista com o nosso presidente Paulo Tavares. Ele foi objetivo, simples e direto. Parabens para o entrevistador e o entrevistado.