Entre tiriricas e dirceus!

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Eustaquio02 Quando pensava em palhaços, o primeiro nome que me vinha à cabeça era o do Carequinha, que ainda cheguei a ver na TV. Também vinha o de um que trabalhava na extinta TV Itacolomi, e se chamava Moleza. Esse, além disso, era pai do ex-craque Toninho Cerezo, que costumava contracenar com ele, e se chamava Dureza… Depois disso, um branco total. É mais ou menos assim, como se palhaços tivessem um espaço de tempo certo para existir e transitar na vida da gente, pra depois sumir do mapa. E aí, veio o Tiririca, que se tornou capa de revistas famosas, alvo de pesquisas, de ensaios políticos e sociológicos. Deu até no New York Times. No Le Monde também! Lá, como disse uma vez o velho De Gaulle, saiu que “Le Bresil n’est pás um pays sérieux”… Ou seja, segundo o Le Monde, continuamos não sendo um país sério e o Tiririca seria uma boa prova disso. Tiririca tomou posse e foi viver um merecido ostracismo, para curtir em paz seu ótimo salário de deputado.

Conversei com algumas pessoas sobre isso, mais no sentido de querer me informar, de entender porque só no Brasil acontecem coisas assim. Descobri que, por antecipação, todos os males já existentes e os que ainda estão por vir passarão a ser debitados na conta das centenas de Tiririca que, a cada eleição, ao se tornarem candidatos, se tornam alvo do escárnio e da indignação de tantos. Mas que, mesmo assim, se elegem. Por quê? Porque votamos neles.

Há vários sucedâneos do Tiririca nas eleições atuais. O quadro dos candidatos a uma vaga na Câmara Municipal de Belo Horizonte, por exemplo, beira o realismo fantástico. Alguns, me conta um amigo, cientista político, vão se eleger.
— O povo se identifica com esses caras e vota neles também como uma forma de vingança contra esses figurões que entram em tudo enquanto é CPI e sempre dão um jeito de escapar; esses caras com jeitão de Zé Dirceu, de terno e gravata…

Há um rapaz muito humilde, que lavava carro numa rua próxima à minha, que fiquei sabendo pela faxineira do prédio, vai ser candidato. Ela não sabe por qual partido, mas diz que vai votar nele assim mesmo, “porque esse negócio de partido é uma coisa muito relativa” (palavras dela). Fiz-lhe, então, uma pergunta tão ingênua quanto cretina.
— Você conhece as propostas políticas dele?
— Não. Acho que ele não tem nenhuma, mas uma coisa eu garanto, ele nunca roubou.

Tá certo! Até pouco tempo, Danusa, a faxineira, votava em um velho vereador que, todo ano, financiava não sei quantos churrascos e feijoadas pra comprar os eleitores de sua região. Elegeu-se e se reelegeu várias vezes. Dizem que, caindo aos pedaços, está de novo em campanha. Ou seja, vem mais feijoada e mais churrasco por aí. E tome de título de cidadão honorário e de mudança de nome de rua pra cima dos eleitores.

A cada novo dia tento acordar com um pensamento positivo, com vontade de enxergar uma luz mais forte no fim do túnel. Faço de tudo pra não parecer pessimista nem derrotista. Mas ando cansado. Eu, que enfrento diariamente a Avenida Cristiano Machado (cujas obras desvairadas, esta semana, quase deixaram a população da Cidade Nova sem água…) e sofro com uma poluição sonora que não tem limite (agravada agora com as campanhas eleitorais), estou quase entregue, quase entregando os pontos. Ando cheio de interrogações — a esta altura da vida, nada deveria ser assim tão drástico — e me pego cada vez mais desanimado pela falta de respostas… De boas respostas, no mínimo convincentes.

Certamente não anularei meu voto. Isso ainda me dá o eterno direito de protestar, de fazer oposição e de reclamar onde e quando quiser. Mas, de Tiririca em Tiririca, de Zé Dirceu em Zé Dirceu, confesso que fica difícil pra qualquer cidadão honesto remar contra a correnteza nesse denso mar de lama que se tornou o Brasil. Peço desculpas a todos, mas hoje estou exercendo plenamente meu direito inalienável de ser chato e pessimista. Até semana que vem.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Maria Cecília

    Não tem que pedir desculpas, nem achar que foi chato.. Você apenas relatou a verdade, afinal quantos votos são vendidos em troca de gasolinas, festas, promessas… eternas promessas? Tô com você nessa, não anulo meu voto, mas tô de saco cheio de ralar todo dia por um simples salário e ver pessoas que nem comparecem ao local de trabalho com salários muito além do que eu posso imaginar e ainda fazer greve querendo aumento.. é o cúmulo..Só no Brasil. Campanha tem dinheiro de sobra, mas investimento em atletas, esportistas para passarmos menos vergonha diante do mundo inteiro, como nas olimpíadas, não tem.