É proibido ser infeliz na Venezuela

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Eustáquio Trindade
Eustáquio Trindade

Eustaquio02Eunice foi despedida ontem. Na verdade, pediu pra ser mandada embora. E já recebeu tudo a que tinha direito — décimo terceiro, férias proporcionais, algumas gratificações e a promessa de que, pelo menos até março, ainda terá direito ao plano de saúde. Eunice é casada há dezoito anos com Hector Elizondo Varella, um engenheiro venezuelano que até hoje não se acostumou com o arroz com feijão e está pensando seriamente em voltar, agora em definitivo, a seu torrão natal.

— Os filhos deles não falam quase nada de espanhol e só viram os parentes venezuelanos umas três ou quatro vezes, se tanto — afiança Glorietty, uma amiga do casal, como que justificando a decisão.

Não é a primeira vez que Hector fala em voltar. Nas anteriores, não houve como vencer a resistência da esposa, que sempre admitiu amar os mares, a comida e os ritmos da Venezuela, mas não se deu de jeito nenhum com da sogra. Mas esta, morta há três anos, deixou de ser um empecilho e Eunice agora vê com simpatia a ideia de se mudar para o país vizinho. Diz que tem boas recordações de lá.

— Os venezuelanos se parecem muito com os brasileiros: são alegres e amam as praias, que são lindas, e a música. A Venezuela é a terra dos merengues, das guarachas, cúmbias e outros ritmos bem caribenhos, que sempre me fascinaram.

Mas há outros motivos. Na verdade, um só, e bem forte. Eunice, se pudesse, viveria dentro de um shopping, pois não há nada que goste mais do que consumir. Para ela, consumir é viver! Tudo é motivo para sair às compras: de datas festivas à mais leve suspeita de uma depressão.

— Depressão se cura assinando um cheque e enchendo a bolsa de boas compras.

O conselho foi de uma amiga psicóloga, que costuma fazer analogias muito curiosas entre divãs e lojas de shopping.

O casal está bem de vida. Tem imóveis aqui e na Venezuela, pode se dar ao luxo de consumir sem juízo. Mas o melhor de tudo é que Eunice acabou de saber que o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, criou uma tal de Secretaria da Felicidade e que, por decreto, mandou dizer que é proibido ser infeliz na Venezuela. Para tanto, decretou mais uma lei, desta vez antecipando o Natal para este mês novembro, para que todo mundo comece a ser feliz desde já. Eunice ainda não sabe se haverá outro Natal em dezembro, mas está contando com isso, pois poderá, pelo menos duas vezes, sair às comprar natalinas — uma vez agora, e a outra no mês que vem. Por enquanto, ainda não tem a menor ideia do que poderá encontrar no comércio venezuelano, já que odeia artesanato, mas, há tempos, já sabe que o país tem um expoente maiúsculo no mundo da moda, a estilista Carolina Herrera, um orgulho de todos os venezuelanos, do Orenoco a Maracaibo.

A ideia de comprar dezenas de produtos da griffe CH já vem tirando seu sono. Hector, marido apaixonado à moda antiga, do tipo que, mesmo depois de tanto tempo casado, ainda manda flores, vê com paciência infinita os arroubos consumistas da esposa e só pensa em lhe fazer as vontades. Além do mais, Roberto Alfredo e Juan Daniel, os filhos, poderão se transferir para uma universidade de Caracas e o casal poderá, enfim, desfrutar de sua belíssima casa na Isla Margarita, uma pérola incrustada em pleno mar do Caribe. Camisas estampadas, redes, piña colada, merengues, camarões flambados ao rum, e o ritmo frenético de um cha cha cha à beira mar, tudo isso tem deixado a cabeça de Hector completamente alucinada. “A Venezuela”, disse ele a um amigo, “está vivendo um grande momento de sua história — somos o primeiro país do mundo a ter uma Secretaria da Felicidade”.

O amigo lê jornal todo dia e já conhece essa história. O Nicolás Maduro não quer que ninguém se lembre que a Venezuela é o terceiro país mais violento da América Latina (tá na frente até do Brasil), o que tem a inflação mais alta (48% ao mês), com problemas sociais a perder de vista, e sombrias perspectivas quanto ao futuro. Fortemente amordaçada, a imprensa não pode noticiar que a Venezuela tem um déficit habitacional crônico, com favelas proliferando no entorno de todas as grandes cidade e, principalmente, de Caracas. Maduro tem se dado também ao trabalho de atribuir ao finado Chaves alguns milagres. Muita coisa que não dá pra saber, porque a imprensa séria vem se recusando a publicar a lista de baboseiras que o governo prepara diariamente para reforçar o bolivariano mito do caudilho morto. Mas o folclore é imenso.

Consta que, tal como Cristo, Chaves também deu um jeito de ressuscitar e teria até mesmo aparecido numa favela próxima à capital, onde realizou o milagre de fazer com que uma inválida tornasse a andar. Mercedita, uma amiga venezuelana de Eunice, chavista convicta, foi quem lhe contou, via facebook. Disse também que não foi o único, que há uma série de outros milagres acontecendo por todo o país. No momento, no Natal temporão da Venezuela, dizem que Chaves pode ser visto até como um sucedâneo de Papai Noel, pois há desenhos e caricaturas suas em várias lojas, substituindo o bom velhinho junto à criançada. Só não há renas, porque aí também seria demais, mas, em casa, muita gente tem imagens de Chaves em seu altar particular. Essa coisa do milagre vem sendo levada tão a sério, que Mercedita está passando até um documento, que será em breve enviado ao Papa Francisco, no Vaticano, solicitando imediatamente sua beatificação. Milhares já assinaram, segundo Eunice.

— O próximo passo será a canonização — teria lhe assegurado Mercedita.

O problema é que a felicidade, artigo tão raro nos dias de hoje, é algo que costuma não se prender a secretarias, ministérios, repartições públicas ou coisas do tipo. Maduro, com certeza, nunca ouviu Tom Jobim cantar que a felicidade é como uma pluma que o vento vai levando pelo ar… “Voa tão leve, mas tem a vida breve; precisa que haja vento sem parar”. Do jeito que as coisas andam, pelo visto só um tornado pra manter o vôo dessa pluma.

Eustáquio Trindade Netto é jornalista e professor de jornalismo.