ELEIÇÕES: TRAGICOMÉDIA EM UM ATO

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ELEIÇÕES: TRAGICOMÉDIA EM UM ATO Crônica por Eustáquio TrindadeEleições

PERSONAGENS: Tia Camélia (75 anos, “juscelinista” fanática); Pai (professor); Filho (adolescente, 16 anos).

CENÁRIO: sala de jantar, apartamento de classe média um pouco acima da emergente classe C.

Filho — Pai, o que é um vereador?

Pai — Bom, há diversas formas de responder, porque um vereador, na verdade é um ser misterioso, do qual pouco sabemos hoje em dia…

Filho — Mas, pai, isso quer dizer o quê?

Pai — Vou tentar me explicar melhor. É uma espécie de ser que nós, pobres mortais, gente comum, que trabalha, que quase se mata de trabalhar, elege para um paraíso, quero dizer, para a Câmara Municipal, com a função de representar nossos interesses.

Filho — Que interesses?

Pai — Tudo que é relativo ao bem comum, aquilo que, de certa forma, vai trazer benefícios a todos.

Filho — Pai, então, ser vereador é uma coisa muito boa…

Pai (visivelmente constrangido) — Em tese, pelo menos.

Tia Camélia (interferindo) — Um vereador é um maquinista, porque está sempre pilotando o trem da alegria; um vereador é alguém que sofre da síndrome de São João Batista: não pode ver uma rua, que cisma de batizar. Normalmente são pessoas muito dadas…

Pai — Tia Camélia, assim a senhora está interferindo negativamente na educação política do menino…

Tia Camélia (ignorando o aparte) — … Muito dadas, porque estão sempre dando, quer dizer, distribuindo títulos…

Filho — Da dívida pública?

Tia Camélia — Não, de cidadão honorário! Se você não for daqui, é só chegar lá, entrar na fila e fazer seu pedido. E são pessoas muito devotadas à família também, porque, veja você, não estão nem aí para esse conceito negativo de nepotismo: sempre dão um jeito de proteger e de valorizar a esposa, os filhos, os tios, os primos, os cunhados, os irmãos, os concunhados, os avós, os tios da noiva do sobrinho, do afilhado, da amante, dos filhos da irmã da amante, os amigos… Ah, para com os amigos, então, eles têm uma relação exemplar.

Filho — Tipo o quê?

Tia Camélia — Tipo é dando que se recebe, uma mão lava a outra… A retribuição de favores entre eles é algo tão grandioso como a Grande Muralha da China!

Pai — Tia Camélia, um vereador é muito mais do que isso!

Tia Camélia — É claro que é. Você sabia (agora dirigindo-se especificamente ao Filho) que eles gostam tanto de si mesmos, que podem votar e aumentar seu salário sem pedir licença a ninguém? Quer dizer, às vezes, alguém pode aprontar com eles e botar um ventilador nessa farofa, mas os vereadores, devotados como são, sempre dão um jeitinho… É uma classe muito unida, sabe? Na hora de aumentar o próprio salário, não tem essa de ser do partido tal ou do partido sei lá o quê: direita, centro e esquerda sempre se unem em torno dessa nobre finalidade, que é a de legislar sobre seu próprio salário. Um benefício aqui, outro ali… É uma maravilha ser vereador, meu filho.

Filho (incapaz de conter o entusiasmo, batendo palmas, batendo o pé no chão e gritando) — Pai, quando eu crescer, eu quero ser vereador.

Tia Camélia — Então, temos que começar a nos preparar desde já. Vamos ligar a televisão e assistir o programa do horário eleitoral gratuito, pra você ver como é que é um vereador.

TELEVISÃO LIGADA; FAMÍLIA ESPREMIDA EM UM SOFÁ DE DOIS LUGARES, BEBENDO Q-SUCO E COMENDO PIPOCAS, ASSISTE EM SILÊNCIO AO PROGRAMA DO HORÁRIO ELEITORAL.

Tia Camélia — Viu que beleza? Quando você crescer, quem você vai querer ser? Neco do Pastel, Chico Barbeiro, Dadazin, Cinira da Baixada, Lulu da Pomerânia, Tostãozin, Wanderley do Pandeiro, Neusinha da Cuíca, Reynaldinho Gaúcho, João Binladem, Zinho Taxista, Mané do Açougue, Juca da Padaria, Lalá do Cachorro Quente, Tonico Motoqueiro, Neném da Guaicurus, Tuca do Randevú, Paulinho da Cueca, Nhanhá Lavadeira, Belinha Ciclista, Figênia do Posto, Yellow do Sacolation, Têca do DVD Pirata, Lelé da Cuca, Mariinha que vende perfume ou Tutinha do Nhoque?

(Cai o pano, mas há notícias de que Filho estaria indeciso entre Neco do Pastel, Têca do DVD Pirata e a Lalá do Cachorro Quente).

E nós? Que escolha temos?

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.

  • Maria Cecília

    Bravo! Bravo!! Perfeito o espetáculo, mas uma pena ser mais real do que a gente gostaria!