Entre nichos e sinergia

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“Nem bem amanheceu, e já chega a noite a encher meu coração de sombras e suspeitas; saudades das saudades que já não tenho” (Florbela Espanca).

Entre nichos e sinergia - Crônica por Eustáquio TrindadeViver sempre foi bem melhor que sonhar. Mesmo quando, que nem hoje, viver venha se tornando uma espécie de luta interminável, uma guerra a se travar nas minúcias do cotidiano para simplesmente ter o direito de seguir em frente. Às vezes, nem isso — lutamos só para não retroceder, quando temos consciência do quanto foi difícil chegar até onde chegamos. Hoje, apesar dos tantos famosos avanços tecnológicos, que surgem mais do que em qualquer outro tempo, a gente tem que ter muito peito pra viver.

Ao se falar na vida, no entanto, não falamos da vida. Falamos das guerras, dos comércios, dos juros, da inadimplência, da contenção de gastos, da redução de tarifas, da correlação de forças, dos estoques de crédito, do aumento total de dinheiro emprestado, do cheque especial, do pecúlio, da contramão da taxa básica, da depressão mundial, da redução da demanda, da capacidade de endividamento do consumidor, dos consórcios, da construção civil, do boom imobiliário, da invasão chinesa, do aplicativo que permite “aplicar” filtros em fotos e compartilhá-las, das dez vagas na garagem, do dólar em queda livre, da rentabilidade acumulada, de como eu aplico meu dinheiro, do mercado futuro…

Eu poderia ir mais longe só para continuar explicando porque falar da vida, às vezes, tem ficado chato, vazio, inconsequente.
E olha que nem falei em nicho e sinergia. Porque, se eu pudesse, eu matava o nicho e a sinergia. Comecei a desenvolver essa sanha assassina desde o dia em que ouvi pela primeira vez o que essas duas palavras passaram a representar, quando saltam da boca dos tecnocratas e dos lobistas de plantão. Significam algum tipo de atividade humana no que tem de mais torpe, perverso e competitivo. Ganharam um sentido ruim, de puxar o tapete, de passar por cima dos outros. Lei de Gerson, em suma.

Em alguma medida, na boca desses caras, vieram para substituir trabalho, esforço, alguma coisa digna, decididamente muito mais nobre, que a cabeça medíocre dessas pessoas jamais poderia perceber.

Tive um chefe assim, por um breve tempo. Era sinergia pra cá, nicho pra lá; nicho pra cá, sinergia pra lá. Caiu, entrou em desgraça, deu a volta por cima e reapareceu numa dessas assessorias de alto nível, sempre disponíveis pra esse tipo de gente, em cabides de emprego custeados pelo contribuinte. Aliás, sempre me intrigou a capacidade infinita que esses aspones fênix têm de se reerguer das cinzas e do mar de lama. É espantosa. E assim, os medíocres vão ganhando o mundo. Às vezes, se pintando como exemplos de gente bem sucedida.

Mas, voltemos à vida. Num bar, ouvimos — eu e Rosália, uma amiga jornalista que hoje trabalha em São Paulo —, sem querer, a conversa de um grupo de jovens, de uma mesa ao lado. Noite chuvosa, clima frio, mais convidativo a vinhos do que a cervejas. Papos discretos, à meia voz. Coisa de gente educada. Um casal tinha acabado de comprar um apartamento. Não falaram em nada que está na lista de horrores citada lá no alto. Falaram apenas que ter um apartamento é bom, porque é sempre bom ter um lugar pra voltar. Gravuras de Kandinsky, poucos móveis, privilegiando o espaço para circular. Em compensação, estantes cheias de livros, DVDs e discos. O rapaz disse que estava investindo nos clássicos — “A harpa de ervas”, um Truman Capote raríssimo, que encontrou num sebo, numa versão portuguesa. A garota disse que preferia Dashiel Hammett, Raymond Chandler, Norman Mailer… Citou “Belos e Malditos”, possivelmente a obra-prima de Scott Fitzgerald, em sua opinião. E tome de Cesar Franck, Julie London, Thelonious Monk, um Miles Davis dos primeiros tempos, com o Modern Jazz Quartet, que eles guardavam como se fosse um raro tesouro, mas que pareciam felizes em compartilhar. A moça contou que tinha ganhado um livro de receitas italianas. Estava experimentando um molho de ervas que deixava a massa com aromas mediterraneamente irresistíveis. “No sábado, vamos ver se vocês me aprovam”.

É estranhamente comovente perceber que é em momentos assim, quando nossa fragilidade parece tão mais exposta, que o coração consegue encontrar forças para se multiplicar em sua dura tarefa de escapar das arapucas dos nichos e das sinergias armadas pelo mundo. É aquela história de tudo valer a pena quando não se tem a alma pequena.
Ah, sim. Eles não tinham jeito de ter nem 25 anos.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo