Em nome da Copa

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 Em nome da Copa…

Essa aqui, ouvi de um motorista de táxi, que mora no Guarani, bairro da região Norte de Belo Horizonte. A caminho do aeroporto de Confins, ele começou a tecer uma série de comentários sobre onde era e onde não era bom morar em Belo Horizonte. E, possivelmente, com algum conhecimento de causa, pois, conforme deixou bem claro, desde o início da conversa, -“quem melhor conhece a cidade são os motoristas de táxi”.

 

Daí, começou a me demonstrar o que, a seu ver, seriam as vantagens de morar no Guarani: é um bairro grande, arejado, com muita área verde, de fácil acesso e pouca violência. Mas como nada parece ser totalmente perfeito hoje em dia, passou a falar também do que considerava ser o grande pecado do Guarani: os preços dos imóveis e dos alugueis. Mais uma vez, fez questão de deixar bem claro que sabia do que falava, tinha dois apartamentos -” todos bem modestos, na verdade, mas seus -” na avenida Waldomiro Lobo. O susto veio quando, em comum acordo com a patroa, resolveu vender os dois apartamentos para comprar -“um maior e mais bem situado, com três quartos e duas vagas na garagem”. João (assim chamaremos nosso personagem) conta que levou um susto daqueles ao verificar, depois de muita procura, que um apartamento -“maior e mais bem situado”, no mesmo bairro, lhe custaria os dois que já possuía e ainda teria que financiar uma parte. E pôs-se a filosofar sobre de quem seria a culpa desse desvario. Já perto dos 50 anos, João mostrou que era um homem bem informado, pelo menos no que diz respeito a se lembrar de crises e pacotes econômicos. Discorreu com louvável fluência da crise do petróleo à  inflação galopante do governo Sarney -” -“aquela que fazia disparar o gatilho”. Naqueles tempos, continuou o especialista, foram essas pragas que fizeram disparar os preços dos aluguéis, que triplicavam as prestações do Sistema Financeiro de Habitação de um mês para o outro e prolongavam as dívidas dos mutuários ad infinitum, fazendo muita gente perder suas casas. Ouvi com atenção e ponderei que, hoje, pode-se dizer que há algum controle sobre a inflação. Quis saber, então, quem seria o culpado para imóveis custarem preços de Paris e Nova York em uma cidade como a capital mineira -” dos Buritis ao Guarani, do Gutierrez ao Bairro União. Sem titubear, João tinha o nome do culpado na ponta da língua: -“É a Copa do Mundo”. E, como a justificar que os motoristas de táxi, por percorrerem a cidade diariamente, em todas as direções, a conhecem como poucos, mostrou-se cético. -“Vai piorar mais ainda depois da outra Copa”. Que outra Copa? -“A que vem depois, a que tem todos os esportes”. Com olímpico respeito, confesso que me senti aliviado por chegarmos, finalmente, a Confins. Só que, dentro da chacoalhante aeronave, repleta de turistas em busca do eldorado de Buenos Aires, me pus a pensar que João poderia estar com a razão. Quem, senão a Copa do Mundo, explicaria um apartamento de um milhão de reais no Bairro União?

Eustáquio Trindade Netto